(Do blog de João Luiz Sampaio)

Gordinhos também amam?

Aconteceu de novo. Quatro anos depois da soprano Deborah Voigt ser demitida de uma produção de Ariadne auf Naxos por estar, segundo o diretor, “gorda demais” para o papel, agora foi a vez da soprano Daniella Dessì abandonar uma versão de “La Traviata” dirigida por Franco Zeffirelli em Roma por conta de comentários feitos pelo diretor.
Faltou, no mínimo, um pouco de tato. Durante uma coletiva de imprensa, Zeffirelli soltou a seguinte pérola: “Ela não tem nada a ver com minha imagem de Violeta que, certamente, não era assim tão corpulenta”. E não parou por aí. “Ela é velha demais para convencer o público em uma trama que fala de paixão da juventude”. Dessì está com 52 anos.

Após ouvir os comentário do diretor e cineasta italiano, a soprano pediu demissão. E foi à imprensa, se dizendo humilhada publicamente. E, por falar em falta de tato, emendou: “Não entendo porque o meu peso é um problema quando há tantos cantores de ópera de largas proporções”.

“Atualmente, diretores cênicos de ópera tem poder demais. Eu até poderia aceitar sua visão se ele a anunciasse antes dos contratos serem assinados e os ensaios começarem”, completou Dessì. Seu marido, o tenor Fabio Armiliato, que cantaria o papel de Alfredo, também retirou-se da produção.

Vocês acham certo que um cantor seja banido de uma produção por estar acima do peso? Ou é a voz que deve prevalecer na hora de se contratar um artista? Mais do que isso: por um acaso gordinhos também não se apaixonam - ou podem interpretar a paixão no palco?

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Comentário de Cafu em 16 janeiro 2010 às 11:44
Concordo com a Nat. O Henrique é um ótimo contador de histórias.
:)
Comentário de Henrique Marques Porto em 16 janeiro 2010 às 17:46
NaT e Cafu,
É que a ópera, talvez mais até do que o teatro de prosa, está cheia de casos curiosos, engraçados e até pedagógicos. Cresci ouvindo ópera e histórias de bastitores, contadas com graça e espírito por meu pai. Apenas reproduzo o que ouvi. A frase da Lina Pagliughi antes de entrar no palco do Municipal do Rio foi dita para ele.
Depois de escrever o comentário me lembrei que existem casos em que o próprio texto da ópera conspira contra as gordinhas. La Traviatta é uma. No segundo ato, no dueto com Germont, pai de seu amante Alfredo, Violeta ouve essa frase sobre ela: "Bella voi siete. E giovanne...". Coisinha a toa que a maquiagem avançada de hoje resolve fácil. Mesmo se o soprano for idosa e mais feia do que o contra-regra!
Mas o caso mais flagrante acontece no primeiro ato de Andrea Chénier, de Umberto Giordano com libreto de Luigi Illiaca. A principal personagem feminina é Madalena, cantado por soprano. Filha da nobreza francesa, jovenzinha caprichosa e mimada, Madalena entra em cena dengosa, reclamando das roupas, de seu cabelo e, com as mãozinhas na cintura, até de seu corpo! Então Bersi, sua aia e fiel companheira, diz: "Il tuo corsetto é cosa rara". "Corsetto" é espartilho. Nos tempos d'antanho ninguém ligava para isso. Até porque, fora da Itália, metade do público não entendia bem o italiano. E ainda não entende. Mas agora, com as legendas nos espetáculos, o ridículo da cena fica inteiramente exposto dependendo do tamanho da cantora. Nem Monserrat Caballé (uma das melhores Madalenas que se conhece) escapou das rizadinhas abafadas e dos comentários maldosos no intervalo.
Em 1964, no Municipal do Rio, vi um ótimo Andréa Chénier com elenco italiano. O tenor foi Angelo Lo Forese e o barítono (Gerard) Piero Cappuccilli. No papel de Madalena uma ótima soprano chamada Marcella de Osma. Linda voz dramática que fez grande sucesso nesse e em outros papéis. Mas era uma italiana enorme, parruda mesmo, que os figurinos deixavam maior ainda! O "corsetto" dela, pelo tamanho, era realmente raro! Na foto abaixo, Marcella de Osma sendo entrevistada por meu pai.

Marcela de Osma com o crítico musical Henrique Marques Porto
Não sei que fim levou. Já procurei pela web e não achei referências sobre ela. Grande cantora. Nos dois sentidos.
abraços
Henrique Marques Porto
Comentário de Oscar Peixoto em 18 janeiro 2010 às 13:54
Henrique, concordo com a NaT. Você tem que botar essas histórias em livro, antes que elas se percam (afinal, a idade nos prega peças inesperadas)

Estou lendo "Contos de Óperas e Cantos", do Sergio Casoy. Pois bem, até agora não li nada que se equivalha às suas histórias. Sinceramente.
Convoco nossos amigos e amigas e formarem uma corrente que pressione o sr. Henrique Marques Porto a escrever seu livro!
Abraços em abundância.
Comentário de Cafu em 18 janeiro 2010 às 15:38
Seus livros, Óscar. Um sobre o pai, e outro sobre o tio Agostinho.Quem manda ter um DNA tão privilegiado. Tem bônus e ônus. Hahaha.
Comentário de Oscar Peixoto em 18 janeiro 2010 às 16:03
Cafu, tudo bem, mas um de cada vez. E puxando a brasa para minha sardinha, o primeiro tem de ser causos d'ópera daqui e dalém mar.

Comentário de Henrique Marques Porto em 19 janeiro 2010 às 0:30
Oscar, Cafu, e NaT
Já andei anotando alguns causos para não ser traído pela memória. Outros já escrevi e guardei ou contei aqui. Somando tudo deve dar umas 20, 30 páginas ou pouco mais. Acontece que essas histórias brotam da memória estimuladas pela música. Isto é, é preciso estar ouvindo ópera ou falando dela para contar os casos. Por exemplo: quando ouço o Lohengrin, de Wagner, lembro imediatamente do caso do tenor que "perdeu o Cisne" como quem perde o trem! hehehe (Na ópera, Lohengrin, um cavaleiro mitológico, chega e vai embora transportado por um barco puxado por um cisne mágico. Coisas de Wagner). Se é "O Escravo", de Carlos Gomes, lembro logo do barítono brasileiro que recebeu um Santo minutos antes de entrar em cena só porque estava fantasiado de índio. Virou "cavalo" do Santo e cantou ária inteira ainda em transe! E por aí vai.
Então, vamos fazer assim. Oscar vai produzindo suas ótimas matérias e, quando for o "causo" de contar um causo eu conto. Depois juntamos tudo -matérias e causos- e publicamos o primeiro livro escrito online e produzido quase em tempo real. Ao menos original vai ser.
abração
Henrique Marques Porto

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