O texto a seguir foi encontrado num blog de uma professora de Portugês, é sobre a Folha de São Paulo, e é belíssimo, confira...
Eu tinha 14 anos. O país enfrentava seus primeiros dilemas como jovem democracia: denúncias de corrupção contra o Presidente da República; movimentos sociais nas ruas; a importante Eco92 no Rio. Para elaborar um trabalho de História, pedi que minha mãe comprasse um jornal. Meu primeiro contato com ele foi difícil, a textura, o formato das grandes páginas, o cheiro, tudo parecia, a princípio, difícil, incômodo.
Nada disso impediu, porém, a descoberta de uma nova paixão. Pedi que minha mãe assinasse o jornal e mantive-me fiel ao rito de devorá-lo, com maior ou menor prazer, durante todos estes anos.
Senti-me importante testemunha do trabalho da "primeira ombudsman de um jornal brasileiro", salvo engano Junia Nogueira de Sá. Descobri Otto Lara Resende e, depois, Carlos Heitor Cony. Transportei-me para os dramas imensos de "Meninas da noite", de um outro Dimenstein tão mais humano. Diverti-me com as tiradas tantas vezes repetidas do "Macaco Simão". Deliciei-me com descobertas literárias e intelectuais - na época, desafiadoras para uma menina- no "Mais!". Li, pela primeira vez, um texto de Hobsbawn e uma entrevista de Robert Kurtz. Fiquei sabendo, em um domingo, o que era o tal "Consenso de Washington" e acompanhei, passo a passo, uma série interessante sobre o "Brasil profundo".
Tornei-me fiel leitora e, antes mesmo de conhecer Bakhtin, já sabia portar-me como interlocutora. Sabia reconhecer os humores dos colunistas, reclamava por vezes de certos descuidos ou excessos no uso da linguagem. Sofria com as férias - tão longas - de alguns deles e, diariamente, espiava o jornal à procura de seu retorno como se a saudade de um grande amigo e confidente me tomasse. Com o tempo, arrisquei-me mais, passei a enfrentar as páginas tão temidas de Dinheiro, e pude ler Nassif misturando em sua prosa música e análises financeiras. Ali chorei com Rubem Alves - e com tantos outros de que, infelizmente, não me recordo, na excelente "Sinapse". Compreendi melhor alguns absurdos de nosso demasiado mundo humano com Contardo Calligaris, Anna Verônica Mautner, Jurandir Freire Costa. Até hoje "A fúria de um mundo agonizante" acompanha minhas reflexões.
Talvez a ingenuidade dos 14, 16, 20, 25 ... tenha-me permitido guardar tantas lembranças boas de um tempo que não volta mais. Hoje o que vejo é um jornal esvaziado, do dia para a noite, como há algum tempo denunciou o ex-ombudsman Marcelo Beraba. Noto um Cony amargurado, um Gullar preconceituoso, um Dimenstein ideologicamente repugnante. Meus olhos, saudosos, procuram aquele jornal de outrora, pedem ansiosos pelo retorno daquele cuidado com a palavra e com a profissão. Pouco ou quase nada encontram. Recordo-me de Cecília Meireles: "Em que espelho ficou perdida a minha face?". Interrogo, inquieta, o jornal (insisto na interlocução): "Em que espelho ficou perdida a SUA face?".
Reluto em aceitar a perda. É difícil crescer, é doloroso aceitar que as coisas mudam. Mentira, desrespeito, oportunismo, revisionismo, manipulação têm sido evidentes, não há mais como negar ou contemporizar em nome de uma pseudo "pluralidade". De fato, aquela Folha de outrora se perdeu em algum labirinto, voou na cauda da lembrança daquele tempo. Não há mais como sustentar qualquer respeito a ela, a não ser àquela outra que talvez nem tenha existido. Vencida e constrangida, minha memória hoje faz coro a tantas vozes sensatas. O jornal - assim como tantas lembranças que tenho dele - serão relegados ao local a que hoje pertencem: uma vida que chegou ao fim.

Para quem gostou, devo dizer que é um texto produzido por uma pessoa muito especial, que por acaso é minha filha. Siga o link http://xucurus.blogspot.com/2009/11/cronica-da-vida-que-passa.html. Enjoy it!

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Comentário de MariaDirce Cordeiro em 1 dezembro 2009 às 0:53
Me lembro que meu pai tb assinava e comentava esses escritores citados e os leitores adoravam qdo logo de manhã ja pegava o jornal para Lêr como um ritual.Que pena não é mais o jornal de outrora, muitos escritores ja morreram, e o jornal tb esta agonizando.Mas tua filha fez um belo relato na verdade uma homenagem ao jornal que teve seus dias de gloria,gostei do texto parabéns.

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