Meu amigo, eu sou do tempo ...
Eu sou do tempo é boa....
Essa em geral é uma frase que sempre nos lembra alguma reclamação a fazer, alguma "verdade" que tínhamos e que não existe mais, alguma melancolia ou ressentimento...
Hoje amigo, eu usaria para me orgulhar:
Sou do tempo em que a juventude - e não só ela - ouvia Raul Seixas e o mundo parecia incrivelmente menos careta, mais poético, mais solidário...

Sou do tempo também de grandes shows na praia do Gonzaga, Santos, onde morei desde que nasci até abandonar suas praias para vir estudar pelas plagas de Sampa....
Shows gratuitos, com artistas consagrados, orquestras...
Elba Ramalho, Ney MatoGrosso, Caetano, Zé Ramalho ...

O que meus pais achavam de eu ir?
Ir a shows na praia era bastante usual, então podia ser de rock à música clássica, meus pais não se importavam.
Claro, também a gente não voltava para casa contando EXATAMENTE o clima "Woodstock" que rolava, então ficava tudo bem...
(Nenhuma novidade, vamos combinar - provavelmente como eles agiram com os pais(deles) e como nossos filhos agem conosco...)
Além do mais, Raul tinha uma legião de fãs em casa. Eu, meus dois irmãos e....meu pai.
Meu pai me apresentou ao Rock e o rock me apresentou Raul, foi natural.

Raul, era meu compositor preferido.
(perdeu para Chico só anos depois...)
Eu tinha então - no show de 1982, na praia- 17 anos e o que me encantava não eram apreciações musicais sofisticadas de sua poesia ou soluções harmônicas.
E nem hoje seria capaz de fazê-las.
Por piegas que pareça a frase, o fato é que Raul se ouve melhor com o espírito, o "ouvido" interno, não com a orelha. Como se fosse um mantra.
O que me encantava - e ainda encanta -era aquela presença magra e mágica, aquela postura coerente com a incoerência, aquela coragem, sua iluminação...
As letras geniais, depoimentos, frases, as idéias..
As palavras têm uma força incrível e Raul sabia disso..

Não me peça para lembrar detalhes do show em si.
Com essa idade eu não tinha a dimensão do que estava tendo oportunidade de viver.
Eu era uma fã embriagada pelo artista - que, ok, estava embriagado por algo mais que o show...
O mundo ficou pior sem ele, mas é incrivelmente melhor que ele tenha passado por aqui.
Em casa já são 3 gerações que se encantam com o maluco beleza.
É bem legal ver meus filhos de 15 e 13 anos cantando suas músicas, achando "tudo isso um saco..."
Eles se encantaram com ele quando há 2 anos me ajudaram a recolher toda as músicas que estão na net (com MEUS entendimentos informáticos seria impossível...).
Raul gostaria disso: transcedental, transgeracional.
Um patrimônio brazuca.

Uma das minha preferidas - não achei com imagens melhores...
https://www.youtube.com/watch?v=CHzbLSGKQS4&NR=1

Um beijo para ti

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Comentário de Liu Sai Yam em 22 agosto 2009 às 17:23
Você já tava lá?!
Bateu mais ou menos com uma época em que tudo se politizou sob a batuta do partidão e malucos beleza foram escanteados pela MPB, que Walnice Nogueira denomina MMPB (adicionando o qualificativo "moderna", antes de "mùsica").
Tempos de refinamento estético e protesto político em que as atenções todas se voltaram a Chico, Caetano, Gil, Edu Lobo, Elis, Tom, Toquinho e Vinícius, Baden.
Tempo que um porralouca que cantava Elvis e Bill Crudup, e ia encher o saco de medalhões, apertando a campainha do apê de Joh Lennon pra convidá-lo a participar da maluquíssima Sociedade Alternativa.
Se há uma definição inquestinavel de "outsider", era o Raul franzino, bebum, viciado e iconoclasta, com seu roquezinho antigo que não assustava ditaduras e estalinistas.
Mas não assustava, hein?
Raul e seu baú foram confinados no espaço da Galeria Grande Avenida, São João dando saída pra 24 de Maio, onde imperou de forma popular e democrática na verdadeira acepção do termo.
Office-boys, manos da periferia, molecada de Perdizes, roqueiros de toda a cidade, caçadores de relíquias e chinas desgarrados, iam todos nas lojas daquela galeria do rock, que na época mereceria ser rebatizada Galeria Raul Seixas.
Rolava de samba-rock a rock-progressivo, que aos poucos foram tomando feições de heavy-metal, hard rock, metal puro. Tudo começou com Raul.
Raul e Tim Maia, fenomenais exemplares da criação movido a porres e baratos afins, únicos laços a igualar Cidade Jardim e Jardim Ângela.
Raul numa casa na Lapa, não lembro o nome, na rua Clélia ou Aurélia (Olímpia?).
Tim Maia numa casa em Pinheiros.
Mauricinhos pulando dentro e flanelinhas dançando na calçada. É ver (e ouvir) pra crer.
Me lembro do episódio sobre Raul no interior. Acharam que não era ele, foi preso e espancado. Até nisso foi metamorfose, dessa vez trágica. Saiu no caderno policial.
Estava completamente "encostado", marginalizado, posto na geladeira.
Hoje celebram Raul, a mesma mídia que tentou enterrá-lo antes do tempo.
Hoje morrem de peninha do Simonal... tão injustiçado.
É Raul, sim. Tomada com plugue!!!
Comentário de Liu Sai Yam em 22 agosto 2009 às 17:26
Viu a dedicatória?
Tava arrumando pra cabeça, hahahá!!!
Comentário de Cabocla em 22 agosto 2009 às 19:20
Esse show em Santos é de 82, Liu, tava e tinha 16/17anos..
Quando raul foi colocado para fora do país em 74 não, estava de bonecas... :)
Comentário de Cabocla em 22 agosto 2009 às 19:22
tomada com tomada não dá nada...
hahahahaha
tomada com plugue...
homenagem ao não contato das coisas....

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