Crônica oriental: Às margens do rio Mekong, choramos todos

Publicado no Vermelho

Mekong 


I
Na verdade não se sabe se é um rio ou hálito de montanhas, névoa exalada de arrozais, onde nasceram os búfalos e os nove sóis que ameaçaram queimar toda a terra. Não se sabe.

E não vale a pena perguntar ao pescador, à cana dúctil, à rede certa ou aos barcos que aparentemente o sulcam desde o mistério das origens. Que o silêncio é de água e pouco se extrai do seu ténue rumorejar.

Tementes vírgulas de um só texto, de uma húmida nação, a espraiar-se ciosa pelas terras, a acender florestas e aldeias de um só fôlego, quase um único parágrafo.

Zeloso pai, cuja fúria fértil temporariamente se inflama, desliza brando, açucarado, em morosa benevolência cor de andrajo.

O rio é um texto brando, pontuado aqui e ali de cálida teimosia.

II
Afagam o rio as mesmas mãos glúteas que há milénios amassam o matutino arroz acabado de aquecer. E ali permanecem esquecidas como se o tempo fosse a constante água e o futuro uma promessa sempre por acontecer.

E, nessa medida certeza, as mãos não pertencem ao rapaz acocorado, a rescender a lenha húmida. Nem àquela velha mulher de ombros finos que, um pouco mais adiante, alaga o rio com os olhos alucinados de lama rubra ou flores a descer o Mekong avermelhadas.

Tudo se equilibra e balança.

Fica somente um ponto negro na esfuziante madrugada, enquanto as últimas famílias emergem das casas vagarosas e se sentam na felicidade da partilha.

Só, ao longe, um povo, incessante, chora e eu choro também esta distância, insuperável hiância, o amargo translúcido dos passos, o pé ante pé do viadante, o obscuro templo onde se encerram as palavras.

Derramo, pois, nas margens do Mekong, as lágrimas de um alheio remorso nesta estranha busca de uma utilidade. Flutuam azeitonadas, discretas, ignoradas: as mãos glúteas do rapaz acocorado, os olhos rubros da velha mulher de ombros finos e o próprio rio não as vêem. Fogos-fátuos sobre as águas, em ardente deslizar, até ao grande mar, no Golfo de Tonquim.

III
Todos os rios são uma demanda, uma fértil incursão, incisões de água no corpo inerme da terra. E se no princípio se constata alguma crueldade, cedo a fúria se espanta e o amplexo abranda — Ó! Como ela o sabe receber e ele se molda às suas formas! — e retoma o ritmo de ancestrais e andróginas carícias.
Tudo pode agora dormir em paz.

IV
Lamento da acetinada terra. Que dizia: Salvé agora as esporádicas estrelas, amantes de meu amante, a pontilharem-lhe a pele de feéricas pedrarias onde não alcança o nublado cobertor. Fico quieta, prisioneira do meu imóvel destino, em extática contemplação dos seus folguedos.

Amo-te Mekong exactamente porque não és pardo e baço como eu e em ti se espelha tudo quanto é belo deste ou de outro mundo.

Bem sei que não me deixarás. Conheço desde o primeiro momento o teu carácter frívolo mas também o teu constante percurso e o apego que inevitavelmente me dedicas. Pode alguém invejar as excelsas qualidades de um amante?

V
Na curva do rio murmura uma dúvida.
Só o barco é a medida de todas as coisas ou assim nos ensinou o obscuro Grego de Éfeso e o Chinês que trocou o império por uma gruta, abandonando cinco mil caracteres na fronteira.

“Segue as pegadas do búfalo”, vocifera o velho encarquilhado mas a poeira oculta o invisível.
Na curva do rio murmura uma dúvida.

VI
De que serve ao rio ser gentes e animais, as montanhas febris e as hortas e mesmo um dicionário de temores? De que lhe serve ser serpente e alagar os campos, receber as afogueadas flores e com elas os desejos?

Cai a noite sobre o Mekong e o céu velado furta as formas, os caprichos, os sinais.
Cai a noite sobre o Mekong e sobrevém a dor do ópio de ontem, a saudade de um devir, crismado de palácios e ornado de jasmins.

O que sobra deste rio até a luz de novo colorir os sentidos de joviais imprecisões?

Um rumor, uma presença sombria,
Uma luz que guia, uma passagem,
O trago ávido de uma miragem.

VII
É um imenso tinir, tremor, rumorejar, a reunião que faz de ti “capitão das águas”.

Não lhe basta a espessa permanência: vibra e rutila, rufa tambores nas margens de açafrão, diferentes percussões nas múltiplas densidades da floresta. Vibra e rutila, rufa... vibra e rutila, rufa...

A água vem-te terna e turva, ofegante de carícias minerais. Ou então fazedora de paisagens, caída da montanha fria, a revelar o céu ou quem sobre ela se inclinar.

E sobre o Mekong morre ainda a dedicada chuva — e a humidade envolve o mundo — e há um sabor a regresso no rio à nossa volta.

Um povo estende os gestos como a luz se espreguiça e curvada adormece no seio escuro do Mekong.

Ceifeiro, remador, soldado, o rio te atormentará e à loucura te conduzirá.

“Capitão das águas”...
Major de homens...

VIII
Na outra margem, para lá da perceptível floresta, há abismos escancarados que rescendem ao mundo do princípio. Por lá, tépidos e furtivos, deslizam os tigres lázuli que um Argentino desvendou num cálido espelho e cresce uma flor cuja infusão assegura a vida eterna e protege do bocejo infinito.

Mas aqui, deste lado, um véu de tédio serenamente invoca a extrema e branca morte, como se o meu olhar devolvesse ao mundo a sua original falta de sentido. Tudo pára e tudo se sustém; só um suspiro leve e compassado, só um coração insiste em manter este equilíbrio de inutilidades.

IX
Volto-me para te abraçar
e a rocha recita um rio.

Chamamos-lhe o Mekong, onde naufrágios de poetas felinam na perenidade do azul.

Desliza doce,
a alagar suavemente
a terra num afago de vales
e timidez de florestas.

E, além e aqui, tudo abre e fertiliza.

Tenho, quando te abraço, meu amor,
uma visão do alcoólico Mekong
e da planície rouca das noites por adormecer,
a buscar o consolo das águas.

E vemos, meu amor, como o Mekong acaricia
a terra e no dorso oferecido dos búfalos
teremos a nossa primeira noite.

A incerteza tatuada
na pele lisa das margens,
ou a baloiçar
— dragões —,
fitas de luz a ondular
— oração —,
sobre as águas...

Tenho, quando abraço o rio,
uma visão do teu corpo, meu amor,
que confundo com inconstância e devir.

O caixeiro-viajante que traz
uma mala de medo
pendurada no fim
de seu longo e atrevido braço...

Há silêncio no corredor.


* Esta crônica foi publicada por Carlos Morais José, no Blog Oriente Crónico

Colaboração: Seleinia Granja

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