Transponho  as três grades da casa e já na lixeira encontro quem a fome busca aplacar; mais constantes que qualquer um na vizinhança, não têm nome nem face; em nome da sobrevivência os transformo em pontos indistintos do habitual cenário de bairro, me opondo à constância também dos dias e à insistência de seguirem pobres na melhor acepção do termo já que apenas lhe falta o que qualquer um poderia ter... fosse justa a vida e dividido o pão. 

Caminho pelas ruas certa de que a Democracia, como a vida, é frágil, depende de  outras forças, que não este desforço miserável em estar vivo apesar da morte, da doença, da fome e da indignidade do próprio desforço.

Como o soprar dos ventos nas esquinas, nada mais inconstante que a violência das mudanças ditadas pela necessidade  e a ignorância. Não há escolha na fome que embaça a  visão e no desconhecimento que cega os passos, o  paradoxo da Democracia é ser escolha entre os sem escolha.

Ao sabor dos ventos inconstantes é fácil tropeçar nos coletivos difusos  anseios e acreditando no próprio protagonismo esquecer que se é apenas figurante de um circo bizarro, no qual as barras que separam o homem da fera  é matéria de resignação e resiliência, palavras da vida moderna que ressignificam exclusão como lugar de espera serena e passiva aceitação.

A poesia das ruas e da favela não é mais que um dizer constante: aceita o lado que te coube e o chicote que te fustiga, enfeita a feiúra como esfomeada bailarina; tinge-lhe as pálidas faces de carmin e cobre-lhe as  pontudas costelas de tule; que, ao som da música e sob a luz e ideal, qualquer sofrimento é poesia e impudor, apenasfora de seu habitat natural.

A fera  caminha pelas ruas, à solta e fora das grades; mas tudo são grades e de coisas a pessoas, a distância é curta e estar enjaulado ou não é mera questão de perspectiva - a respiração encurta e os músculos retesam; porque deveria aceitar o lugar em que outro me colocou? O instante que antecede o reequilíbrio da balança da Justiça em momentos extremos, é sempre indistinguível como os rostos que se alimentam nas lixeiras.

Há sempre o brevíssimo momento em que o horizonte se faz vermelho e a única dignidade possível o indignar-se e perder de vez a dignidade para a brutalidade. Como na fome não cabe a poesia, também na barbárie não cabe ilusão. Uma vez reencontrada a fera, perdida a humanidade , já não se pode mais aceitar a repressão civilizatória desprovida de civilização.

A Revolução é obscenidade para este animal de corpo cansado, seviciado na servidão; mas há sempre aquele insuspeitado instante da ira, em que o domador cheio de confiança  as custas de bons modos e fingida aristocracia,  é devorado e a fera se torna o  próprio vilão.

As barras são mutantes; conforme o prova a história, mera questão do lado em que nos encontramos e o vermelho a sangrar as ruas pode ser repressão ou liberdade, conforme o seu campo de visão.

A Pantera
(No Jardin des Plantes, Paris)

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

.

Der Panther
(Im Jardin des Plantes, Paris)

Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe
so müd geworden,dass er nichts mehr hält.
Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe
und hinter tausend Stäben keine Welt.

Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte,
der sich im allerkleinsten Kreise dreht,
ist wie ein Tanz von Kraft um eine Mitte,
in der betäubt ein grosser Wille steht.

Nur manchmal schiebt der Vorhang der Pupille
sich lautlos auf -. Dann geht ein Bild hinein,
geht durch der Glieder angespannte Stille –
und hört im Herzen auf zu sein.
– Rainer Maria Rilke, em “Novos poemas I” (1907). In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 120-121.
– Rainer Maria Rilke, in “Neue gedichte – I” (1907).

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Comentário de Mauro em 21 março 2021 às 11:33

A fera que nos habita está domesticada enquanto os mecanismos de alienação ainda forem eficazes.

A conscientização será uma construção coletiva impulsionada por arquétipos predominantes moldados pelo espírito do tempo que flui naquele momento histórico. Assim é que a fera ultrapassa sua jaula, transforma sua perspectiva,e liberta a força desconhecida de impulso da ressignificação de Justiça Social.

Seu texto me trouxe uma reflexão profunda.

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