Ainda bem que tenho você, companheiro computador. Pensei em lhe arranjar um nome, para que nossa relação ganhasse mais calor humano, mais intimidade. Mas, desisti da idéia porque fiquei com medo de que, de repente, você se abancasse e “entrasse numas” de se sentir humano. Poderia até chegar ao absurdo de querer sentir, raciocinar, emitir opiniões, etc!
Daí pensei: “isso não vai prestar”! Você se tornaria menos confiável, passível de falhas lógicas, imperfeito, misterioso, imprevisível, desconhecido, surpreendente, decepcionante, sentimentalmente instável, eventualmente desequilibrado e com humor variável.
Você poderia até desenvolver um sentimento de rejeição por mim. Poderia criar um vírus para me combater, para não me deixar escrever, para me impedir de escrever o que eu quero. Poderia até se transformar num censor implacável transformando meus textos em discursos medíocres. Poderia por exemplo impedir a digitação de gírias, palavrões, opiniões políticas, religiosas, expressões racistas, etc... Já pensou que maçada?
Prefiro você como é: “um gigolô das palavras”, tal como Luís Fernando Veríssimo.
Admiro sua humildade. Você recebe todas as palavras igualmente bem e não as deleta automaticamente; apenas coloca um tracinho embaixo delas para indicar que algo está errado. Mas fica só nisso. Não as junta, censura e deleta. Se depender de você, aproveita todas!
Para você, o importante é se comunicar. É usar as palavras para estar em ação. Quando se enche delas, o que faz? Pede que o descarreguem, que o deletem todo, que formatem seu disco rígido para que possa voltar a sua potência total.
Quem dera o ser humano pudesse ser formatado como você! Quando tudo saísse errado, quando monstros fossem criados, quando fantasmas perambulassem pela mente humana como vírus incansáveis, restaria ao homem formatar-se e começar tudo do zero novamente. Quem dera pudéssemos retornar à sua velha, pura e boa lógica binária!
Prefiro sua burrice total. Na verdade, uma vez que você não raciocina, você é amoral, e isso é muito bom! Engole tudo “numa boa” sem retrucar.
Você é melhor que padre, pastor, psicólogo, terapeuta ou psiquiatra. Para você, dois mais dois são sempre quatro.


ESTE TEXTO ENCONTRA-SE PUBLICADO NO LIVRO
"FILHOS DAS ESTRELAS" DE
RITA VELOSA
PEDIDOS PELO E-MAIL
ritavelosa@bol.com.br

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