Usa-se associar o mes agosto a ocorrências desfavoráveis, período em se esperam tragédias, insucessos e cataclismos. A crença parece remontar aos tempos da Roma Imperial, apesar de o mes ter esse nome em homenagem (meio imposta) a César Otávio Augusto, enciumado pelo fato de o mes anterior ter se chamado Julho, pra imortalizar um antecessor: Júlio César.

O sentimento refratário em relação a agosto foi assimilado, com devidas adaptações, pelas culturas latinas oriundas da civilização romana, mesclando a religiosidade panteísta greco-romana à cristã, que viria a predominar no mundo ocidental e chegando a nós por influência da colonização portuguesa, que por ter um povo dedicado à agricultura por um lado e às navegações por outro, produziu cultura das mais férteis em mitos; de resto, seu patrimônio cultural inalienável como nação.

Na China, por exemplo, cores, números e detalhes da paisagem natural são passíveis de interpretação, segundo critérios cósmicos, em tentativa de desvendar relances daquilo que atormenta o homem desde os seus primórdios.

Agosto poderia ter se esforçado mais pra amenizar a má-fama, em vez de abrigar eventos de terríveis impactos negativos no imaginário de gente que, como nós, descrê acreditando. Só por exemplo: pra que patrocinar ocorrências tenebrosas, como: o início da 1ª Guerra Mundial, o massacre no Gueto de Varsóvia, a invasão japonesa sobre Pequim, a primeira execução de um ser humano na cadeira elétrica (na “moderna” Nova Iorque), o lançamento das bombas sobre Hiroxima e Nagasaki, o início das agressões entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte, alem de tantas outras calamidades cujo símbolo marcante se grava na história como a “Noite de São Bartolomeu”, chacina contra protestantes perpetrado sob ordens da arquiduquesa Catarina de Médici, em 24 de agosto de 1572?

E nós, aqui, tendo de lidar com o suicídio de Vargas e a renúncia de Jânio. Falaí, Rubem Fonseca!

Agosto é o mês em que noivas recusam casar, donzelas não lavam os cabelos, negociantes não fecham contratos, viajantes se fecham em suas casas e se vacinam os animais; especificidades às vezes singelas do cotidiano que nos conferem, mesmo que originadas da superstição, a liga que nos faz aderir a um meio social, pro bem ou pro mal; são noções coletivas que se tornaram crenças populares, que por sua vez compõem o patrimônio cultural de um povo.

Diferem uns dos outros? Escandalizam, às vezes? Chocam? Estranham?

São peças fundamentais a compor o work in progress da trajetória humana.

Em todos os meses, mas neste, especificamente, teremos quem disserte a sua paixão e a sua esperança quanto à possibilidade de que haja algo “fora de nós” que confira algum sentido à existência. Teremos músicos, contistas, poetas, ensaístas e humoristas movidos pelo propósito elevado e terrivelmente frustrante de encontrar um propósito para o despertar a cada manhã, e a finalidade em seguirmos vivendo.

Irremediavelmente impregnados da tristeza pelas partidas, num mes de agosto, de Bergman e Antonioni, que, como nós, tentaram vislumbrar alguma esperança no peculiar desengano que, na falta de outra palavra, batizamos “civilização”.

Enfim, agosto entra sempre de sola, subtraindo-nos gente de primeiríssima linha, artistas do ver/viver que (des)orientaram formas de pensar relacionamentos, afeto, individualidade, sexo, e, principalmente, identidade.

Estamos à deriva, neste tempo de tantas certezas. O mais importante, porém, a despeito das raivas, medos ou frustrações de cada um de nós, é que o desprendimento modifica formas de ver, falar ou ouvir.

O fim da inocência. O resto é silêncio. Juntar cacos parece ser a atividade essencial.

É reconstruir.

Agosto, quando é que tu toma jeito?!

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Comentário de luzete em 1 setembro 2009 às 2:20
Gostei particularmente deste momento:

"Estamos à deriva, neste tempo de tantas certezas. O mais importante, porém, a despeito das raivas, medos ou frustrações de cada um de nós, é que o desprendimento modifica formas de ver, falar ou ouvir."

E vem setembro, e
Comentário de elizabeth em 1 setembro 2009 às 2:22
Já T. S. Elliot disse que abril é o pior dos meses...
Comentário de Zé da China em 1 setembro 2009 às 3:24
April is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers.

The Waste Land

Tá certo, dona Beth, jogar Elliot pra cima do Zé é pegar pesado...
Mas combina, invertendo os hemisférios.
Primavera árida, diálogo com mitologias e sexualidade na virada de uma Era.
Que maravilha.
Elliot tambem falava de catar os cacos, da guerra. E não é ele quem pergunta: "O que fizemos da vida que gastamos (ou desperdiçamos)?"
Setembro virá, claro, trazendo a prima Vera, entre lilazes brotando da terra morta.
Snif snif...
Comentário de Marcia em 1 setembro 2009 às 6:06
Cecito, muito bom!

Concordo. Agosto é o mes do desgosto (todo ano esse mes vem com muitas contrariedades), e ainda bem que acabou!

Setembro sempre me dá uma boa nova!

Beijos.
Comentário de Helô em 1 setembro 2009 às 12:30
Lá vem seu China na ponta do pé
Lig lig lig lig lig lig lé


Quando é que tu toma jeito, Zezinho?
Tá bom, teve Hiroshima e Nagasaki no Japão, mas sisqueceu dos terremotos na China?
1. Shensi, Janeiro de 1556 - 830 mil mortos
2. Tangshan, Julho de 1976 - 250 mil mortos
3. Kansu, de Dezembro de 1920 - 200 mil mortos
4. Chihli, China, Setembro de 1290 - 100 mil mortos

E o Elliot estava certo porque Abril levou Sergio Leone e Alfred Hitchcock (que por sinal, nasceu em agosto :) E loura sabida (kkk) não gosta de dezembro, que levou Lennon e Jobim. Julho, além de levar o poetinha, levou quase ao mesmo tempo dois tesouros: Gades e Brando. E o Brasil perdeu a Copa de 50 no Maraca também em Julho!
Melhor continuar escutando as minhas marchinhas. Carnaval já tá quase aí.

Quando conheci casta Suza-ana
Nas areias de Copacaba-ana
Era namorada de um chinês
Mas olhava assim pra um japonês
Daí, deu-se a confusão
Estourou a guerra China com Japão

Grande Ary Barroso! Morreu em fevereiro :)))
Comentário de Zé da China em 2 setembro 2009 às 12:42
Pois mesmo não crendo en las brujas, moça, Zé espera dar zero hora e um segundo do dia 1º de setembro pra arrancar rapidinho a página do calendário.
Quer dizer que todo mes morre gente fina e gente safada? Não sabia, viu, loura!
Agosto tem outra conotação, pelo menos na cristandade. Mes do cachorro louco, essas coisas. Tem uma explicação sociológica-cultural-religiosa, claro, mas a curiosidade de Zé-preguiça não chega a tal de sair garimpando. É serviço seu, dona sabida.
E a música do grande Ary é um absurdo epistemológico: muié que namorou um china jamais vai olhar pra bofe de nacionalidade nenhuma, quanto mais um japa!

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