Pedro Martinelli


Publicado em www.vivababel.blogspot.com


Estava vendo pela tevê alguma coisa da festa do boi de Parintins (AM) e tive a impressão de assistir a uma Marquês de Sapucaí amazônica, pero no mucho.
Tudo muda, e fica muito esquisito, com a embalagem para turismo.

Daí li no blog do Pedrão Martinelli (http://www.pedromartinelli.com.br/blog) -grande repórter fotográfico que há mais de 30 anos esquadrinha e defende a Amazônia, desde os indios gigantes na década de 1970, e está lá na festa - o comentário que explica o que eu estava intuindo.


"A festa simples dos caboclos que chegavam nas suas embarcações para assistir o seu boi de uma arquibacada de madeira não existe mais. Os artistas regionais faziam fantasias e alegorias com materiais recicláveis da terra. A animação dos bichos era feita com varas de bambu, forquilias e alavancas que hoje deram lugar a uma parafernália de ferro, motores movidos a eletrecidade que são gerados por uma termoéletrica que ocupa um quarteirão na cidade de Parintins, para dar movimento a figuras nunca imaginadas pelos pajés mais loucos da Amazônia. Os carnavelescos do Rio e São Paulo aproveitaram estas idéias simples e de baixo custo dos caboclos que foram ensinar a técnica e voltaram deslumbrados com o conforto do maquinário moderno.
Esta certo, ninguém é bobo, conforto é muito bom.
Acontece que o caboclo e suas lendas que originaram a festa estão cada vez mais distantes do que se apresenta hoje na arena.
“Pai que bicho é esse?” perguntou o menino para o pai que estava do lado de fora do bumbódromo vendo a entrada dos carros alegóricos. O pai ficou mudo. A cara do bicho era uma mistura de Homem Aranha num corpo de jacaré com garras de unhas retorcidas, aliás todos os monstros tem unhas que fazem lembrar as do Zé do Caixão.
Dentro do bumbódromo é uma ginástica tentar assistir a apresentação sem alguma interferência no primeiro plano. Fotografar então, um martírio. São operadores de TV que querem entrar com suas câmeras dentro do vestido da sinházinha, gruas que cruzam o espaço sem parar. Balões e banners dos patrocinadores fluturam por todo o recinto. O boi Garantido tinha dezenas de pessoas para orientar o traçado simples dos “cavalinhos dos parques de diversão”, tinha tanta gente dentro da pista que atrapalhava a evolução do próprio boi.
Este ano o público caiu bastante. Dizem que foram as águas grandes do rio Amazonas que atrapalharam, mas acho que não. Já tem muita gente enjoada com a pegada comercial desta festa popular. A festa não é mais dos caboclos."

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Comentário de joao carlos pompeu em 2 julho 2009 às 15:38
esse enredo é conhecido de outros carnavais...
é uma outra festa popular desmembrada das origens caboclas, religiosas, folclóricas.
o evento é enquadrado e cooptado pelo trio mercado-consumo-audiência.
como tudo que se mexe no mundo pós-moderno é uma outra festa devotada ao deus-mercado e seu leitmotiv dos últimos tempos, o consumismo.
tudo é feito para ser gananciosamente, cobiçadamente, instantaneamente (in)saciado pelos sentidos, desejos, prazeres possessivos da cultura agorista ou apressada a exigir mais e mais coisas e mais e mais necessidades no menor tempo possível do "aqui e agora" que transforma tudo em novas mercadorias que geram novos desejos e novas necessidades e por fim a espetacular indústria física e cultural da remoção do lixo que isso tudo provoca.
entre a idéia original de festa religiosa-tradição cabocla e sua manifestação pública insinua-se o poderoso leviatã mercado e seus corretores-empresários-publicitários que a tudo transformam, como um midas, em oportunidade para ser devorado, consumido, descartado à taxas exponenciais de usufruto e preenchimento por novas demandas consumistas nunca saciadas na indução do desejo e da felicidade à vista e a prazo...
a contrapartida disso tudo é a miséria do terceiro setor e dos movimentos-ongs de valores cooptados e corrompidos a ilustrar e avalizar as boas intenções do diabo que disso tudo resulta emprego, empreendedorismo, cidadania, educação nos barracões e na cadeia produtiva de tais eventos mais para "bois de piranha" e todo esse blá-blá-blá político a mistificar a opinião pública.
Comentário de elizabeth em 2 julho 2009 às 19:51
Pompeu, explicou tudo direitinho e assino embaixo.

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