Se eu for usar o rótulo, o primeiro bluesman que eu conheci foi o Zé. Zé Laforgue foi meu colega de Ginásio no Santo Agostinho, mas sua paixão pelo Blues começou no Pedro Segundo, sede Humaitá. Foi o primeiro conhecido a arranjar uma Marine Band autêntica. Tinha uma em dó e não se separava dela nem para cagar. Mais tarde, aprendeu sozinho a tocar violão e virou artista manjado, gravando um compacto(”O Suburbano”), cuja batida tava meio fraca e se perdeu pelo caminho.
O João Stoned foi o segundo. João era moçambicano e meu vizinho. Morava num prédio que o tio-avô dele tinha construído e tá lá em pé até hoje, na esquina de Borges de Medeiros com General San Martin, bem em frente ao de mamãe. A gente tocou junto uns três anos, até irmos embora para Noviorque. Quando o João voltou, em 1970, trouxe uma SG Les Paul cherry e um monte de discos de Otis Spann, Muddy Waters, Willie Dixon e Bo Diddley. A SG ele vendeu prum tal de Ronaldo – que morava numa mansão na Gávea - , que depois a trocou com o Pedrinho da “Bolha” por uma Stratocaster e um Tremendão com duas caixas. Os discos nós ouvímos até quase descolar faixa por faixa.
Foi com o João que eu comecei a intuir que o Blues era realmente um estado de espírito. Tocar o Blues era uma coisa. Ser um bluesman e viver o blues era outra radicalmente diferente. Pela filosofia de João, nós( eu e ele específicamente) nunca seríamos bluesmen por uma série de razões, a começar que nós eramos whitemen insensíveis, completamente wasps( no que ele tava coberto de razão). Depois, porque nós nunca iríamos a um cruzamento de highways fazer um pacto com o barão, pela simples razão que éramos dois cagões. Já tínhamos puxado o freio em frente a heroína e nunca teríamos cu de peitar o diabo- coisa que ele também tinha razão. Bluesmen eram Luther Allison, Robert Johnson e outros mais, que foram a um crossroads e brincavam de igual para igual com a sweet jane. Nós? Nunquinha!
A primeira grande discoteca do assunto que eu ouvi foi a do Carlito. Carlito foi o primeiro harmônica player de fato a aparecer no Rio- bem antes daquele cara que tocou no Blues Etílico. Carlito tocava os clássicos de Little Walter e Sonny Boy Williamson na gaita, mas só tocava. Não acrescentava nada e repetia os clichês até a exaustão, coisa que o Zé tinha mais feeling e dava de dez a zero. Valia só pela discoteca.
Frustrado por não ter uma levada boa nem me sentir um bluesman, ao menos decidi montar uma discoteca razoável- cheia de vinilzada e cdzada. Dentro da postura de whitemen insensível, até que não me comportei tão mal. Meu material até que pode ser considerado razoável, já que tenho os clássicos e mais alguma coisa boa como Big Mama Thornton, Jimmy Witherspoon, alguma coisa da Congress Library Label- etiqueta do Congresso norte-americano e responsável por mais de 24.000 horas de gravação de tudo que faz parte do folclore dos EUA e um material esparso vindo de todos os cantos do planeta.
Sou um bluesman na intenção e no conhecimento. Sei das coisas sem ter precisado passar crawling king snake entre os dedos(dizem que o mais recente a fazer a coisa foi o Elvin Bishop), conversar com o barão ou aguardar a visita do the doctor. E vou vivendo aqui nesse meu quarto fechado, entre uma garrafa de Jim Bean e minha Echo Vamper, que me faz ouvir os miados do gato arranhando a janela para entrar na minha alma. Se for p**** eu convido prá entrar. Se for cat, não passa do alisar.

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