Assim que eu comecei a ler sobre música e espantar as lendas urbanas musicais da minha cabeça, a crítica geral se dividia em duas correntes majoritárias: a antiga – encabeçada por Brício de Abreu e que tinha como expoentes Jota Efegê, Francisco Guimarães, Orestes Barbosa e a nova – encabeçada por Lúcio Rangel e Sérgio Porto, onde Ary Vasconcellos pontificava.
Sérgio Porto – a quem alguns atribuem a invenção do termo Bossa Nova era o cara dos grandes escritos, o cara que tinha redescoberto Cartola lavando carros no estacionamento do Ministério da Fazenda, o cara que falava bem da música nova e da velha guarda, sem nenhuma torcida contra ou a favor. Tentou inventar Jorginho Guinle como crítico de jazz, mas o playboy não quis nada com a dureza e Sérgio deu com os burros n´ água
Atrás dele vinham Sérgio Cabral( criador do Zicartola), Hermínio Bello de Carvalho, Paulinho Tapajós e Ricardo Cravo Albim. Nestor de Hollanda e José Ramos Tinhorão se alinhavam mais com os antigos e davam uma de Rogério Corção, rezando um padre nosso mais fervoroso que o do Papa.
Tinhorão conseguia ser detestado por todos. Tom Jobim, ao falar do desafeto, assinalava:"Toda vez que chego em casa de manhã, dou uma mijada boa num tinhorão que têm no jardim". Já Bituca tinha a certeza de que o crítico falara mal de seu primeiro disco com Wayne Shorter sem ouvir nenhuma faixa.
Quando o BRock fez a praia, se transformando na deusa maia das gravadoras, Tinhorão já havia caído no Limbo. Segundo ele, um crítico deve passar para a história escrevendo livros. E ele escreveuvários dos quais não me lembro de nenhum título.
A crítica que me interessava- falando do nacional novo e do internacional que pintava – tem início com Sylvio Túlio Cardoso, que, com sua coluna diária em “O Globo” falava de tudo um pouco, agradando a gregos, troianos e o resto. Mais tarde, Júlio Hungria veio pelo JB a falar de tudo também, ao lado de Tárik de Souza. Júlio foi o inventor do “Autofalante”, House organ da EMI- a primeira gravadora a ter um jornalzinho falando de seus contratados.
Quanto a Ary Vasconcellos , este queimou o filme ao achar que Bob Dylan e Donovan Leitch eram a mesma pessoa e outras bobagensdo mesmo quilate.
Nessa época idílica, a crítica funcionava como uma porta de saber em relação ao outro lado da vida artística, falando de agendas e possibilitando a todos ter um acesso quase que irrestrito ao que realmente interessava ao leitor consumidor de música e eventos.
Era o tempo em que falar com artista era fácil. Bastava ligar para sua( dele) casa e marcar entrevista. Quase ninguém possuia assessor de comunicação e as Ivone Kassus da vida foram surgir bem mais tarde, como obstáculos quase que intransponíveis ao acesso, prejudicando para sempre o trabalho de todos em detrimento de alguns eleitos de suas agendas, sendo - em vários momentos - mais estrelas do que aqueles a quem assessoravam.
A virada da maré, isso é, o artista só divulgando aquilo que lhe interessava ou o que interessava a seu empresário acontece quando Guilherme Araújo- empresário da bahianada( gil,caetano, bethania e gal), pela GAPA(Guilherme Araujo Produções Artísticas), lança a primeira assessoria de imprensa especializada, chefiada por Amin Khader. Um pouco mais além, Mônica Lisboa faz o mesmo para Rita Lee, tendo Suely Aguiar como cabeça da coisa.
A partir desse marco divisório, toda gravadora fundo de quintal partiu para a montagem de uma assessoria, na tentativa de filtrar o interessante para elas do interessante para a imprensa. Começa a era dos presentinhos, dos shows restritos, das sessões abertas de estúdio e outras invenções promocionais. Algumas deram certo. Outras nem é bom falar delas.
Usando a imprensa especializada como cobaia, as assessorias promocionais das gravadoras partiram para a manipulação da massa e lançaram o estilo “ao vivo”. Todo artista conhecido têm, no mínimo, um “ao vivo” em seu catálogo. Mais tarde veio o “acústico MTV”, feito até por Chitãozinho e Xororó. E hoje, depois de esgotadas todas as possibilidades, o disco vive uma maré de sapo daquelas, sem nenhuma luz a pintar no fim do túnel, se é que o túnel têm fim.
Hoje, a imprensa especializada também vive um impasse. Com o enxugamento dos catálogos, falta matéria e falta qualidade na matéria prima que surge. Por outro lado, os novos críticos são meros resenhistas de lançamentos, além de despreparados, sem conhecimento ou referência, já que erros de informação são frequentes nas matérias e/ou críticas. O atual resenhista deixou de ser isento e virou tiete - aquela espécie de admirador tão bem descrita na letra da marchinha de Gilberto Gil.
Ler sobre música é dar o braço à desinformação. E alguns teimam em fazer crítica, não se sabe com que capacidade para tal. É chato se falar assim e e colocar em animosidade com uma parcela de coleguinhas, mas essa é a realidade. Esse é o hoje em dia. É muito difícil admitir essa extinção de classe.

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