O passeio que o autor faz pela Filosofia, na sua incansável busca por elementos que sustentem a hipótese de uma resposta para a pergunta obsedante de Santo Agostinho: eminência parda que, com sua sombra
instigante, vai cobrindo os caminhos percorridos pelo autor, é
deslumbrante. Ao contrário do que poder-se-ia imaginar, a sombra não
atrapalha, mas refresca a mente do leitor que vai acompanhando as
reviravoltas do raciocínio engenhoso do autor: praticamente um Pierre Menard
da Filosofia (no sentido do impulso criativo e imaginativo da
personagem borgeana). A articulação com a Literatura marca presença
neste extenso percurso filosófico.

O passeio a que me refiro, faz pensar na possibilidade de um sujeito ver-se na iminência de dar a vida por alguém, abdicar de um bem para permitir que o outro usufrua desse
mesmo bem que é viver. Isso é, de fato, muito louvável, muito da
essência afetiva humana no sentido do oposto ao espírito de
sobrevivência biológica de cada indivíduo. Abrir mão de alguém –
metaforicamente esta situação pode ser lida como uma representação de
morte –, abdicar do desejo e do direito de morrer (mesmo que numa vida
não digna) para permitir que outro tenha um sentido de vida para quem a
sua presença é uma inspiração, é igualmente louvável e cheio de certo
espírito altruísta de doação e de generosidade. Morrer por uma causa,
para fazer valer uma ideia que traga repercussões no bem estar da
comunidade, modificações benéficas a uma sociedade, melhorias na
qualidade de vida dos que habitam um espaço culturalmente determinado, é
de um altruísmo sedutor e generoso. Esta é uma das lições mais
gratificantes que a leitura do livro de Rogério oferece!

Em qualquer das situações, a liberdade é o núcleo. Liberdade que se tem quando vivo em se decidir sobre o fim dessa vida, direito de livre
arbítrio que a todos é (ou devia ser) inerente. Liberdade que não possui
aquele que está condenado à morte, que não tem opção, seja por doença,
acidente, ou por determinação macabramente deliberada pelo juízo doutros
humanos que de forma maníaca se autodenominam de deuses, como se um
julgamento fosse uma convocatória para o Olimpo.

Quem são os deuses que definem os critérios para determinar o que é digno ou não? Que critérios são esses: estar em sofrimento e dependente total não é
indigno, mas ter de viver torna alguém digno? Questões que avaliam as
instituições legais.

Por duas vezes, mencionei de passagem uma possibilidade de articulação em níveis diversos, com a Literatura. Pois bem, isso eu sinto e afirmo porque percebo na “estruturação” do livro –
como “obra”, não como cartapácio de papel organizado em capítulos com
mancha gráfica milimetricamente definida – um desenho, um movimento, uma
certa musicalidade estrutural que me faz lembrar a Divina comédia.
Isso porque os capítulos, tal como os círculos – purgatório, céu e
inferno – se subdividem em fossos, campos, montes e quejandos, para
alçar o topo, o centro, o cerne da ideia que dá título ao livro. Além
disso, a linguagem do texto, a dicção do autor, fazem com que a leitura
flua como poesia, e aqui eu me lembro de Borges, numa de suas
conferências coletadas sob o título de “Siete noches”, em que afirma e
reafirma que a língua, qualquer que seja, em si mesmo, é poesia. Isso,
em minha opinião, se faz suficiente para o recurso de aproximação com a
Literatura, na espessura do discurso que o texto de Rogério desenvolve. É
ele mesmo quem abre esta possibilidade para cada leitor que se aproxima
e, gentil e seduzidamente, se deixa levar pelo ritmo da frase que
volteia o pensamento do autor que não está só, mas muito bem
acompanhado.

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