"Então,convalescente esfaimado que se repasta já de todas as iguarias que lhe recusam ainda, eu considerava se casar com Albertine não me estragaria a vida, quer fazendo-me assumir o encargo, por demais pesado para mim, de me consagrar a outra pessoa, quer forçando-me a viver ausente de mim mesmo por causa de sua presença contínua e privando-me, para sempre, das alegrias da solidão."-A Prisioneira-Proust
Assim amam muitos; aliás este parece ser o amor contemporâneo...o caráter deste amor está em ser individual, como as relações; mas o medo de privar-se de si mesmo, este, quase todos temos, no instante mesmo em que dividimos e compartilhamos, ainda que sejam dores.Eu disse quase todos e sei que vocês hão de me entender.
Um dia acordamos e por aquele pontinho no nariz -(se vocês não leram Roland Barthes, leiam e procurem pelo pontinho no nariz), sabe, aquele quase-nada que altera a imagem do outro, digo, a imagem do outro que laboriosamente contruímos- pensamos se realmente o queremos por perto e o compromisso, o comprometimento de vidas comuns é que acaba parecendo laborioso demais.
Não sei amar assim, gostaria de saber...mas só sei amar com braços que abraçam não só outros braços, mas uma vida inteira,com pele, lágrimas e pernas. Talvez por esta razão nunca tenha gostado propriamente de Proust. Leio e releio seus livros, mas sempre como uma criança em alfabetização que tenta emendar letras e refaz o caminho muitas vezes, a procura da composição ideal. Diletante que sou, admiro a elegância intelectual de Proust mas o detesto quase tanto quanto ele detestava Albertine. Só sei amar em cores berrantes, cruamente. Não sei amar com medo, embora morra de medo e acorde com pesadelos muitas noites. Amo inteiramente e não sei o que é superfície, gosto de me afogar em águas profundas, sejam elas lágrimas amargas ou prazer derramado. Divido constantemente e gosto de me perder no outro, porque esta é minha natureza; adoro me perder de mim e navegar em mares desconhecidos. Aventurar-se no outro é uma viagem emocionante e se somos invadidos pelo exército do outro, o produto do saque que sempre é um pedaço importante de nós mesmos, é compensado com uma nova descoberta sobre o que somos de verdade, através do outro.
Não sei se existe " a pessoa certa ", aquela que não nos "estragará a vida" roubando o que somos na solidão; mas certamente existe a pessoa que nos invade e atropela bruscamente, que modifica nossa rotina e com isto abala todas as certezas que temos, que adoravelmente bagunça cada escaninho de nossa vidinha de fiéis, que nos faz crer fanaticamente e perder a fé um segundo depois e nos mói como trigo e adoça como mel. E desde que conhecemos esta pessoa, pouco se dá que nos percamos um pouco para nos reencontrarmos mais adiante.
A propósito, me ausentei um tempo do blogue; estava viajando (em breve escrevo sobre a viagem). Ta, ta, eu sei que poderia escrever de outro lugar, afinal não fiz uma viagem no túnel do tempo; mas estava ocupada demais vivendo. E dito isto, quero deixar claro que vivendo com a presença contínua de quem amo muito, alguém com quem troquei mais do que alianças, mas experiências comuns que me dão a cada dia a convicção de que poderia lhe consagrar toda uma vida. Posso dizer sem medo de errar que nunca,em desejei tanto quanto simplesmente segurar na mão que me acompanhou nesta viagem e tampouco recordo de algum dia ter verdadeiramente amado sem reservas e por isto sei que Albertine não era amada e que solidão era a sua; nenhum amor é feito de reservas. Ele pode ser feito de muitas outras coisas, mas percebam, nunca de reservas. E voltando à viagem, estava vivendo. Entendam, não dava para escrever: -ou se vive ou se escreve. Foi Vinícius que disse: "Passarinho, que vieste em minha janela meter o nariz? Se foi por meus versos, não sou mais poeta. Ando tão feliz!" A todas estas, voltei a escrever, mas posso me ausentar...Não sei.

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