Morreu meu último amigo sambista de primeira. Tinha 59 anos. Morreu de câncer. Luiz Carlos da Vila foi o último vivente do mundo do samba que eu conheci realmente- daqueles conhecimentos de ir prum buteco encher a cara de cerveja e ficar conversando sobre tudo. Desde mulher até política, com considerações filosóficas sobre quesitos os mais inusitados. Papo de bêbado, sabe cuméquié, né?
Muita gargalhada, garçon dando espôrro por tu tá incomodando TODOS os vizinhos do lado, sem perguntar resultado de nada. Pedindo depressa uma cerva bem gelada e aquela lingüiça pingando gordura- que só tem em buteco. Aquela que mosca mais esperta não pousa para não ficar grudada e ser incluída na conta.
Conheci o Luiz Carlos em 1977, quando ele ia participar do “A Hora e a vez do Samba”- um programa de samba que tinha na Rádio Roquette Pinto, apresentado pelo Zé Galego. Eu trabalhava na programação da rádio e ganhava um extra operando a externa que era feita do auditório, toda sexta-feira, quando o programa era ao vivo, de meio dia até as quatro da tarde.
E aí tu ia conhecendo a galera, pois era um tal de ajeitar microfone e dar esporro na base do “ fica aqui”, “Canta no bocal”, “vê se não cospe, porra!” que, no final das contas e de cada programa, tu já conhecia a galera toda.
Foi fazendo isso e gravando samba-enrêdo para corte que eu conheci o Zé Dedão, Hélio Turco, Dicró, Elias do Parque, Roberto Ribeiro, Joel Teixeira, Marimbondo e o Luiz Carlos.
Quando chegava a época da escolha do samba-enrêdo nas escolas, o Zé Galego armava um esquema de gravação meio pirata, na rádio, todo domingo. O esquema funcionou legal uns quatro anos e consistia no seguinte: Todo domingo a tarde, quando a rádio só funcionava no plantão, nos armávamos uma mesa com quatro microfones e uma máquina de dois canais no auditório. Eu, que trabalhava na programação, cuidava de dar baixa nuns oito ou dez rolos de fitas velhas, pedindo substituição e guardava no meu escaninho, Cabralzinho trabalhava no TapeSpot Publicidade e lá, ele ia pegando carretelzinho velho de fita recusada por anunciante, trazia prá rádio e guardava no escaninho dele.
Aí, a cada domingo, a partir das duas da tarde até umas dez da noite, Eu, o Zé, o Cabralziinho e o Rangel Operador nos revezávamos gravando os sambas de quem pagasse, o equivalente em grana de hoje, a uns quinze reais, cortando e enrolando a cópia em cada carretelzinho. Gravando uns quinze por domingo durante uns dois meses, nós quatro tínhamos um bom natal.
Num desses domingos é que o Luiz Carlos apareceu. Apareceu com um samba-enrêdo para o corte na Vila Isabel- Escola de fé!- E o samba era bem manêro. Eu dei a sorte de estar na minha vez de operar a tralha e gravar o samba dele. Ficamos conversando sobre carnaval, Vila Isabel e o mundo do samba até a sessão acabar e descemos dalí da Roquette(ficava na Erasmo Braga) para a Praça Mauá, onde emburacamos uns 30 chopes no Flórida, com direito a muito mais conversa, puta pedindo cigarro e jogando charme, marinheiro atrás de confusão e outras mumunhas do calibre.
Desse primeiro porre, seguiram-se mais uma infinidade, obrigatoriamente toda a sexta de noite. Ou era no Flórida ou no Siri da Rua dos Artistas. Luiz Carlos era uma figuraça. Soube ontem que ele tinha morrido. Quem me avisou foi o Maneco, meu primo- que também era amigo.
Nossa rotina etílica terminou bem antes, em 1982, quando eu me acidentei-Tinha nego bêbado aí- quase morri.
Entrei na mureta da Urca com uma moto a 80 Km, maninho! Fiquei sete meses de cadeira de rodas. Depois, vim embora para BH e tô aqui até hoje- Muita gente na lembrança, sem amigos presentes e agora com a lista de ausentes abrindo outra lacuna nos existentes. Chato, né?

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