“Cidadão Boilesen” - Almir Gajardoni, blog Paulo Moreira Leite

A prova que faltava?

O blogue tem a alegria de oferecer a nossos amigos e comentaristas um artigo de Almyr Gajardoni sobre o documentário “Cidadão Boilesen.” Um dos mestres do nosso jornalismo político, Almyr Gajardoni foi editor de política da VEJA nos anos duros do regime militar e acompanhou de perto muitos episódios do período. Seu texto:

“Cidadão Boilesen é um documentário longa metragem, em exibição na Reserva Cultural, Avenida Paulista, que chegou ao público já com uma invejável quantidade de prêmios. Contém uma incansável pesquisa de documentos e uma série de curtos depoimentos sobre um episódio chave da luta armada movida por grupos de esquerda clandestinos contra a ditadura militar, nos anos 1970: a morte do industrial, dinamarquês de nascimento, mas brasileiro por adoção, Henning Albert Boilesen, presidente da Ultragás, um eficiente arrecadador de fundos para os organismos da repressão política em São Paulo, entre os empresários paulistas.

Chaim Litewski passou quinze anos juntando documentos das mais variadas origens: dos próprios órgãos de segurança brasileiros, das embaixadas dos Estados Unidos, da Inglaterra e da Dinamarca, de órgãos como a CIA e o Departamento de Estado americanos. Foi à escola onde Boilesen estudou, na infância, viu suas notas, sempre medianas, recuperou avaliações dos professores, fuçou arquivos em Copenhague. Procurou cerca de duzentas pessoas para serem entrevistadas – sobreviventes da luta armada, delegados de polícia, funcionários do Doi-Codi, ex-OBAN, militares, políticos, empresários, muitos empresários. Um terço nem quis conversa, um terço deu entrevista mas não gravou, um terço falou, gravou e apareceu.

A montagem é realmente sensacional. Todas as entrevistas foram aproveitadas, mas foram picotadas em vários pedaços pequenos, de modo que o filme, quase sempre, é uma vertiginosa alternância de pessoas falando, nem sempre sobre o mesmo assunto. Para as gerações mais novas, talvez seja um pouco difícil de entender, pois há nessas falas referências a muitas coisas, detalhes de acontecimentos que não é possível explicar. Para quem, como eu viveu aqueles dias na condição de editor político da Veja, há uma fascinante coleção de nuances a degustar. Que empresários financiaram os organismos da repressão política violenta, em São Paulo sobretudo, é sabido – mas sempre se falou nisso destacando que seriam “alguns empresários” paulistas. No filme, fica claro que Boilesen, na sua implacável rotina de arrecadação, em que costumava até impor a quantidade de dinheiro a ser oferecida, só fracassou duas vezes: quando abordou Antônio Ermírio de Morais e José Mindlin.

O filho de Boilesen, talvez o que mais vezes aparece na tela, derrama-se em elogios ao pai, tem certeza absoluta de que ele não era nada disso que falam, e faz uma revelação espantosa, se levarmos em conta que, oficialmente, o golpe militar foi deflagrado para acabar com a ameaça comunista e com a corrupção no meio governamental: a Ultragás comprava o gás no exterior, transportava para o Brasil, vendia à vista para a Petrobrás. A Petrobrás internava (sic) esse gás, pois detinha o monopólio desse comércio, a Ultragás voltava a comprá-lo, pagando em 30 dias, e no dia seguinte vendia para os consumidores, à vista. “Você percebeu? Trabalhava com capital de giro negativo. Financiado por quem? Por esse grande banco que é a Petrobrás.”

O empresário Paulo Egydio Martins foi um importante membro do grupo civil-militar que articulou a derrubada do governo João Goulart. Tão importante que foi feito ministro logo no primeiro governo ditatorial, do marechal Castello Branco. Foi também um dos contribuintes para a caixinha de Boilesen. Sua biografia ganhou tons mais suaves a partir de 1974, quando foi escolhido pelo presidente Ernesto Geisel para governar São Paulo, integrando um tripé de governadores de confiança absoluta (os outros dois eram os de Minas Gerais, Aureliano Chaves, e do Rio Grande do Sul, Sinval Guazelli) que o auxiliariam a tocar o programa de abertura política lenta, gradual e segura. O lance decisivo dessa virada aconteceu em São Paulo – a desmontagem daquele sinistro aparelho de repressão montado com o dinheiro arrecadado por Boilesen, logo após as mortes do jornalista Vladmir Herzog e do operário Manuel Fiel Filho. Começou com a demissão do comandante do II Exército e, logo a seguir, do ministro do Exército.

Editamos aqui na Imprensa Oficial do Estado uma revista para ser distribuída numa sessão especial do filme, antes do lançamento, em que haveria um debate sobre ele, e, naturalmente, sobre aquele triste período da vida brasileira. Pedi uma entrevista ao ex-governador, e certo de que seria constrangedor para ele falar sobre o trabalho de arrecadação de fundos, esclareci que queria apenas esclarecimentos sobre aquela abertura lenta e gradual do presidente Geisel. Ele concordou, e mostrou-se disposto a tudo: “Falo sobre qualquer coisa, não tenho restrição nenhuma”. Marcamos a entrevista para a quarta-feira, na véspera a secretária me ligou para dizer que aparecera um imprevisto e teria de ser adiada. Ficou para a quinta-feira – e quando eu estava quase chegando na casa dele, ligou-me a secretária outra vez, para anunciar novo imprevisto. Sexta-feira seria o último dia em que a entrevista seria possível – ela ficou de ligar para marcar a hora. Aguardo até hoje essa ligação.

Não sei o que atrapalhou a entrevista, mas desconfio. Vendo o filme, dá para pensar que Paulo Egydio, que começou golpista e terminou democrata, deve ter tido uma recaída. Na tela ele não tem meias medidas: “Boilesen era um idealista, um homem íntegro.” Talvez não tivesse coragem para botar isso no papel.

Naquela apresentação especial, seguida de debate sobre o episódio, Chaim me informou que está preparando o lançamento do filme em DVD, e nele pretende colocar a maior parte possível dos documentos que não entraram no filme. Garantiu-me que entre eles há papeis do DOPS paulista que confirmam a utilização de veículos de empresas particulares para disfarçar a movimentação dos agentes nas ações repressivas. Uma delas era a Ultragás, de que Boilesen era presidente; outra é a Folha de S.Paulo, que sempre negou ter isso acontecido.

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http://colunas.epoca.globo.com/paulomoreiraleite

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Comentário de Flavio Tavares de Lyra em 5 dezembro 2009 às 14:55
Cabocla: Parabéns pela inclusão do têxto sobre o filme "Cidadão Boilensen". Ajudou-me a decidir ir ver o filme. Tinha dúvidas quanto a sua qualidade. Um abraço

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