Aristóteles, Galileu, Poincaré e os Brasileiros

Miguel de Unamuno:

“As variações da ciência dependem das variações das necessidades humanas, e os homens de ciência costumam trabalhar, quer queiram, quer não, consciente ou inconscientemente, a serviço dos poderosos ou do povo, que lhes pedem confirmação de suas aspirações.”

Filosofia da Ciência, Rubem Alves, p. 150.

Caros geonautas,

Pegando carona no gancho dos posts do Nassif, Os três brasileiros que derrotaram o neoliberalismo (Nassif, 24/02/2012) e Os três brasileiros que refutaram as bases do neoliberalismo (Nassif, 23/02/2012), de onde li sobre os três brasileiros e suas teses dos nos anos 80 e 90, e os livros que ainda não li, “O UNIVERSO NEOLIBERAL EM DESENCANTO”,  e “Gödel´s Way: Exploits into an undecidable world”, mas que realmente aparenta ser digno de um feito de alta grandeza.

Ciência, Poder, Ideologia e história humana ao longo da jornada. O axioma de Galileu e a fronteira da ciência, tangenciando seu limite.

Axioma de Galileu:

“O livro da natureza está escrito em caracteres matemáticos”, Galileu. Il Saggiatore,

(ALVES, Rubem. Filosofia da Ciência, 1981, p.67).

 

“A mente é um caos de deleite”, assim anotou em seus escritos um jovem, contemplando e desfrutando a visão do horizonte do alto do navio ancorado na baía, olhava a floresta tropical brasileira. O ano era 1832, a floresta tropical era na Bahia (Baía de Todos-os-Santos), o navio chamava-se, Beagle Ship, o jovem era Charles Darwin.

O mundo e os modelos de representação do mundo, em Aristóteles e Galileu. Em Aristóteles, por quase dois mil anos, a visão de mundo foi o “modelo” hierarquizado aristotélico, onde a terra era o centro (modelo geocêntrico) e a tendência dos objetos era permanecer em seu estado natural, em repouso.  No “modelo” de Galileu, o sol é o centro (modelo heliocêntrico, de Nicolau Copérnico) e a tendência dos objetos é manter seu estado de movimento (movimento uniforme ou repouso). Galileu lançou o “Princípio da Inércia” e as bases da Física Clássica (com variável do tempo), e conseqüentemente, o fim do ‘modelo’ da física aristotélica.

O mundo, na verdade, não mudou nada (o mundo físico lá fora permanece o mesmo há milhares, milhões de anos), exceto numa coisa, uma ideia, essa nova ideia de Galileu, esse novo “modelo” de representar o mundo, em oposição ao “modelo” de representar o mundo de Aristóteles, é que fez a revolução. Disse Galileu, “essa nova ideia deve ser expressa em termos matemáticos, (...), os segredos da natureza estão escritos em linguagem matemática, de modo que, sem conhecer essa linguagem, não poderemos conhecer mais profundamente o mundo em que vivemos.”

A escola pitagórica grega foi precursora no espírito que anima nossa ciência: “o que caracterizava os pitagóricos era sua firme certeza de que, para se compreender a natureza, era necessário contemplá-la na busca de relações numéricas.” (ALVES, 1981, p. 60).

Foi com Henry Poincaré, século XIX, a primeira vez na história na qual a ideia de Galileu encontrou seu limite. A ideia originalmente formulada e concebida por Galileu, no espírito renascentista, na qual o seu (e nosso) “modelo” de representar o mundo, “tudo” deveria ser traduzido em “números matemáticos” encontrou seu limite, seus questionamentos, seus estremecimentos, foi o início do “desabamento” da catedral mecânica. Mesmo assim, temos todo o fantástico desenvolvimento da ciência no século XX, como a teoria da relatividade (com equações deterministas), a mecânica quântica (com equações deterministas), a chegada do homem a sua lua, e todos os avanços da ciência, tudo ocorreu em bases do pensamento cartesiano e determinista da ciência da certeza.

Hoje, como sabemos, quando temos uma ideia, seja em casa, ou um CEO numa empresa, ou uma decisão política importante, um projeto de negócios, um projeto de vida, a primeira questão que vem à mente, na família, na empresa, no governo, nas decisões importantes, são os valores, os custos envolvidos para a ideia ser executada, tornar-se realidade. Um homem de decisão diz: “mostre-me os valores envolvidos”, “eu preciso ver os números, as probabilidades e viabilidades do negócio”.

De onde vêm as origens dessa linguagem? Claro, do Renascimento, de Galileu e o “modelo” de representar o mundo em “números matemáticos”. Nasceu com Galileu o modelo da ‘catedral mecânica’ de representa o mundo em números.

 

“Galileu, ao propor a matemática como a linguagem a ser usada para traduzir a natureza, na realidade construiu uma rede cujas malhas deixam passar cheiros, sons, cores, sensações táteis – por razões óbvias: estes não eram os peixes que Galileu queria. No seu aquário só podiam sobreviver relações matemáticas. Por isto, sua rede só segurava objetos matematizáveis.” (ALVES, Rubem. Filosofia da Ciência, 1981, p.76).

Mais de um século depois dos estudos de Henri Poincaré (século XIX) ter demonstrado a presunção reducionista do mundo mecânico, onde não havia acaso (variância, perturbabilidade, incerteza, indeterminação), tudo tinha causa e efeito. Começou com Poincaré o conhecido e famoso “desabamento” da catedral mecânica do Renascimento, a ciência cartesiana, determinista e reducionista da certeza, que ainda hoje vive em nossas ações e pensamentos, Poincaré constatou, demonstrou aos físicos e ao mundo o “Problema dos três corpos”, o cálculo dos corpos celestes no espaço, não era computável ao longo do tempo, é indeterminado, no mundo da matemática pura, da precisão exata (quantitativa), - que nasceu com o ‘modelo’ de mundo de Galileu - não era possível fazer os cálculos com precisões exatas entre as posições dos corpos no tempo, pois os erros acumulados se tornavam maiores que as distâncias entre os corpos. Como dizia o poeta fingidor, “Navegar é preciso, viver não é preciso”. (de precisão, exatidão).

Porém, em contrapartida, Poincaré introduziu no mundo prático, uma descrição ‘qualitativa’ de padrões de acontecimentos que, segundo ele, se dividem em três tipos de tendências: tendência de estado mínimo, tendência cíclica e tendência caótica. Esse é um ponto muito importante, e pouco entendido até hoje entre nós.

As teses dos brasileiros colocam um novo paradigma no pensamento moderno. Os Deuses conspiram como o Brasil na “Nova era Vargas” e o mundo em ‘Grande transformação’?

Quem viver verá! “Alea jacta est”.

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Comentário de Euripedes Ribeiro de Sousa em 24 fevereiro 2012 às 17:11

Clap... clap... clap... Nada a acrescentar, só me resta aplaudir entusiasticamente!

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