A viúva
Maju Guerra

Desde a infância eles se conheciam. Moravam na mesma rua, estudavam na mesma escola, brincavam juntos, iam juntos à igreja. Pêra, uva ou maçã era a brincadeira preferida da menina, ela torcia pelo beijo. O menino vivia nos seus sonhos, logo descobriu que ele era o seu amor eterno, não haveria lugar para outro.
Começaram a namorar seriamente na adolescência depois dele ter declarado seu amor. Continuaram a fazer tudo juntos, casal inseparável. O rapaz foi seu primeiro homem, a moça jurou que seria o único. Ele foi meio reticente, embora tenha dado a entender que outra não procuraria mais.
Foram para a mesma universidade fazer o mesmo curso, eram um espelho para os outros casais. Realmente não havia amor como aquele. Comentavam alguns que era coisa de conto de fadas como não se via faz tempo, almas gêmeas, já diziam outros.
O noivado não foi surpresa para ninguém. As famílias muito amigas deram uma festa inesquecível. O presente dos pais foi uma casa no fim da rua, mobília sendo comprada, já pensavam nos netos. O casamento por fim marcado para logo depois da formatura. Era o céu na terra, tudo firmado e reafirmado, e até abençoado.
Mas um dia surgiu a outra, mulher sedutora, manhosa, olhar cheio de promessas, concupiscente. Foi um duro golpe do destino. Ele se deslumbrou, nunca conhecera mulher como aquela. De cabeça virada, decidiu que ela era a mulher da sua vida, nada mais lhe importava. Rompeu o noivado. As famílias se horrorizaram com a escolha, a outra só poderia ser uma criatura perversa e sem caráter, viera para acabar com um sonho de uma vida inteira. Tentaram tudo o que era possível, conversaram com ele, o ameaçaram mas não adiantou. A pobre noiva caiu de cama, parou de estudar, não conseguia compreender o que acontecera, o que fizera de errado, era digna de compaixão.
O rapaz casou-se com a desnaturada. A família não compareceu à cerimônia, disseram que ele os esquecesse pra todo o sempre. Dos netos não iriam querer saber, boa coisa não poderiam ser já que filhos daquela mulher. A casa ficou apenas para a moça abandonada que se mudou assim que melhorou de saúde. O novo casal foi morar em outro bairro distante.
A noiva desprezada tornou-se estranha e inatingível. Trocou a aliança de mão e disse-se casada com ele. Ninguém ousou desmenti-la, não tinham coragem. E mesmo que alguém quisesse falar alguma coisa, ela não ouviria. Os pais amorosos estavam a seu lado, depois do que sofrera era imprescindível o apoio deles.
Ela trabalhava, até levava uma vida que poderia ser considerada normal não fosse a história do casamento de faz-de-conta. O tempo foi passando e ela vivendo sua vida como se estivesse com ele. Na casa tudo constantemente arrumado para dois: dois lugares à mesa, dois travesseiros na cama de casal, duas toalhas no banheiro, duas escovas de dente... O médico da família aconselhou os pais a deixá-la viver daquela maneira, ela não faria mal a ninguém e nem a si própria. Era a forma que a moça encontrara para não tomar consciência da violenta rejeição. Caso ela soubesse poderia ser extremamente perigoso, com certeza enlouqueceria de vez. Todos que a cercavam se tornaram cúmplices da mentira, assunto sem outra solução viável. Era necessário, em nome da sanidade que lhe restava, preservá-la da verdade.
Ela ignorava a existência da esposa porque era a esposa. Acompanhou o nascimento dos filhos dele como se seus fossem, o seu sucesso profissional, as mudanças de vida. Até que um dia ele sofreu um enfarte, era muito estressado e ambicioso sempre buscando o sucesso material, mudara muito depois do casamento com a outra. Não houve salvação, foi um ataque súbito e fulminante. Alguns comentaram que merecia o castigo pela maldade que cometera.
A moça, vestida de preto dos pés à cabeça, acompanhou o enterro a distância chorando muito. Recebeu as condolências dos que a cercavam e acolhiam sua história. Depois disso largou tudo de mão, morreu pro mundo, trancou-se em casa dizendo que dali não mais sairia, só para o túmulo. Ela agora estava definitivamente só, era a viúva.


Maria Julia Guerra.
Licença: Creative Commons.
Postado em 5 de setembro de 2009 às 18:19.
Salvador, agosto de 2004.

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Comentário de Maria Julia Guerra em 11 fevereiro 2010 às 2:13
Oi, Agilmar, muito obrigada pelo comentário. Pois é, não sou psicóloga de formação, hoje sou aposentada e com formação em terapia transpessoal e regressiva, lido com casos semelhantes.
Realmente, o calor está terrível, sinto falta de um friozinho, moro em Salvador (gosto muito) mas sou do Rio. Viajo amanhã e volto dia 17 fugindo do carnaval, um grande abraço

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