Penso num verso muitas vezes repetido da Odisséia: “E contemplava em lágrimas o grande deserto do mar” (Odisséia V, 84). Traduzido literalmente, o verso diz: “Para o mar, o infecundo, olhando, enquanto as lágrimas lhe escorriam”. Homero opera aqui uma subtração de líquidos. A umidade menor, o véu de lágrimas, é cercada, reabsorvida sumariamente – para não dizer sorvida – pela umidade maior, o mar salgado. O próprio mar não se manifesta, mas adivinhamos o que ele diria, se pudesse falar: chora homenzinho, chora até cansar; logo mais sorverei todo este grão de umidade que te faz quem és. Entre os incontáveis momentos monológicos que fazem avançar a epopéia, este é um dos mais solitários e comoventes. (...) Ela (a formulação) é a rima secreta e recorrente de todas as aventuras que a Odisséia relata. Pois estas não são mais que as tribulações de um homem a quem Posseidon aplica sempre uma nova peça: uma parábola da vida, com muitos momentos de comédia, em torno das frustrações e dos revezes do herói desafortunado. Mas é a inclemência da natureza, na figura do mar sem fim – à primeira vista, mero instrumento dos deuses, mas na verdade um elemento de ânimo próprio -, que confere traços trágicos ao relato das viagens de Odisseu. Pois não há astúcia que o livre do fato de que o homem também é feito de água, de um agregado de líquidos que põem seu corpo à mercê dos ciclos naturais. São as seivas vitais que desestabilizam sua psique e perturbam a economia dos sentimentos – sangue, suor e lágrimas, para dizê-lo com concisão bíblica. Por isso mesmo, a comparação entre o mar e o deserto traduz o essencial: de um lado e de outro, o elemento infecundo. Decisiva, aqui, é a desproporção: de um lado o oceano, a grande reserva de cloreto de sódio do planeta; de outro, os borrifos de água e de sal nos olhos de um homem solitário, que chora à beira mar. GRÜNBEIN, Durs. As lágrimas de Odisseu. (Trad. Samuel Titan Jr.)

 

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