A gente se reuniu no pátio da faculdade. Ceceu, Martinha, Jilda e eu. Esta Jilda aliás tinha um nome bem ameri-
canizado: Jill. Nós a chamavamos de Jill-da, por motivos óbvios. Martinha e Ceceu também eram companheirões, mas
não davam. Corria o ano da graça de 1964, o ano do famigerado golpe de estado que engendrou a malfadada ditadura
militar no Brasil.
_Mas que fazer então? Perguntávamos uns aos outros.
Éramos quaro jóvens idealistas, sonhadores e altruistas. Queríamos salvar o mundo. Não sei de que! Talvez do imperialismo americano. Éramos todos esquerdistas. Idolatrávamos o Ché.
Era muito mais charmoso e significativo de coragem ser da esquerda. Nos chamavam de subversivos mas ainda não
vivíamos na clandestinidade.
_ Mas que fazer então? Cotinuávamos a nos perguntar.
_Vamos fundar uma revista! A ideia foi de Jilda. Só podia. Ela era sempre a mais esperta e ousada. Concordamos todos imediatamente.
Alugamos uma casa na Rua Saturnino de Oliveira. Nunca soube quem foi esse cara e nem o que êle fez para ser no-
me de rua. Acho que o que êle fez foi um filho que se fez vereador e que resolveu homenagear o pai. Palavriha útil esse “que”. Quebra bem o galho.
Compramos lápis, canetas, maquinas de escrever e papel, muito papel. Estávamos prontos.
_Há de ser um hebdomadário disse eu, querendo já estabelecer a periodicidade.
Foi um Deus nos acuda!
_Que diabo é isso? Tive que explicar:
_Que sai toda semana.
_Não pode ser só política. Tem que falar de moda. Esta foi a Martinha.
_ E de cinema e esportes disse Jilda.
_Tem que ter receitas disse o gordo do Ceceu.
O caso é que discutimos tanto que quase chegamos às vias de fato.
Resultado: nossa revista foi o único periódico que nunca foi editado ou lido!

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