Coroei-te de rosas senhora, inda
os espinhos, que se me perfuravam os dedos...

Os certamente centenas de milhares de milhares de poemas escritos para se coroar alguém me fazem pensar: O que é coroar alguém de flores? Tecer uma grinalda com hastes e galhos e botões, costurando as fibras, os talos; uma arte. Arte perdida certamente. Ou quase. Quem hoje em dia sabe a técnica de se tecer uma coroa de flores? Na internet, procurando-se, nada se acha. Tenho vontade de conseguir as flores e tentar tecê-las. Tranças de três fios que são fáceis.
Bouganvilles, boninas, jatobás-mirins.
Mas e as rosas? Como pode ser possível trançar uma coroa de rosas sem se furar os dedos todos de espetadas? Os galhos das rosas são totalmente espinhentos...
e duros, e rígidos; não se vergam e os espinhos são fortes; não é à toa que os melhores cachimbos são feitos de galhos de roseira.
De forma que tecer-se uma coroa de rosas há de ser uma obra de arte.
Certamente que alguma outra estrutura vegetal deve servir de base para se entrelaçar as rosas, o que se deve fazer utilizando-se, seguramente, seus próprios espinhos. Mas para tal deve ser necessária uma grande dose de talento e arte.
Primeiramente para não sair logo de cara se espetando nos espinhos. É preciso conhecer a maneira de segurar o talo da roseira sem se ser ofendido pelo espinho.
Depois, há de se saber o lugar certo de cortá-la de forma a se poder aproveitar o desenho do galho e a direção da floração. Se bem que esta segunda parte é secundária, ou não.
Para isso, só se me afigura possível com o auxílio de uma segunda planta que, a princípio, deveria ser algum tipo de trepadeira. Ou seja, uma planta flexível,
onde se amarrariam, de forma agradável ao olhar e ao vestir-se, a grinalda. Ou seja, ela não deveria espetar quem a segurasse e nem parecer desarmoniosa aos que a vêem.
E aí entra toda a coisa do desenho, da escultura e da pintura. Esta no que diz respeito às cores das diversas qualidades de flores, e as nuances.
Em Pindorama eram as penas de mutuns, uirapurus, araras, cores iridescentes. As coroas de flores de nossos índios eram os endoapes.
Mas, voltando às rosas, havia de ser uma grande demonstração de amor e sacrifício tecer-se uma coroa com a rainha das flores, que certamente devia ferir bastante os dedos.
Mas havia algo mais nesse ritual de tecer e coroar. Era uma espécie de celebração da beleza e da vida, um culto também à natureza, à madre-terra.

Se não, vejamos em Anacreonte a relação das flores, especialmente das rosas rubras, com o vinho, com o amor e com as festas a Baco. Algumas invocações em fragmentos:

"A rosa dos amores
A Baco misturemos!
De rosas coroados
A taça levantemos!
O riso sobre os lábios,
Bebamos sob as rosas!
Rosa, glória das flores,
Da primavera encanto,
Mimo dos próprios deuses,
Nas cores volutuosas!
Ergamos nossas taças.
Bebamos sob as rosas!
Se o filho de Afrodite
Vai, na dança ligeira,
Dançar em meio às Graças,
Tu, rosa, estás-lhe ornando
A bela cabeleira!...
Oh! já! Trazei mimosas
Coroas! Soem liras!
Fronte cheia de rosas,
Eu vou dançar, Dionissos
Com a rapariga nova,
Os véus a voar nos ares,
De seios tremulantes,
Em torno aos teus altares!"

"Todos, coberta a fronte
De rosas -- rubra orgia --
Oh! vamor rir, bebendo
O vinho da alegria!"

"_Com a primavera coroada,
Louvor à rosa delicada!
Junta-te, amiga, a estes meus cantos!"

"_Do artista é objeto dos cuidados
Entre os discursos que ela excita.
Planta das Musas, delicada,
É doce até por seus espinhos,
Quando nos ferem nos caminhos
Flóreos, estreitos e aculeosos...

_Doce é, nas mãos tendo-a, aquecê-la
Com dedos moles, voluptuosos...
Ó suave flor! terna e ligeira
Incendedora de amores..."

_traduções de Almeida Cousin


Ou entre as ruínas dos amorosos versos de Safo, as flores, os cantos, as danças, as tecituras:

frag. 8
] a morte - sim a a morte eu prefiro:
ela me deixava, e entre muitas
-------------
lágrimas falava [
Ah! quanto nós sofremos,
Psappho! contra a vontade, eu te abandono!
-------------
e eu lhe respondi, então:
vai na alegria, e guarda-me na lembrança:
sabes bem como nos prendemos a ti,
-------------
não sabes? Pois quero retirar
do esquecimento, para ti [ ] [ ]..
..[ ] quanto somos felizes,
-------------
e tan[tas grinaldas] de r[osas],
de aça[frão] e violetas
..[ ] a meu lado tecias,
-------------
e tantas guirlandas
[ ] no teu colo suave,
de flores trançadas [
-------------
e..tanto perfume de flor
preciosas [ ]..[ ].
ungias; feito para rainhas;
-------------
e, sobre um leito macio,
o desejo saciavas [ ]
por [

frag. 21
o doce feitiço destes cantos
eu vou tecer para as amigas

frag.30
antigamente, era assim que dançavam
a essa hora, as mulheres de Kreta;
ao som da música, ao redor do altar sagrado
dançavam, calcando sob os pés delicados
as flores tenras da relva

frag. 39
[poikíletai mèn
gaîa polystéphanos]

a terra coroada de flores,
trama de cores e brilhos

frag.42
entrelaça, com as mãos delicadas, guirlandas
de ramos de anis, e enfeita, ó Dika,
teus lindos cabelos; fogem as Khárites divinas
da moça que vem sem guirlandas, pois gostam
das preces trançadas no brilho das cores [

frag.43
] uma linda menina colhendo flores [

frag.44
] as meninas em flor
entrelaçavam guirlandas de flores [

-Todos os fragmentos são numerados de acordo com J.B.Fontes - Variações sobre a lírica de Safo - Estação Liberdade - 1992




Não sei se pelo tempo em que viveram o poeta e a poetisa, mas havia, certamente, uma relação mais íntima com a natureza. Hoje em dia nos parece, talvez, excessivamente 'florida' suas composições.
Mas somos nós que estamos por distante demais das flores, não?
Bem, as coroas, pelo menos, só as usamos nos cemitérios, por sobre os caixões.

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