Lula e a autonomia nacional na globalização

Um dos sucessos inegáveis da Presidência de Luis Inácio Lula da Silva tem sido relativizar a crença, renitente desde fins dos anos 80, de que a inserção do Brasil numa economia globalizada implicaria necessariamente no fim – ou na diminuição drástica – da capacidade do Estado de investir e intervir de forma efetiva nas políticas públicas.

Atualmente, a afirmação de tal capacidade talvez soe para o leitor algo óbvia, mas parte dessa impressão talvez deva ser creditada justamente à mudança – sutil, quase imperceptível tanto para uma mídia que atua como partido político quanto para uma academia dividida por preconceitos ideológicos e de classe - operada pelo atual governo. Pois um denominador comum aos oito anos da Presidência de Fernando Henrique Cardoso foi justamente a insistência na crença de que o Estado, nesse novo contexto mundial, estava de mãos amarradas, que a margem de manobra dos Executivos nacionais era quase nula face ao poderio de uma economia que se move veloz e incontrolavelmente em fluxos globais.

No final do governo FHC, escrevi num texto acadêmico que a forma como vinha sendo processado o ingresso do Brasil numa economia globalizada – como economia periférica a reboque dos humores do grande capital internacional e das “agências de risco” que ele próprio forjara – equivaleria a lançá-lo num pequeno barquinho, sem vela nem motor, em alto mar. Havia no texto, além da pobreza metafórica e da intenção de, através dela, criticar a falta de rumo e a enorme chance de desastre (confirmada a cada crise econômica em outras economias periféricas, como a turca, a russa e a dos “tigres asiáticos), a afirmação latente da possibilidade de, mesmo em tal contexto e sob suas intempéries, reassumir o leme.

Ao retirar da pobreza quase 40 milhões de pessoas (11.250.623 famílias, segundo dados oficiais) e redesenhar o eixo da política externa brasileira, entre outras medidas, o governo Lula prova que tal operação é possível e que a globalização não necessariamente significa, às economias não-centrais, tão-somente submissão e renúncia. Essa conquista não deixou de ser, no entanto, eivada de contradições, mesmo porque a aderência do atual governo a alguns dos mantras neoliberais – como a independência do Banco Central e a manutenção de índices considerados satisfatórios de superávit primário – está no cerne do processo que tem garantido à administração federal alguma margem de manobra.

Mas não é, ainda, o momento de pôr na balança os méritos e defeitos do governo Lula. Deve-se levar em conta, no entanto, que a despeito de os oráculos econômicos privilegiados pela mídia nativa continuarem negando, economistas internacionalmente reconhecidos – como o espanhol Ricardo Lago, Paulo Nogueira Batista Júnior, e Juan Carlos Felix – atestam que a crise mundial não apenas atingiu o Brasil com atraso, mas o fez de forma muito menos intensa e duradoura do que na maioria das outras economias nacionais – mais uma evidência da retomada vigorosa da capacidade de administração do Estado brasileiro.

Some-se a esses fatos a evidência de que a crise econômica mundial vai certamente – como as medidas inciais tomadas pór EUA e União Européia indicam – restringir ainda mais a autonomia dos grandes capitais voláteis que, sob a desregulamentação então reinante, arrasaram mais de uma vez economias nacionais. Trata-se de mais um fator a exigir uma reflexão mais cuidadosa, mais humanitária e menos fatalista sobre o alegado fim dos Estados nacionais.

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