Outro dia, estava eu debaixo dum enorme flamboyant na Praça Tamandaré, como de costume matinal, lendo o Diário da Manhã, quando de repente, reinou o silêncio na redondeza de todos os bancos próximos àquele em que estava sentado. Olhei para um lado, olhei para outro, depois para frente, abaixei o jornal, e vi que todos os homens que ali estavam a lavar os costumeiros veículos, deitaram suas mangueiras, desligaram suas bombas, calaram suas vozes, e sinalizaram com olhares para o mesmo ponto. Ao perceber matematicamente o cruzamento de todos os olhares ao mesmo lugar, caminhei mansamente também o meu a tal congruência, virando o pescoço até chegar ao objeto em questão. Neste momento, do meu lado esquerdo, alguém soltou levemente a voz, “sabe, há muito tempo que essa dona não passa por aqui, ouvir dizer que agora, se transformou... numa metamorfose como uma borboleta, largou o marido e filhos, e vive agora a bestiar por aí com outros homens... pelo jeito, cansou de ser santa, agora pega o primeiro que encontra na reta, ou quem sabe, nas curvas que a vida dá”. Logo notei, pela aparência, que se tratava de uma bela dona, fisicamente de parar o trânsito, daquelas cuja brasilidade se faz notar aos adjetivos que logo saíram de bocas apetitosas daqueles que por ali estavam. Por alguns instantes, o mundo parou, mas não os olhares lascivos que escorregavam até o ponto de ônibus, por onde depois, a dita cuja sumira ao passar do primeiro coletivo. Creio eu, que por lá também o silêncio pediu passagem, enquanto por aqui, a vida voltou ao normal. Assim, imitando a realidade, fechei o jornal e recobrei da memória por onde havia visto tal cena, em algum texto, em algum livro. Depois de um tempo, me lembrei da leitura de um conto da literatura portuguesa, precisamente do escritor Eça de Queirós, o maior nome do cenário das letras em terras lusitanas do século dezenove, sendo publicado em 1.880. Era o conto No moinho, belíssima narrativa curta cuja temática era embasada na mudança comportamental de uma mulher, que por ora era santa, uma fada, enfermeira, mulher dedicada à família, “uma senhora modelo”, para depois, a partir do afloramento do desejo propiciado pela presença de Adrião, primo do marido, bem como, a partir das leituras de narrativas românticas, modelares ao romantismo, a nossa personagem, Maria da Piedade, se transformou em mulher adúltera, deixando de lado os afazeres domésticos e piedosos, tais como, cuidar da família adoentada e inválida, como eram o esposo e seus três filhos. Poderíamos dizer que se trata de uma narrativa realista, pois o narrador tece uma crítica à estética anterior, no caso, a estética romântica; bem como naturalista, quando percebemos o aspecto hereditário, ao retratar o narrador, características patológicas aos filhos, advindos do pai – era uma família de inválido, “de sangue viciado”. O que sobressai na narrativa, num processo de construção literária, é a simbologia presente em variados signos no texto, a começar pelo próprio título, pois “no moinho”, representa vazão vagarosa e silenciosa da nossa protagonista, que ao longo da narrativa deixa escapar, por intermédio do narrador, do leito de uma grande represa de monotonia e desprazer, um certo desânimo pela vida que levava, “que apesar dos seus cuidados inquietos, acabrunhavam-na”, pedindo passagem no cortar das linhas para um outro norte, que seria ao final, uma transformação, de virgem à mulher adúltera, de “santa à Venus”, tomada pelo afloramento do desejo após o beijo roubado por Adrião à beira do moinho. Poderíamos assim dizer, que Eça toma da realidade uma temática universal, como a que acabamos de notar ao lado do flamboyant, para ficcionar, há mais de cem anos, uma aparência daquilo que a vida nos revela desde quando o homem é homem.

 

Profº. Robson Veiga

 

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