Minha Música Brasileira tem vários Toms: o Zé, o Jobim, o do Dito e o Capone. Todos eles interessantes a maneira deles. Meu cinema tem Tom Cruise, teve Tom & Jerry e até Tom Mix.Adoro trocadilhos e duplos sentidos. Gosto de formar anagramas com as coisas, palavras, sons e metáforas.
Nisso sou semelhante a Tom Zé, meu primeiro tom musical e afinado nesse concerto Varesiano que estou redigindo. Naquele tempo de início de tropicália, ele não me chamava muito a atenção. Só fui descobrir sua musicalidade mal comportada depois de algum tempo e estudo. “São São Paulo Meu Amor” passou quase que batido, numa comparação menor que seja com “Tropicália”, “Domingo no Parque” ou mesmo “Alegria Alegria”.
Na verdade, a visão de Tom Zé e o aúdio dos Mutantes transcendeu a tudo que surgiu naqueles festivais revolucionários em certo ponto, já que mais careta e comportado que Geraldo Vandré não era possível ser. Ele ainda queria falar de flores. Ele só era um animal político na concepção aristotélica.
A Música de Vandré era a própria voz do morto, enquanto Edu Lobo, Chico e outros botavam a musicalidade em ponto morto. Não havia primeira nem segunda. O câmbio não era universal como Smetak na Bahia. Essa voz do ponto morto era uma música cooptada pela esquerda e pela militância de um CPC repleto de idéias revolucionárias para uma nova concepção política com nota zero em educação artística.
Ser artista desengajado era dividir a luta. Ligia Clark, Gláuber Rocha, Rogério Duarte e Hélio Oiticica eram considerados alienados, incluídos num esquema trotkysta pelos stalinistas ortodoxos que controlavam centrais e um movimento. Teóricos, eles deglutiam Maiakovsky, Eisenstein e Sartre, vomitando revisões críticas sobre tudo o que se fazia. Demoliam-se estruturas consideradas arcaicas, não sobrando pedra sobre pedra. Os anos 60, que não vieram nos ver, prediziam a dicotomia que se seguiria em todos os nichos e segmentos. Veio um 64, veio um 68, um AI-5. A década não deu o ar de sua graça. Estamos até hoje a sua espera.
No que se seguiu, Tom Zé e Mutantes foram a ruptura- que dividiu o cenário em dois. De um lado a nova tendência. Do outro a Música Popular Brasileira cristalizada nas iniciais MPB e bifrontada como um Janus Romano. Num rosto a expressão nacionalista de preservação. No outro a expressão colonizada no jazz da Bossa Nova.
Caetano e Gil faziam MPB eletrificada e nem foram tão longe assim. Faziam política nas letras e estavam engajados numa luta deles contra o sistema. Tom Zé e Mutantes não representavam nada naquilo. Não eram nada daquilo. Eram outra coisa.
Naquele momento histórico, em meu caso específico, eu não me apercebia da existência dessa ruptura. Não tinha noção que uma guitarra poderia ser uma arma fantástica para exterminar fascistas. Os engajados também não e me estigmatizavam como colonizado. Existiam outros caminhos. E um deles estava na arte engajada e compromissada com o novo desse Tom da Música Brasileira sobre quem eu escrevo.
As portas dessa percepção foram se abrir bem mais tarde, quando descobri que Tom Zé, tal qual um Cartola do terceiro milênio, estava trabalhando como frentista de posto de gasolina para sobreviver. Que ia largar tudo e voltar para a Bahia, para Irará. Tinha jogado a toalha.
E se não fosse o David Byrne? Já imaginaram o verdadeiro Tom da música- o tom afinado e com princípios Smetakianos- único dos ditos tropicalistas que estudou música, largando tudo?
Como isso não aconteceu(- Graças a Deus!), Tom Zé está de CD novo na praça. Agora, Tom Zé estuda a Bossa Nova, num jeito e maneira à lá Kollreuter, com pitadas de Smetak- dois de seus antigos mestres no curso de música da Universidade Federal da Bahia. Segundo ele, sua vida teria sido outra se não tivesse ouvido “Chega de Saudade”. E é isso que ele tenta reinventar em “Estudando a Bossa”- com citações a tudo e a todos que participaram desse movimento cinquentão.No Cd as vozes de Fernanda Takai e Mariana Aydar, que contraponteiam em suas participações uma imitação vocal do violão de João Gilberto, fazendo a levada que aprendeu de um cara em Brotas-bairro de Irará- em 1958. “Ele já fazia igualzinho. Fui lá tocar com ele umas vinte vezes”, diz Tom, assinalando que continua a tentar fazer igual ao que o mestre executa.

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