Sinal dos tempos. Ando me comunicando muito por memes. Criei no Facebook uma sequência deles somente tendo por tema o incêndio da estátua do bandeirante Borba Gato.
Gostemos ou não, trata-se de uma obra de arte. Um artista - um falecido escultor de nome Júlio Guerra - empreendeu seu talento, sua técnica, seu imaginário, sua visão particular de mundo e a concebeu. Deve ter-lhe custado horas, dias, meses até completá-la.
O mesmo Júlio Guerra é autor, por exemplo, da bela escultura "Mãe Preta", localizada no Largo do Paiçandu, também na capital paulista. Bela e significativa. Contradição? Talvez.
Obras de arte são bens juridicamente protegidos. Existe até lei especial para isso, a dos direitos autorais. Tem tipo específico no Código Penal (art. 184) para a violação dos direitos de autor, como é o caso da destruição de obra de arte. Dá cadeia, embora o valor do bem que a lei visa proteger parece infimo, já que a pena é das mais brandas: detenção, de 3 meses a um ano. Isso sem contar, claro, que se trata de depredação de patrimônio público, mas aí já é outra história.
Penso que estátuas e obras que enaltecem genocidas e outros criminosos históricos - ditadores sanguinários, por exemplo - deveriam ser todas retiradas, mas não destruídas e, sim, levadas a um museu. Alguém sugeriu o "Museu da Vergonha". Concordo.
Ou, se mantidas expostas em praças públicas, deveriam estar acompanhadas de grandes painéis em que letras garrafais denunciassem as atrocidades que o "homenageado" cometeu. A sugestão é de meu amigo jornalista e radialista Wilson Reganelli. Pelo menos foi ele quem me passou. Seria uma denúncia constante e um desagravo permanente às vítimas.
A estátua de Borba Gato representa, antes de tudo, a figura nefasta do genocida que escravizou e seviciou sem piedade índios e negros. Tal qual fizeram com a obra que o homenageia, o bandeirante incendiou aldeias indígenas e quilombos. Matou e torturou. Foi responsável por atrocidades impublicáveis que resultaram numa limpeza étnica em nome do desenvolvimento econômico.
Não vejo sentido ético no clamor, que em maioria vem curiosamente da direita, por conta do que foi feito contra a estátua quando os incêndios que ele praticou na sua atividade, digamos, profissional foram muito mais graves e exterminaram vidas humanas, não apenas objetos de pedra e ferro, sem alma, sem sangue. Os índios e negros que nas mãos dele sucumbiram, é bom lembrar, eram de carne, osso e espírito.
Essa inusitada gritaria é algo tão surreal que só faltou essa gente, absolutamente indiferente às vítimas do genocida e de genocídios em geral - como este que vivenciamos em terras tupiniquins -, passar a defender os direitos humanos do próprio Borba Gato. Ou, pior, de sua estátua.
Por outro lado, o episódio pode ser visto como uma legítima manifestação de um segmento da sociedade identificado com as vítimas do sertanista exterminador, indignado com a permanência incômoda em praça pública de uma obra que o exalta como heroi.
Mas será que o ato tem mesmo esse grau de legitimidade? Será que os autores são de fato integrantes do segmento social identificado com os alvos preferenciais das ações eugenistas e higienistas do (mais um...) falso heroi nacional?
Coincidentemente, a ação se deu num dia de manifestações contra o genocida de carne e osso que insiste em atear fogo em nossas matas e nos matar. Que vem nos matando de roldão e baciada diariamente, há dois anos e meio, por conta de sua inatividade e de sua passividade próprias de uma estátua.
Coincidentemente, a guarda civil metropolitana, que guarda diuturnamente a estátua, não estava lá.
Coincidentemente, a polícia militar nada fez.
Parece que havia um propósito. Era a cena de vandalismo e violência que não havia, que faltava nas manifestações, marcadas pela pacificidade.
Parece que era preciso introduzir esses ingredientes na narrativa pró-presidencial.
Parece. Não sei, não tenho certeza, não tenho como afirmar.O que sei e que importa é que os genocidas começaram a cair.
Há uma vetusta piada de português (perdoe-me o leitor se soa politicamente incorreto) em que um gajo lusitano deixa com o compadre, em terras d'além-mar, seu gatinho de estimação, enquanto vem ao Brasil a passeio. Súbito, na praia, ele recebe uma ligação do outro que o informa da morte do gato. Indignado, o português repreende o compadre pelo susto que quase o mata. Este o indaga sobre como, afinal, deveria ter dado a notícia. "Primeiro, tu me dizes que o gato subiu no telhado", diz o viajor. "Mais tarde, tu me ligas para dizer que o gato passa mal", prossegue. "Só depois tu me contas da tragédia!". Passados mais uns dias, o turista recebe nova ligação do amigo: "compadre, tua mãe subiu no telhado!"
Supondo que os autores do incêndio da estátua sejam mesmo manifestantes contra o que ela representa, parece que o Gato bandeirante subiu no telhado. Que seja prenúncio da queda do genocida que nos desgoverna. E que nos mata com a indiferença das estátuas.
(LUÍS ANTÔNIO ALBIERO, em Capivari, SP, aos 25 de julho de 2021)

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