Após meses de um cinza avassalador e tristes lágrimas de chuva que teimavam em gotejar pela cidade, uma linda semana de sol e um tímido e doce insinuar da primavera trouxeram cores às ruas novamente. A noite de sexta-feira estava repleta de vozes e pernas, cabeleiras e mãos, olhos e lábios.
Eu também me senti arrastada pelo desejo deste quase verão.

Dia destes comprei um colar com pedras em tons quentes que iam do branco ao vermelho intenso e vibrante passando por tons róseos e nuances de vermelho e pensei que o desejo é assim, cheio de nuances; mas quando então se perde o desejo? Da minha mesa via casais; um que acariciava a namorada de maneira obscena; outro que passeava ao lado da esposa ereto e altivo; outro que parecia entediado e um que olhava acintosamente outras mulheres sob a vista turva de mágoas da noiva. Aparentemente o desejo se perde quando inteiramente saciado. É, porque quando conhecemos alguém, bebemo-lhes as palavras e colhemo-lhes os olhares e são mãos por todo o corpo e línguas que se encontram e o calor de uma outra pele cujo cheiro inebria. E são tantos segredos a desvendar, são curvas e fendas e saliências; uma vida inteira por descobrir. Um dia exauridos e esgotados, pés e mãos entrelaçados damos de desejar além do corpo e querer descobrir o pensamento por trás do desejo e de ouvir as batidas do coração por trás do pensamento. E quando pensamos ter ouvido tudo e sem mais surpresas, o pertencimento aniquila o desejo e então desejamos mais; outros mundos a descobrir e outras bocas a lamber e pressionar outros corpos e não pertencer senão ao próprio desejo.Seria simples se não fosse o amor, este enlace único de almas e pensamentos e batimentos compassados que somente uma grande afinidade, respeito e carinho nos dão. Sem eles a vida é puro desejo e lá em uma de suas nuances de vermelho ele nos abre as coxas e um novo caminho com violência. A maior parte dos casais é triste, não se contenta com o universo que lhes é estendido em duas mãos; precisa de mais. Quem se une pelo desejo, invariavelmente se afasta pelo desejo. Desejar para alguns é o desejo. Ele, o desejo, pode nos escorrer por entre as pernas e assim, como a espuma do mar desaparecer em breves instantes e quando nos foge pela areia úmida só mesmo o calor da ternura nos aquece e sustenta. Assim, mordiscando o meu sushi pensei na noiva magoada pelos olhos famintos do noivo e descobri que entre ambos não acabara somente o desejo. A ternura fora-lhes arrancada pelas mágoas cotidianas talvez. Ou pode ter sido somente o desejo que cansado e sózinho resolveu ir embora. Não sei. A noite caíra mais profunda e breve em tons róseos a madrugada se anunciaria enquanto as flores que desabrocham lentamente exalam desejo.

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Comentário de Ivone Prates em 18 setembro 2011 às 19:51

Fiquei mais atenta ao seu texto porque "desejo" é algo que me intriga ao querer interpretá-lo. E você o colocou interessantemente por estar como observadora. 

         Sempre gosto de ler o que você escreve e gosto. 

 "Amor e desejo são coisas diferentes. Nem tudo o que se ama se deseja e nem tudo o que se deseja se ama". M . Cervantes


                    Abraços

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