A incapacidade de habituação com a violência cotidiana

Sobre a violência, os sentimentos conflitantes do profissional da segurança pública, sua incapacidade de se habituar e a insensibilidade dos gestores públicos

Por Ivenio Hermes

Sabendo da minha experiência com segurança pública, um colega comentou noutro dia durante uma reunião que ele achava que “nada mais me chocava”, e na ocasião aquele pensamento me fez voltar ao passado, nos idos 90, desde que comecei na segurança pública, e dessa data em diante presenciei muita dor, sofrimento, morte, injustiça, desrespeito...

Mais Morte violenta
Arte sobre foto de O Câmera

(Publicado originalmente no Jornal De Fato, Coluna Retratos do Oeste, em parceria com o fotojornalista Cezar Alves)

Como em todas as profissões, a constância no lidar com determinadas situações faz o profissional a se habituar com elas, a torna-las comuns e corriqueiras, como um mecanismo de proteção para poder ser capaz de agir com frieza e racionalidade na busca de um melhor desempenho profissional. Mas se fosse somente com esse objetivo, seria algo tão profissional que talvez não levasse a segundas e terceiras consequências.

Mas o profissional da segurança pública, assim como os profissionais da área de saúde e outras que lidam com a vida e com a morte, não o faz somente porque sua profissão exige, ele o faz para tentar frear toda essa carga negativa de seu trabalho, impedindo que ela chegue em sua casa e nas relações sociais fora do ambiente de trabalho. Com o tempo e a quantidade de eventos impactantes, esse freio se desgasta, essa capacidade de separar aquilo que vê e percebe num ambiente, retendo-as somente para si mesmo, perde a força, e traz consequências.

158ª morte violenta em Mossoró]
Foto: O Câmera

Uma das diferenças que poucos percebem entre os profissionais da segurança pública e outros, é que eles lidam com a parte mais deturpada do gênero humano, aqueles seres cuja sensibilidade foi perdida de forma quase cabal. Então o enfrentamento emocional aumenta.

O criminoso não tem tipo físico, cara de mau ou nenhum desses estereótipos que o senso comum equivocadamente apresenta. São apenas pessoas, tais quais os encarregados de aplicar a lei, que usam armas para a prática de crimes e na maioria das vezes sem nenhum controle sobre o dedo “no” gatilho, enquanto os policiais, possuem o controle técnico do dedo “fora do gatilho”, a responsabilidade com as vidas inocentes, as pressões profissionais, a carga sentimental acumulada por anos no desempenho de uma função que somente estabelece um padrão de conduta e comportamento, mas não promove acompanhamento profissional para manter seu estado de saúde física e mental.

Problemas de saúde mental e emocional estão relacionados aos diversos espectros da violência, e sobre isso Rolim (2007) nos diz que:

Uma proporção significativa de crimes violentos em qualquer sociedade contemporânea está vinculada a problemas de saúde, destacadamente ao alcoolismo, à dependência química de drogas pesadas e às desordens psicológicas mais sérias. Por esses e outros motivos, reconhece-se cada vez mais a existência de uma ampla interface entre as políticas de saúde e segurança pública. (ROLIM, 2007, pag. 43)

Há um culto ao físico através das diversas exigências de condicionamento sem menor preocupação com o que vai dentro do ser humano, sob o distintivo e o uniforme. E não estou dizendo aqui que sou contra o condicionamento físico, não se enganem, policiais que lidam com a possibilidade de enfrentamento em cada plantão, precisam estar bem preparados, do contrário, os mais de 10 quilos de equipamento serão um fardo na hora de perigo, que podem leva-lo à morte ou impedi-lo de dar cobertura para seus colegas e segurança para a população. Mas o que pretendo enfatizar é que não dar importância à saúde mental e emocional de um policial é um erro clássico de nossas instituições de polícia no Brasil.

Por mais deprimente que sejam as vivências de um ser humano, não há como manter a saúde dele sem valorizá-lo, promovendo sua saúde e condições de trabalho compatíveis com a exigência de sua profissão. E no serviço policial a relevância desse assunto pode ser destacada, como comenta Costa (2004):

A violência policial pode ainda estar relacionada com a ausência de um plano de assistência à saúde mental. (COSTA, 2004, pag. 62)

A polícia brasileira dá pouca importância à saúde do profissional da segurança pública. No decorrer do tempo e do exercício profissional, sem condições de conter a angústia causada pelo cotidiano, o agente encarregado de aplicar a lei é tendenciado ao alcoolismo, à brutalização, à violência doméstica, à ansiedade, à insônia e a outros fatores. As perdas substanciais que são sofridas começam no ambiente de trabalho, pois repleto de sentimento conflitantes, ele acaba por cometer erros que o levam à corregedoria que nem sempre é composta por “seus pares”, afinal, policiais que não tiveram a experiência do trabalho em campo não possuem as condições necessárias para entender amplamente o problema que desencadeou aquela conduta. E mais uma vez quero esclarecer que não estou incentivando ao corporativismo negativo de deixar alguém impune, mas sim evidenciando que muitos profissionais chegam ao cenáculo da correição porque sua saúde profissional foi desconsiderada.

[Namoro mal resolvido]
[Arte sobre foto de O Câmera]

As perdas se ampliam para dentro dos lares dos policiais. Casamentos acabam, famílias são desfeitas, filhos ficam afetados, as relações sociais fora do ambiente de trabalho escasseiam, e o que resta é convívio com colegas de trabalho até mesmo fora do ambiente profissional, que geralmente os faz reviver casos e ocorrências, tornando sua folga uma extensão da atividade de polícia, fazendo-o reviver a sobrecarga enfrentada.

Lendo duas postagens, uma de Cezar Alves e outra de Heronides Mangabeira, no domingo dia 10/11/2013 pela manhã, vi a violência afrontadora me levar à afirmação do meu colega sobre não se chocar com mais nada.

Saber que o pequeno Leo Fernandes, de apenas 2 anos, sofreu um tiro na cabeça bem em frente à sua casa e depois ver a imagem daquele pequeno indefeso sendo transportado numa maca, para morrer algumas horas depois no hospital, me trouxeram lágrimas aos olhos, e retornei novamente ao passado... e percebo que não consegui me habituar à morte de inocentes, não consegui me tornar indiferente à violência praticada contra minorias como adolescentes, mulheres, homossexuais, membros de religiões... Não consegui me adaptar ao convívio com à degradação da saúde mental e emocional de policiais...

E com a falta de sensibilidade de gestores públicos, de pessoas poderosas e de parte da sociedade com esses problemas de segurança pública...

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REFERÊNCIAS:

ROLIM, Marcos. Caminhos para a inovação em segurança pública no Brasil. Revista Brasileira de Segurança Pública, São Paulo Sp, v. 1, n. 1, p.32-47, fev. 2007. Semestral.

COSTA, Naldson Ramos da. Violência Polícia, Segurança Pública e Práticas Civilizatórias no Mato Grosso. 2004. 359 f. Tese (Doutorado) - Curso de Sociologia, Departamento de Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2004. Cap. 1.

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SOBRE O AUTOR:

Ivenio Hermes é Escritor Especialista em Políticas e Gestão em Segurança Pública e Ganhador de prêmio literário Tancredo Neves. Consultor de Segurança Pública da OAB/RN Mossoró. Conselheiro Editorial e Colunista da Carta Potiguar. Colaborador e Associado do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

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