Eu queria fazer de minha vida um palco iluminado. Não fiz e hoje sou palhaço das minhas perdidas ilusões. Meu primeiro hit a figurar na parada de fracassos foi nternacional. O Brasil era pequeno demais. Tanto para mim quanto para o João Stoned. Fui com ele em 1967 Para Noviorque. Levei um Violão DiGiorgio Concerto. Lá, vendê-lo por 800 dólares era mole. E foi o que fizemos. Deu para viver dois meses certinho. Aí começou o perrengue. Nossa ilusão de ser astro de rock foi pro saco junto com os últimos dois dólares e 25 do hamburger e da Coca-Cola que tentou saciar uma fome que aumentava só de pensar na dureza que era nosso futuro imediato.
A grana deu , na estica, certinho para viver os dois meses sómente por uma razão. O Hugo Raposa, outro amigo, já tinha ido uns três meses antes e tinha alugado vaga no apartamento de uma cubana. Raposa era bonitão, ex-P.E., e arrumou logo um caso com a Dolores-esse era o nome da cubana. E, quando nós chegamos em Idlewild( esse era o nome do aeroporto na época), os dois estavam lá nos esperando. Era dezembro e tava fazendo um frio do cão. De lá até a Rua 135, em Manhatthan era chão prá caraca e lá viemos nós quatro de ônibus, até uma estação do metrô que desse para a gente entrar no subway e parar na esquina da sétima, onde tinha uma station.
Prá mim, garotão, tudo era lucro. A gente falava um inglês meio de academia( tinhamos feito o High School no Nelson´s School) e todo mundo via que a gente era mané. Estranja. De fora. Mas foi esse inglês que salvou a gente, burrego de primeira viagem, pois quando a grana acabou, tivemos que procurar algo prá fazer e arrumar um troco para ao menos continuar comendo hamburger, chili e beans na cafeteria da esquina, quando a gente não fazia um supermarket prá Dolores mostrar que sabia fazer uma comida bem parecida com a caseira, já que a comida cubana lembra praca a nossa. Tem até feijão preto nas paradas, mermão! O maço de cigarro era 20 cents. Ninguém bebia. Só um fuminho uma vez ou outra e a cubana arrumava um bom.
Fomo vivendo nessa gangorra até 69. Uma faxina aqui, outra alí. A hora trabalhada pelos sindicatos era 4 dólares e 85 cents. Os gringos filhos da puta pagavam a gente um máximo de 3 dólares e quando eram bonzinhos. Cansei de trabalhar nove horas e no final do dia receber 16 dólares. Dava vontade de chorar, chamar mamãe e o escambau. Fazer o quê?
O John ( já tinha deixado de ser João e a gente acostumou rapidim...) um dia arrumou uma viração de lavar cadaver em funerária israelita. Podia ser goy( o dono da casa não se importava se fosse ou não fosse judeu). Pagavam 100 dólares por dia. Foi lá e voltou em três horas. Não conseguiu comer direito por uns três dias. Teve até pesadelo. Passou até agua raz na mão para tirar a impressão de tocar em corpo morto. E a gangorra fazia a gente compensar no delírio.
Trabalhava-se duro para juntar algum e ir até o Fillmore ver a banda que tivesse em cartaz. Se a coisa fosse boa, como foi o Goodbye Concert do Cream, valia comprar um ácido manêro e ir para lá viajando. Um dia, soubemos na Washington Square que o ônibus do Ken Kesey ia ficar três dias na praça, dando ácido de graça para todos que participassem das trips, dirigidas por um cara chamado Timothy Leary- que a gente e mais alguns nunca tínhamos ouvido falar. “-Timothy? S*** man.....I dont know him...”.
Era só se inscrever numa banca que tava montada ao lado daquele cubo equilibrado no centro da praça.Lá fomos nós quatro( fizemos a cabeça da Dolores)e botamos os nomecitos na lista. Nossa participação durou apenas uma viagem. Dolores não segurou a onda e entrou na maior bad trip, achando que uma barata amarela tava atrás dela o tempo todo. Ela espantava a barata com o pé, mas ela continuava ali. Foram oito horas de eu e John rindo, Hugo puto e Dolores batendo com o pé no chão espantando uma coisa que só ela via.
Mas, as rosas também tem espinhos e um dia, aconteceu. Estávamos faxinando um prédio na Times Square quando a imigração pintou. Fomos em cana. No Green card, no Social Security. Entrei em paranóia. Eu tinha algum guardado exatamente prá uma merda dessa e foi o que fiz. Não tinham apreendido o passaporte, pois eu tava sem ele, só com uma carteira de motorista fajuta de Albany. Comprei passagem e me mandei. Nem esperei o julgamento da coisa.
Voltei prá casa da mamãe, pros meus discos e agora era um outro cara. Vim com a roupa do corpo. Nada. Num trouxe nem um Lp. Apenas as lembranças. E que lembranças........
Por que não escrever sobre elas? “É mesmo, cara! Tu tem jeito.....dá até prá levantar um troco!”................Porque não, né mesmo?...............

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