CENAS DE UM DESENCONTRO

Ela sente um frio na espinha quando ele a chama no msn. Atencioso, cheio de saudade, como se não se vissem há duas semanas. Ela não faz ideia do que deve dizer. Faz rodeios, evita perguntas esclarecedoras para não se comprometer. A verdade é que não lembra nada da história deles. Nem onde, nem como, nem quando, nem do que aconteceu. Ela tem essa capacidade de se aprofundar na entrega, a ponto de deixar vestígios indeléveis na libido de um homem. Só não lhe peça para recapitular cenas, gestos, ambientes, diálogos. Especialmente se o sujeito não lhe deixou marcas.

Imagina que ele tenha sido mais um de tantos Sérgios, Eduardos, Agnaldos, Amauris, Marcos, Marcelos, Maurícios, Brunos, Ricardos, Gustavos com quem tem se relacionado desde que deixou de amar. Uma lista infindável de homens, carentes e solitários como ela, tentando impressionar a próxima presa com bom papo e carícias calientes. E passando para o próximo da fila, quando a história desanda, o bom humor termina ou o sujeito desaparece.

Ele a reencontrou no Facebook, mas estava sem foto, o que dificultou o
reconhecimento. Passaram para o msn e então, nem com a foto, ela se lembrou dele. Na certa viveram encontros sem maiores conseqüências, jantar, baladinha, alguns beijos e só. Nada marcante; pura diversão inocente. Mas quando ele fala do bar GLS para onde ela o arrastou e das loucuras que fizeram de madrugada, a espinha dela gela outra vez.

De tanto forçar a memória, uma lufada de cenas frescas a invade: a moto, a noite fria, as coxas firmes dele... “ufa...lembrei”, pensa aliviada. Alívio de curta duração, porque assim que se revelam por completo, as cenas trazem a imagem de outro homem: Jeová, o professor de Matemática, nome profético, corpo sarado e sorriso de menino. Esse, sim, inesquecível.

O diálogo se transforma num jogo de adivinhação, em que ela pesca indícios do passado na fala dele para em seguida fisgá-lo com comentários sutis e apropriados. Ele engole as iscas com prazer, pergunta se ela está namorando sério, diz que tem alguém faz dois anos, o que não o impede de querer revê-la – claro, se ela não se importar. Confessa também que jamais esqueceu aquela madrugada em Pinheiros, do olhar guloso dela, da voracidade com que o arrebatou.

Ela se sente mal com a confissão, mal por não poder retribuir o ardor, mal por não conseguir agregar à imagem dele uma única emoção comovente. Só não se sente mal por não confessar o inconfessável: que apenas um escafandrista, como diz a música do Chico, seria capaz de trazer à tona a história deles, soterrada por dezenas de camadas de memórias que se sucederam na vida dela depois que deixaram de se ver.

Seria indelicado, cruel até, chocar o interessado com um banho de realidade. Ninguém gosta de não ser lembrado. Mesmo o homem que a fez deixar de amar sabe disso.

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