Acervo ASTROJILDO PEREIRA ***** Artigos " RIO BONITO " O CHARLATÃO JOSÉ DIAS " O CARNAVAL E MACHADO DE ASSIS "

---------- Mensagem encaminhada ----------
De: Roberto Guedes guedes.idt@terra.com.br
Data: 17 de fevereiro de 2011

Para: Delcio Marinho riodejaneirocultural@gmail.com


                                               
             ACERVO DE ASTROJILDO PEREIRA – ARTIGOS
 
 
 
          Em honra e homenagem a Astrojildo Pereira, reproduziremos, a partir desta página, cerca de 32 artigos que ele publicou em diversos jornais do Rio de Janeiro.
 
          São numerosos escritos guardados tanto no CEDEM – Centro de Documentação e Memória da UNESP, como no Arquivo Edgard Leuenroth da UNICAMP e, destes, selecionamos o que pretendemos brindar aos Internautas e leitores da Rede
 
          Esperamos, desta forma, estar contribuindo com a nossa história social e prestando tributo a esta figura ímpar que tanto pensou e agiu pelo nosso país. Reverenciar a sua memória, portanto, é de suma importância para todos nós. Além disso, o exemplo edificante desta notável personalidade só servirá para alentar e impulsionar as novas gerações ao caminho da construção de um Brasil Gigante.
 
          Boa leitura!
 
 
                                                                                      J. R. Guedes de Oliveira
 
 
 
                                                1 -  RIO BONITO
 
 
          Devo reconhecer que estou em atraso com os poetas meus conterrâneos, de quem recebi, a coletânea de poemas “Quando chegar a Primavera...”, já lidos e relidos entre primavera e verão, e agora cobrando alguns comentários.
          Rio Bonito, que é a terra natal do folhetinista, tem nomes importantes na literatura brasileira, precisamente dois poetas -  B. Lopes e Júlia Cortines, esta última aliás minha parente. E isto sem falar nos poetas da vizinhança, isto é, que nasceram em municípios vizinhos – um Pedro Luií, um Salvador de Mendonça, um Alberto de Oliveira. Parece que aqueles ares aprazíveis o vulto importante da serra do Sambe (a que Lúcio de Mendonça dedicou belas páginas descritivas), a água maravilhosa e outras amenidades locais propiciam boa acolhida às Musas. Nem posso esquecer-me de dois poetas que eu, ainda menino, conheci muito de perto – Emílio de Men4ezes (apenas homônimo do famoso autor das Mortalhas) e Ernesto Gonçalves, ambos colaboradores do semanário Fênix, de que meu pai era proprietário. Ernesto Gonçalves foi a bem dizer quem me iniciou nos mistérios da poesia e da literatura, e sobre a sua curiosa figura ainda voltarei a falar algum dia.
          Ultimamente, até os poderes públicos, cedendo à pressão poética do clima, aderiram a uma vocação de que se acha impregnada a própria alma do povo, de que é legítima expressão o sambista Luiz Vieira, canto de Braçanã. A Câmara Municipal, em hora de boa inspiração, instituiu o Dia da Poesia, que coincide com a data inicial da Primavera, a 22 de setembro.
          Já se vê que não podia faltar ali um Clube de Poesia, grêmio ilustre dos poetas nativos e residentes. Como parte das festas realizadas no Dia da Poesia, em setembro último, é que o Clube da Poesia de Rio Bonito editou a coletânea “Quando chegar a Primavera...”, com poemas de Ângelo Longo, Leir Moraes, Maurício H. Badr, Hélio Nogueira, Sebastião de Siqueira e Silva, Adão Longo, Renato de Lacerda, José Silva e ilustrações de Maria Nilza Longo, que é também poetisa a seu modo. Esta coletânea diz-se em nota preliminar, “é uma tentativa (...) de se criar um novo panorama para a poesia da terra de B. Lopes”. Tentativa ainda modesta, sem dúvida, mas extremamente simpática.
          Seria impertinente da minha parte proceder a análise severas ou pedantes das composições  reunidas na plaqueta Os poetas presentes em suas páginas, uns mais jovens que outros, são todavia de semelhante qualidade, sem nenhuma nota excepcional, mas também sem qualquer quebra de dignidade no ofício. E é claro que meu rosto de leitor é aqui irresistivelmente aliciado pelas evocações que estes poemas da terra natal suscitam na lembrança do velho conterrâneo ausente.
          Direi, entretanto, que muito me agradaria encontrar entre os poemas desta coletânea, alguma nota de tom mais inconformado, mais autônomo e até mais atrevido, que impregnasse o “novo panorama” de algo realmente novo, cheirante à mata, a terra, a paisagens, a bananais, a canaviais, a suor de trabalho, a bulício da vida cotidiana, e revelando-nos uma primavera a anunciar gordas  esperanças, verdes certezas, duradouros frutos.

   Jornal “Hoje” – Folhetim – 07.01.1958

 

 

2 -  O CHARLATÃO JOSÉ DIAS
 
 
         Nenhum estudioso de Machado de Assis ignora que a referência ou alusão de ordem cronológica não falta nunca em suas obras de ficção. Seus romances e contos estão sempre rigorosamente situados no tempo – excetuados  é claro, aqueles contos de feição alegórica ou intemporal. Nos romances cuja ação abrange largo período de tempo, como o Braz Cubas e o Dom Casmurro, o momento exato de certos episódios ou motivos ou ambientes é invariavelmente assinalado por uma data, pela menção de um fato histórico, pela recordação de algum acontecimento mais ou menos importante. Não raro, uma frase ou uma simples palavra basta para estabelecer o nexo de contemporaneidade entre a ficção e a realidade. A este propósito, escreveu Otávio Tarquínio de Souza excelente artigo em que acentua, com a sua autoridade de historiador, o que isto significa como elemento de caracterização histórica da obra machadiana.
          O Dom Casmurro é particularmente fértil em tais referências e alusões, inclusive algumas de âmbito mundial, como a guerra da Criméia (1854-1856), que dá motivo a uma polêmica escrita entre os meninos Bentinho e Manduca, um a favor da Rússia, outro a favor dos aliados. Polêmica de meninos que podia muito bem refletir uma experiência vivida na época pelo menino Joaquim Maria, em bélica disputa com algum companheiro da mesma idade.
          Mas há no Dom Casmurro, repetida várias vezes, uma notação das mais interessantes como referência de tempo. É o que se relaciona com o charlatanismo homeopata de José Dias. Ao descrever o agregado no capítulo V do romance, o memorialista recorda como ele surgiu na fazenda de Itaguaí, onde nascera Bentinho: “Um dia apareceu ali vendendo-se por médico homeopata; levava um manual e uma botica”. O “doutor” José Dias curou de febre alguns escravos e acabou permanecendo na fazenda, agregando-se em definitivo à família. Quando esta se transferiu para o Rio de Janeiro, José Dias veio junto, e um dia confessou ao pai de Bentinho que não era médico, nem coisa parecida. “Tomara esse título para ajudar a propaganda da nova escola”. E ainda tomado dos ardores de propagandista, José Dias completou a confissão, armando uma razoável justificativa, aliás sem qualquer superlativo: “Eu sou um charlatão... não nego; os motivos do meu procedimento podiam ser e eram dignos; a homeopatia é a verdade, e, para servir à verdade, menti; mas é tempo de restabelecer tudo”.
          Anos mais tarde, tentando dissuadir o moço Bentinho de estudar medicina no Rio de Janeiro, José Dias investiu furioso contra a alopatia:
          “... Não duvidaria aprovar a idéia, disse ele, se na Escola de Medicina não ensinassem, exclusivamente, a podridão alopata. A alopatia é o erro dos séculos, e vai morrer; é o assassinato, é a mentira, é a ilusão”.
          Mas o tempo desbastaria a agressividade anti-aleopática de José Dias, e ele acabou descrendo da homeopatia. Pouco antes de morrer e de proferir o último superlativo, disse a Bentinho, que lhe prometia trazer um médico homeopata:
          “... Não, Bentinho, disse ele; basta de alopata; em todas as escolas se morre. Demais, foram ideais da mocidade, que o tempo levou; converto-me à fé de meus pais. A alopatia é o catolicismo da medicina...”
          É evidente em tudo isso a intenção satírica, ajustando-se o charlatismo homeopata à psicologia do personagem. Mas o que me prende a atenção, no caso, é a data em que o falso “doutor” apareceu na fazenda de Itaguaí, no ano em que nasceu Bentinho – por volta de 1843.
          Ora, precisamente no ano de 1842 é que desembarcou no Rio de Janeiro o Dr. Benoit Mure, médico francês, discípulo de Hahnemann. Aqui estabelecido, o Dr. Mure fundou na capital do Império o primeiro consultório de medicina homeopática, do qual se originariam pouco depois a Escola e o Instituto de Homeopatia. Nesse tempo, Machado de Assis contava menos de 4 anos; mas a atividade homeopática do Dr. Mure provocou infindáveis e virulentas polêmicas pela imprensa, e dessas polêmicas ou do eco que elas produziram, viria depois a tomar conhecimento o jovem jornalista Machadinho.
          Podemos ainda supor que Machado de Assis ter-se-ia informado do assunto através de livros e revistas, que aqui se publicaram durante a permanência do Dr. Mure e depois de seu regresso à França. Do próprio Dr. Mure é o livro, em dois volumes, Prática Elementar da Homeopatia, o qual teve grande repercussão, com sucessivas edições, sendo a sua 5ª. edição datada de 1857. E não seria esse, justamente, o Manual de que se munira José Dias, conforme relata Bentinho?
          O fato é que, ao narrar, no romance, como e em que circunstâncias  José Dias surgira na vida de Bentinho, não esqueceu o romancista de harmonizar a data do episódio com a data do estabelecimento do Dr. Mure no Rio de Janeiro. Ocorre ainda que a biografia do Dr. Mure apresenta aspectos estranhos, que não eram desconhecidos na Corte, e deles se informaria Machado de Assis ouvindo pessoas que sabiam de tudo, inclusive a parte aventurosa.
          O Dr. Benoit Mure veio para o Brasil não apenas como adepto e propagandista das doutrinas médicas de Hahnnemann, mas também como adepto e propagandista das doutrinas sociais de Fourier. Obtivera do governo  Imperial uma concessão de terras na província de Santa Catarina, para ali instalar um falanstério socialista do tipo ideado por Fourier. Trouxe de início algumas dezenas de famílias francesas, umas duzentas pessoas, todas como ele fouriaristas. Fundaram o Falanstério do Saí, naquela província do Sul, dedicando-se os falansterianos à criação de gado, à pesca, à lavoura, a trabalhos de ferraria, serraria, etc. Mas a tentativa durou pouco, minada por discórdias internas e inadaptações às novas terras. A maior parte regressou à França – e o Dr. Mure, decepcionado, fixou-se no Rio de Janeiro como propagandista da Homemopatia. Aqui permaneceu até 1847 ou 1848.
          Granjeou não poucos adeptos, o mais combativo dos quais foi o médico português Dr. João Vicente Martins, nascido em 1810, formado em 1836, pela Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa e chegado ao Rio de Janeiro em 1837. Escreveu muito, fundando com o Dr. Mure uma “revista universal brasileira” intitulada Ciência, que se publicou na Corte de 1847 a 1849. Viajou pela Bahia e Pernambuco em propaganda da homeopatia, morreu com 43 anos de idade. Seu sucessor no Instituto Homeopático foi o Dr. Tomás Cocarane, filho do Lord Cocarane, e que viria a ser sogro de José de Alencar. E não seria o Dr. Cocarane o informante de Machado de Assis?
          O Dr. João Vicente Martins escreveu també um romance, Gabriela Envenenada ou a Providência, Rio de Janeiro, 1847. Conheço o volume de apenas o ver mencionado em catálogo, mas a crer no título e subtítulo, a heroína Gabriela teria sido envenenada pela alopatia e salva pela homeopatia, com a ajuda da Providência. O catálogo a que me refiro menciona ainda o livro Horas Vagas de João Vicente Martins, consagrado à Imperial Sociedade Amante da Instrução, Rio de Janeiro, 1847.
          O engenheiro Vauthier, outro francês, também propagandista das doutrinas de Fourier, e que viveu no Recife na mesma época em que esteve no Rio de Janeiro o Dr. Mure, dizia que este último era um charlatão. Limito-me a registrar a pesada acusação formulada pelo engenheiro, talvez exagerada. O fato é que o médico deixou entre nós bom nome – e discípulos fiéis. Quanto a José Dias, sobre esse na pairam dúvidas – era um charlatão acabado e confesso.
 
                                                                                     Jornal (?) – de 24.12.1920
 

3 - O CARNAVAL E MACHADO DE ASSIS

 

          Passa este ano – a 28 de setembro – o cinqüentenário da morte de Machado de Assis. Pode parecer um pouco fora de propósito que se recorde aqui a fúnebre ocorrência de há cinqüenta anos, e isto por mão de um notório machadiano ou machadista – precisamente em dias alegres de carnaval. Mas o caso é que  ando às voltas com os livros do nosso grande escritor, e facilmente topamos, nestas explorações bibliográfica, com o assunto carnaval, sobretudo nos volumes de crônicas.

          Há além disso outra razão mais importante, que não devemos perder de vista ao fazermos esta aproximação entre o carnaval e Machado de Assis, mesmo depois de morto. E vem a ser o que o carnaval carioca não é um carnaval qualquer; é propriamente falando  “o carnaval carioca”, algo de intimamente impregnado de “essência” carioca, ou seja, desse toque indefinível e inconfundível do fenômeno chamado “carioca”. O mesmo fenômeno, que é todo um complexo de psicologia social e que em termos de literatura produziu a seu tempo um Manuel Antonio de Almeida e um Machado de Assis, como viria a produzir, em sequência cronológica, um Lima Barreto e um Marques Rebelo – este último felizmente bem vivido e bem cariocamente carnavalesco.

          Não poucas são aquelas crônicas de Machado de Assis consagradas ou referentes ao carnaval. Há mesmo uma delas, datada de 12 de fevereiro de 1893, em que o cronista, recordando o carnaval antigo, esboça uma quase história do entrudo. Vale a pena reproduzir a página:

          “Os meus patrícios vão ter um bom carnaval – velha festa que está a fazer quarenta anos, se já os não fez. Nasceu um pouco por decreto, para dar cabo do entrudo, costume velho, datado da colônia e vindo da metrópole. Não pensem os rapazes de vinte e dois anos que o entrudo era alguma coisa semelhante às tentativas de ressurreição, empreendidas com bisnagas. Eram tinas d´água na rua ou nos corredores, dentro das quais metiam à força um cidadão, todo – chapéu, dignidade e botas. Eram seringas de lata; eream limões de cera. Davam-se batalhas porfiadas de casa em casa, entre a rua e as janelas, não contando as bacias d´água despejadas à traição. Mais de uma tuberculose caminhou em três dias o espaço de três meses. Quando menos, nasciam as constipações e bronquites, ronquidões e tosses, e era a vez dos boticários, porque, naqueles tempos infantes e rudes, os farmacêuticos ainda eram boticários”.

          Numa outra crônica, de 3 de março de 1893, há a seguinte anotação, que revela muitas coisas em poucas linhas: “Tantas são as matérias em que andamos discordes, que é grande prazer achar uma em que tenhamos a mesma opinião. Essa matéria é o carnaval”. Era aquele um momento de grandes agitações políticas. As discórdias dividiam a opinião pública. Só o carnaval unia todo mundo.

          Um ano depois, 1896, na crônica de 15 de fevereiro, Machado de Assis reafirmava a mesma coisa com outras palavras: “O carnaval é o momento histórico do ano. Paixões, interesses, mazelas, tristezas, tudo pega em si e vai viver em outra parte”. A cidade se entregava unânime ao carnaval e não queria saber de mais nada.

          Para grandes males, grandes remédios. Para grandes tristezas, grandes carnavais. O cronista anotava, na mesma crônica: “Há quem creia que o carnaval tende a alargar os seus dias. Realmente, não batam setenta e duas horas para a alegria de uma cidade como esta, ainda mesmo não dormindo; tais são os sustos, as tristezas, as cóleras e aflições dos outros dias do ano, não contando o tumulto dos negócios, que uma semana ou duas para vir e saltar não  seria de mais. O tempo, em geral, é curto, mas o ano é comprido”.

          E ainda isto, sempre na mesma crônica de 16 de fevereiro de 1896: “A própria morte nestes três dias deve ser jovial e os enterros sem melancolia. A cor do luto podia ser amarela...” Eis aqui o diabo machadiano à solta.

          Mas o diabo do carnaval, machadiano ou não, tem dado motivo a muita literatura, antes e depois de Machado de Assis. Romancistas, contistas, cronistas, poetas exploraram, exploram e continuarão a explorar o rico filão que é inesgotável. E isto sem falar nas poesias e nas músicas populares, que se confundem com o próprio carnaval. Igualmente pintores, gravadores, escultores buscam fixar em suas obras a riqueza plástica que o espetáculo, sem par da folia oferece perdulariamente aos seus olhos.

 

                                                                   Jornal “Hoje” – Folhetim – 20.02.1958

 

 

4 -   HOMÕNIMO BENJAMIN CONSTANT
 
  
          Há Benjamin Constant e Benjamin Constant. O suíço-francês e o brasileiro. Àquele original, este homônimo, imitação do nome. Desse homônimo fez Machado de Assis motivo de comentário, em crônica de 20 de maio de 1894. Referia-se o cronista ao – “espanto que houve na Europa, e especialmente em França, quando a revolução de Quinze de Novembro elevou ao governo Benjamin Constant. Perguntaram se era francês ou filho de francês”. A seguir o comentário iniciado sobre o fato, freqüente entre nós, de se batizarem meninos com os nomes de personalidades célebres no mundo: Lamartine, Chateaubriand, Lafayete, Washington, etc. E observava que no caso de Benjamin Constant não sabia  - “se foi o homem político ou o autor de Adolfo, que determinou a escolha do nome”.
          Em verdade, a dúvida de Machado de Assis não tinha cabimento. O brasileiro Benjamin Constant nasceu em 1836, seis anos depois de falecido o suíço-francês Benjamin Constant, e é improvável que nessa época fosse o Adolfo conhecido no Brasil, a não ser excepcionalmente. Suas primeiras edições, muito limitadas, datam de 1816, 1824 e 1828; novas reedições só apareceram em 1830 e 1843. Não é crível, portanto, que o modesto professor de província Leopoldo Henrique Botelho de Magalhães houvesse lido um pequeno romance de reduzida circulação em países de língua francesa. Sua admiração se concentrava precisamente no escritor político Benjamin Constant, famoso como tal em toda a Europa. E é isso o que nos informa o autorizado Teixeira Mendes, com sua biografia do republicano brasileiro, quando escreve que, ao batizar o filho recém-nascido, deu-lhe – “o pai por patrono subjetivo Benjamin Constant, o célebre publicista do constitucionalismo, de quem era entusiasta”. A informação é acrescida da seguinte conjectura, que a completa por modo extensivo: “Esta circunstância pode até certo ponto dar-nos uma idéia das opiniões políticas que no lar ouviria o patriota brasileiro na sua meninice”.
 
                                              Jornal “Imprensa Popular” – Folhetim – 25.05.1958
 

 

 5 -    FORMAS DE CRÍTICA E AUTOCRÍTICA
 
 
          Alguém me disse que estou dando um tom acadêmico à minha intervenção no presente debate, e que excessiva, ou pelo menos secundária, lhe  parece a preocupação pela forma como se deve fazer crítica e autocrítica. Pode ser que sim, pode ser que não; e pelo sim pelo não, creio que o melhor é mesmo continuar o que tenho a dizer pela maneira como venho fazendo. Inclusive porque tenho muita coisa a dizer, e cada coisa virá a seu tempo.
          Que se pretende com a crítica e autocrítica? Concretamente, qual o objetivo da atual discussão em nosso Partido? Não vou avançar nenhuma novidade dizendo que o que se tem em vista é corrigir erros teóricos e práticos, ajudar os camaradas que erraram a corrigir os seus erros, educar politicamente  não apenas os comunistas e simpatizantes mas também as massas, esclarecer os problemas em debate e, finalmente, fortalecer o Partido, fortalecendo ao mesmo tempo todo o movimento patriótico e democrático em que se acha empenhado o povo brasileiro.
          Isto posto, o que então me preocupa, preliminarmente, é verificar se a presente discussão é conduzida de modo adequado, e se as formas utilizadas na crítica e autocrítica são as mais próprias a atingir os objetivos em vista. E observar, além disso, se estas formas são as que melhor se coadunam com certas modalidades do nosso caráter nacional.
          É evidente que o debate pela imprensa está ainda, como conteúdo, em nível bastante baixo, se bem que revelando já boa tendência a melhorar. E como conteúdo e forma se acham intimamente interligados, não é de admirar que alguns artigos se apresentem, como forma de expressão, em nível ainda mais baixo. Isto se viu principalmente no começo da discussão. Bem entendido, quando falo em “forma de expressão” não é no sentido da correção gramatical, mas no sentido mais amplo de normas partidárias que temos de levar na devida conta.
          O fato é que alguns articulistas se comportam como inimigos dirigindo-se a inimigos. A começar pelo tratamento de “senhor” em vez de “camarada” ou “companheiro”, como é de uso universal. Dirão que isto é coisa de mínima importância. Parece, na realidade, porém, é a expressão de um sentimento hostil, inadmissível entre comunistas. Nunca vi, em tempo algum, em nenhuma publicação comunista, socialista ou operária de qualquer país do mundo, o tratamento interno de “senhor” dado a um camarada ou companheiro do mesmo partido. Nem é por acaso que esta maneira estranha de um comunista se dirigir a outro comunista vem sempre acompanhada de ataques pessoas, virulentos, raivosos, vingativos.
          Não é esta forma que devemos empregar em nossa crítica a erros alheios. Desta forma não ajudaremos ninguém a corrigir-se, nem muito menos contribuiremos para educar os leitores. O sentimento fraternal – franco, verdadeiro, igualitário – é condição  indispensável na formulação da crítica, mesmo aos camaradas que mais erraram, pois que o objetivo da crítica é ajudá-los e não arrasá-los. A crítica pode e deve ser severa no conteúdo sem no entanto perder o sendo da camaradagem e companheirismo em suas formas de expressão. Formas inimigas devem corresponder a conteúdos inimigos, e isto só se compreende quando empregado contra inimigos.
          Condenamos hoje, com carradas de razão, os maus métodos de trabalho em nosso Partido, os quais se caracterizavam, em muitos casos, pela brutalidade no tratamento dos quadros, pela desconsideração e até pelo desrespeito às pessoas como pessoas; como vamos então empregar os mesmos métodos em nossa crítica a este ou aquele camarada, por mais graves que tenham sido os seus erros neste terreno? Se pretendemos ajudá-los a se corrigirem, não é essa a melhor forma de criticá-los. Devemos mostrar os nossos sentimentos de fraternal camaradagem em relação àqueles que no passado menosprezaram esses sentimentos, adeptos e praticantes que eram de “dureza” da crítica “sem contemplações”, do sistema de “coices” e outras barbaridades.
          Nossa experiência quanto ao exercício da crítica e autocrítica é muito escasso, pois o que fazíamos antes era coisa formal, mecânica, esquemática. Só agora começamos a compreender a sua importância  fundamental como norma permanente de vigilância e auto-vigilância, indispensável à correção das falhas e dos erros que se vão cometendo na atividade teórica e prática do Partido. Só agora começamos a compreender a sua significação essencialmente política, devendo por isso mesmo obedecer a princípios determinados.
          Não são menos importantes os diversos aspectos relacionados com as formas de expressão da crítica e autocrítica. Além das formas necessariamente partidárias, cujos princípios e objetivos estão definidos, é preciso considerar também este outro aspecto – o de formas de expressão que melhor correspondam à nossa maneira de ser, viver e conviver, em íntima consonância com certas particularidades do nosso caráter nacional. Se me perguntarem quais são ou serão estas formas nacionais, eu não saberei responder. Estamos ainda em fase experimental, e também neste ponto a prática irá apontando o caminho a seguir. Mas já podemos perceber alguns sinais em tal sentido, quer nas discussões que se realizam na OOBB,, quer em cartas de operários publicadas em nossos jornais.
          Suponho aliás, que o lado negativo da experiência está um tanto claro, mostrando-me de como não devemos fazer as críticas e autocríticas. Restará a retirar e fixar o outro lado – de como fazer.
          O assunto não está esgotado e é possível que eu volte  numa outra oportunidade.
 
                                              Jornal “Imprensa Popular” – edição de 18.11.1956.
 

 6   DEPOIMENTO
 
 
          Quando foi do centenário de Machado de Assis, em 1939, lembro-me te3r lido, num jornal do interior de São Paulo, que o autor de “Dom Casmurro” fora a vida toda um grande infeliz, perseguido pelos maus fados  desde o berço paupérrimo, os quais maus fados lhe teriam enchido os dias de inenarráveis sofrimentos físicos e morais. Tais exageros, no entanto, cheios de simpatia e piedade, causaram-me espécie naquela ocasião, e, ao recordá-los agora, bem vejo que não diminui a impressão de estranheza do primeiro momento. Como e onde teria o articulista encontrado elementos para chegar à semelhante conclusão? O que me parece desde logo fora de dúvida é que não foi nem podia ser na leitura direta das obras do mestre. Resta outra fonte, esta mais provável: a massa enorme de apreciações críticas e interpretativas a que foram submetidas, segundo o arbítrio de cada qual, a vida e a obra literária de Machado. O articulista a que me refiro teria sido uma vítima desse acúmulo desordenado de materiais – e daí a sua visão deformada da verdadeira fisionomia do grande escritor.
          Afim de contrabalançar essa tendência para a deformação, que o tempo como que se apraz em acentuar, será sempre útil buscar o testemunho pessoal daqueles que mais de perto conheceram o homem  e com ele privaram demoradamente. É o caso, aqui, de Artur Azevedo, amigo e companheiro de repartição que durante trinta e quatro anos conviveu com Machado de Assis ninguém melhor do que ele poderia falar acerca do caráter, do temperamento e dos modos do mestre.
          Escrevendo por ocasião da morte de Machado (artigo “No País”, de 30 de setembro de 1908), recentemente reproduzido no suplemento “Autores & Livros”), Artur Azevedo recordava que ele, nos últimos anos, depois que perdera Carolina, já não era o mesmo de antigamente: “Há quanto tempo o mestre, que dantes falava  de tudo, e de tudo sorria, não falava senão da morte, e não sorria mais... De vez em quando um fato público, de sensação, parecia  reanimá-lo e despertar a sua antiga “verve” de cronista; houve mesmo ocasiões em que ele começou a fazer deliciosos folhetins falados, mas isso pouco durava...”
          Continua Artur, insistindo no contraste: “... como era triste comparar o Machado de Assis dos últimos tempos com o de outrora, alegre, cheio de vivacidade, eternamente rapaz, dizendo um bom dito de propósito de tudo, e rindo, rindo sempre!”.
          O autor de “Braz Cubas” era um grande tímido: neste ponto é unânime a opinião de todos quantos o conheceram ou lhe estudaram a obra. Mas, pelo que deixa ver Artur Azevedo, essa timidez se desfazia quando ele se encontrava entre amigos da intimidade e podia fazer sem reticências nem receios: “Se Machado de Assis não fosse um tímido, ninguém com mais impetuosidade nem com mais brilhantismo teria atacado de frente os ridículos da sociedade. Bastava para isso que ele escrevesse como falava”. Eis aí um depoimento que se me afigura extremamente importante acerca do verdadeiro Machado de Assis.
          Mas é um fato que a gente quanto mais vive mais aprende, como dizia o outro. Eu supunha de todo em todo impossível poder alguém arranjar uns qualificativos novos para classificar e etiquetar a obra literária de Machado de Assis. Pois enganei-me. Eles aqui  estão, não só novinhos, como sobretudo imprevistos, postos numa espécie de tabuleta bibliográfica, no qual se escreve que o escritor  carioca – sucessivamente crítico, poeta arcaico, poeta romântico, romancista de salão e contista, afirmou-se, por último, escritor humorístico de primeira ordem”. Isto se encontra no “Vamos ler!”, número de 13 de novembro último.
 
                                                                        Jornal (?) – edição de 20.11.1941.
 
 
 
  

Acervo ASTROJILDO PEREIRA ***** Artigos

pesquisa JOSÉ ROBERTO GUEDES DE OLIVEIRA

ensaísta, biógrafo e historiador

 

 

 

 

 
                                                                

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Comentário de Delcio Marinho em 18 fevereiro 2011 às 0:14

 

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