Etanol é alternativa à energia doméstica

DAYANA AQUINO
Da Redação - ADV


Alguns dos locais mais pobres do planeta estão fazendo um uso diferente do etanol: combustível para fogões domésticos. A iniciativa poderia ser considerada um passo à frente do consumo doméstico de energia, com vistas a um futuro sem combustíveis fósseis. Mas em alguns locais, além de não terem outra forma de energia, essa substituição se tornou caso de saúde.

Dados do PNUD apontam que uma pessoa morre a cada 20 segundos em países em desenvolvimento, em decorrência de doenças causadas pela exposição à fumaça de fogões rudimentares. O dado está em documento do PNUD e da OMS “A situação do acesso à energia nos países em desenvolvimento”.

O projeto Gaia fomenta o uso de fogão a etanol, chamado Clean Cook, em regiões pobres da África desde 2003. O continente é o que registra o maior número de mortes por conta da fumaça do carvão e outras biomassas. De acordo com a coordenadora do projeto Gaia no Brasil, Regina Couto, na Etiópia, Clean Cook funciona a base de etanol importado. São cerca de 3.500 famílias em campos de refugiados que utilizam o método, que está ameaçado pela ausência do produto.

Segundo Couto, será instalado um projeto piloto de uma microdestilaria na região. Em ambos os locais as iniciativas recebem apoio financeiro do PNUD e do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.

Já na Nigéria, por haver disponibilidade de petróleo, mas não de etanol, os fogões utilizam metanol. A população recebe um recipiente e efetua a recarga nos pontos de abastecimento, semelhante aos botijões de GLP no Brasil.

Prospecções também apresentam a possibilidade de uso em outros países, como no Haiti e Colômbia. Neste último, o fogão também seria semelhante ao da recarga, já que na capital há cerca de 30 mil vendedores ambulantes de botijão de GLP. O etanol seria uma alternativa mais barata e segura, de acordo com a coordenadora.

O Fogão Clean Cook é comercializado na Europa e América do Norte há mais de 30 anos e foi redesenhado para ser produzido em larga escala e a baixo custo.

Brasil

Embora a realidade brasileira seja diferente, ainda existem comunidades que fazem uso de madeira para cozinhar alimentos, principalmente por ser gratuito, e que são foco da mesma preocupação. Mas aqui, o caso pode não ser apenas de saúde, e pode tomar escala comercial para indústria e uso doméstico no futuro, por conta da oferta de etanol e competitividade na produção do energético.

No Brasil, os testes do projeto já foram feitos em três comunidades de Minas, cada uma com perfil totalmente diferente. A comunidade de Salinas, no Vale do Jequitinhonha, norte do estado; um assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Bertin; e em Urucânia, na periferia de Belo Horizonte, de acordo com Couto.

Os três públicos distintos, que fizeram uso do Clean Cook, aprovaram o uso do equipamento, conforme dados do relatório do projeto. Entre os fatores positivos apontados estão; a segurança, rapidez, alternativa aos demais combustíveis (carvão, madeira e gás) e, a possibilidade de comunidades afastadas e sem acesso aos combustíveis fósseis, implementarem microdestilarias em caráter comunitário.

De acordo com Couto, esse é um dos principais objetivos do projeto no momento, identificar e mapear as áreas mais afastadas com carência de energia, verificando a viabilidade técnica, ambiental e econômica de instalar a microdestilaria, pois por se tratar de um projeto social e o etanol produzido não pode ser comercializado. A prioridade do lucro deverá ser a principal barreira para a possível expansão do projeto após ser confirmada a sua viabilidade.

O projeto

Iniciado nos Estados Unidos, o projeto chegou ao Brasil em 2005 por meio de uma parceria com a Winrock International, Shell Foundation e o Banco do Povo. Os testes no Brasil foram feitos com famílias de classe muito baixa, considerando o etanol como uma alternativa aos combustíveis existentes. Foi verificado que as comunidades mais afastadas também poderiam se beneficiar do projeto.

No entanto, apesar da grande disponibilidade de etanol, o projeto também fica sujeito às oscilações do preço do produto no mercado. Por conta dessa dicotomia, somada a inflexibilidade energética em algumas áreas, o Gaia também vem estudando a instalação de pequenas destilarias nessas comunidades, o que poderia ser custeado por programas, órgãos de fomento ou doações de empresas.

Nos últimos anos, a tecnologia das microdestilarias evoluiu muito, sendo comparada às grandes usinas. Esse fator carece de maturação, segundo a coordenadora do projeto, pois algumas regiões afastadas têm características diferentes.

Por conta do preço, algumas famílias contempladas com o fogão acabaram substituindo o seu uso por lenha. Isso aponta um outro elemento que pode incentivar o projeto; a preservação da natureza. Além do ganho ambiental, reduzindo a fumaça dos fogões a lenha no interior das residências, também há contribuição com a saúde pública, segundo a coordenadora.

As 87 famílias atendidas foram monitoradas durante seis meses pelo projeto Gaia. Dados do relatório apontam que 94% das famílias possuíam fogão a gás e 80%, fogão a lenha. O uso combinado dos dois tipos chegava a 81%. Cerca de 60% das famílias coletavam lenha.

De acordo com Couto, além do público de baixa renda, há um grande interesse do setor de lazer e entretenimento, como camping, embarcações e áreas de lazer, e, também para pequenos espaços, como escritórios e consultórios médicos.

Sobre uma escassez de gás natural no longo prazo e uma possível abertura para o etanol ser protagonista neste ramo, não há projeções ou cenários da entrada do etanol no uso doméstico, segundo Couto. No entanto, ela avalia que o uso do fogão em locais urbanos e famílias da classe média é possível e viável.

Atualmente, o Projeto Gaia está firmando uma parceria com uma empresa mineira para fabricação e comercialização do fogão no Brasil, visto o alto custo para importação do mesmo. A previsão é que o produto já esteja à venda no primeiro semestre de 2010. Couto não pode precisar o nome da empresa, pois o contrato ainda não foi assinado, mas adiantou que a iniciativa envolverá pesquisa de material, design e custo para ampliar o uso do fogão às diferentes classes sociais.

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