Verdade amigo e aqui também chove muito, mas moradora de primeira "catigoria" que sou, não sinto cheiro de fossa não. Não da fossa por falta de rede de esgoto que te afeta aí...

Mas de repente....
Eu aqui sentada no PC sozinha, com sobrinho e filhote brincando na mesa - que ainda e sempre tá bagunçada- filhota no niver do namorado....

Vem aquela "outra" fossa...
Que tem cheiro, mas também toques, vozes, falas, visões.

Chuvas fortes favorecem saudades, emoções e afetos. Ninguém deve ser inimigo de ninguém debaixo de chuva forte, você tem razão.

Saudades dos bolinhos de chuva da vó, que faziam a alegria secreta - criança de praia lá podia ficar feliz com chuva? - mas invariavelmente incontida nos incontáveis dias de chuvas na Baixada...
Saudades da permissão da mãe - se não houvesse raios e a gente prometesse banho quente depois - de ficar na chuva, só pelo prazer de se molhar.

(Sabe que isso mantenho? Não tenho guarda chuva e adoro andar na chuva, pena que não tem mais bolinho de chuva e chá da vó - que não gostava da idéia, mas....quem mandava era a mãe.)

Chuva lembra também o cheiro de mato da casa cheia de árvores e plantas.
Hoje só cheira a asfalto quente umedecido pela chuva.

E, se forte estivesse, lembra da diversão mor de correr a achar recipientes suficientes para as goteiras, de arrastar os móveis da parede do quarto dos pais, onde chovia mais que fora, baita cachoeira bacana..
Nada dramático aos meus olhos, diversão absoluta.

(Não entendia então o choro da mãe, a humilhação do pai e do mano mais velho, porque, melhor que isso, só caçar entre vassouradas e risadas Godofredo e Genoveva, os camundongos de estimação da casa, por trás das cortinas que serviam de portas...).

Se existia coisa divertida nos dias de chuva era isso:
Arrastar móveis, colocar panelas e quetantos, sair na chuva - lembra, mãe era zelosa, não podia ter raios - voltar, tomar banho quente e depois comer bolo de chuva com chá quentinho....

Provavelmente não era 100% assim, na minha idade a memória é uma construção cheia de quinas, esquinas e enganos, mas a chuva dá saudade do que se teve e do que se pensa que teve.
Dá saudade até do que se pensava que teria e nunca veio...

E, um dia - esteja eu traída ou não pela memória - tive alegria só pelo fato de viver, sentir, cheirar, rir, vassourar camundongo, tomar chuva, arrastar móveis..

Não, o pior da idade não foi o corpo que envelheceu: foi a alegria que se tornou exigente, fugaz, teimosa e temperamental para se manifestar.

E, aqui em casa, ao fundo, para provar que fomos nós que mudamos, não a vida, os meninos ainda brincam, gritam, riem alto, só por montar construções de madeiras impossíveis de se manter em pé, na mesa eternamente bagunçada, num dia de chuva forte...

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Comentário de Cabocla em 28 janeiro 2010 às 21:10
So deep is the night,
No moon tonight,
No friendly star
To guide me with its light;
Be still my heart,
Silent lest my love should be returning
From a world far apart.

So deep is the night
O lonely night,
On broken wings
My heart has taken flight
And left a dream.

In my dream our lips are blending,
Will my dream be never ending?
Will your mem`ry haunt me till I die?
Alone am I,
Deep into the night,
Waiting for the light,
Alone am I,
I wonder why?
Deep is the night.
Comentário de Marco Antônio Júnior em 28 janeiro 2010 às 21:45
Que coisa mais linda, Cabocla. Tomei a liberdade de salvar, podia? Mande sempre seus escritos, adoro essa genialidade do trivial, sua complexidade do cotidiano. Não é apenas arte pura e do mais alto nível. É um incentivo à vida de cada dia, ao cultivar do passado e à promessa incerta mas inabalável do futuro. Beijinho do amigo Marco. Espero outros.
Comentário de Cafu em 28 janeiro 2010 às 21:58

Beijos, Caboclinha.
Comentário de Marise em 28 janeiro 2010 às 22:10


Cabocla que lindo. A chuva nos traz recordações dos tempos de criança.
Beijos
Comentário de Cida Medeiros em 28 janeiro 2010 às 23:32
Amiga,
que lindo! Bjs e saudades de todas e todos.
Comentário de Zé Via de Regra em 28 janeiro 2010 às 23:37
Nessas horas, de bon soir tristesse, há que apelar às pequenas alegrias, rir do que antes doeu.
Nada se perde, tudo se transforma, e nada se esquece, tudo é oblivion.
Listen to the music of the falling rain.
Pequenas alegrias, vastas memórias, e o cheiro bom do que aconteceu ou há de acontecer.
Depois do outono, pular logo pra primavera. Chega de invernos, né?

Comentário de Helô em 28 janeiro 2010 às 23:53
Coisa linda o que você escreveu, Cabocla.
Para mim, combinou com a música (Day is Done) e com a voz de Nick Drake.
Beijos.

Comentário de elizabeth em 28 janeiro 2010 às 23:53
Zezita, estava pensando nessa musica, telepatia a toda. Vai outra coisa.

Comentário de Jura em 29 janeiro 2010 às 0:02
Como assim, vc é cabocla ou caiçara?
Comentário de Lacyr em 29 janeiro 2010 às 0:09
Amiga Cabocla, eu costumo pensar que somente uma introspecção (vulgo "fossa") permite textos belos como esse teu.Parabéns!
ABÇ

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