Acessando, via Internet, um site francês, com o sugestivo nome: Vie de merde,encontrei vários depoimentos, quase todos começando com a palavra "aujourd!hui", contando fatos jocosos, regidos por puro infortúnio. Realmente, uma merda de vida. Assim como o detetive Dupin, personagem de Alan Poe, deduziu o pensamento do amigo formando uma cadeia de raciocinios, comecei a rememorar, retroativamenteo meu nascituro e eterno caiporismo.Foi até fácil, conseguir uma sequência cronolologicamente lógica dos insucessos e reveses que se sucederam sucessivamente em minha vida. Os acontecimentos se descortinaram um a um na minha memória. Chega a ser nostálgico, para um heptuagenário, recordar os fatos desde a sua mais tenra idade.
Quando eu nasci, um ano antes de o idiota "de cabelinho na testa e um bigodinho que parece mosca" invadir a Polônia, a desfortuna veio comigo. Diz a parteira, que eu quase nasci morto. O cordão umbelical estava enrolado no meu pescoço. Segundo meu saudoso avô, todo neném parece uma minhoquinha enrugada, mas eu não! Eu era muito mais feio, dizia ele! Na minha infância o azar já me perseguia.Foram inúmeros os tombos do berço e as vezes em que a baba esquecia de testar a temperatura da água antes de me imergir para o banho, ou a tepidez do leite na mamadeira..
Figas, ramos de arruda, pés de coelhos e outros talismãs não tinham efeitos benígnos sôbre mim. Sempre evitando o número treze e gatos pretos, toda vez que eu dava volta para não passar por baixo de alguma escada, caía alguma coisa sôbre minha cabeça. De uma vez, lembro-me bem, foi uma lata de tinta. Sempre hiperbólico na má sorte, não arriscava-me a deixar, nas provas escolares, algum ponto sem estudar. Caia ele. Já adulto, cheguei a comprar bilhetes de loteria por quilo, mas nunca acertei nem o final. Sou jogador compulsivo, mas nem roubando consigo ganhar uma rifa. Certa vez, antes de entrar para a faculdade, eu trabalhava numa gráfica. Fizemos uma daquelas rifas de nomes, com cem nomes diferentes. Era para colocar à venda na papelaria da frente. Qualquer pessôa que fosse usa-las não saberia que tinha sido eu quem fez. Empastelei sutilmente uma letra em cada nome que ia ser soteado. Apenas uma vez me ofereceram uma daquelas rifas. Estavam sorteando uma cesta de natal e já tinham vendido oito nomes. Um deles era o premiado.
Quando ainda molecote,minha mãe mandou-me à feira, buscar umas verduras. Haviam lá, na feira,um de frente ao outro, um pasteleiro português e um verdureiro nacional. Não ha necessidade de dizer que o bigodudo português era vascaino e o outro, logicamente, era flamenguista. Discutiam em altos brados, chegando às vezes a ofender a genitora de um ou de outro.Pois eu estava passando justamente na hora em que o furibundo verdureiro tupiniquim atirou um repolho, já apodrecido, no lusitano possesso. Quem levou a repolhada? Eu!
Foi aí então, que com treze anos, ouvindo Oduvaldo Cosi, comecei a torcer pelo maior campeão carioca: O FLUMINENSE! Já não é mais o maior campeão carioca, não é mais o maior campeão da taça São Paulo de futebol junior, já esteve na terceira divisão e está indo novamente para a segunda. Mas continuo Tricolor de coração!

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