É incrível como a doçura morna de verão pode durar pouco e tudo é concreto e cinza novamente. Esta noite pensando na finitude de todos nós e, especialmente em porquê algumas pessoas atravessam a vida como protagonistas e a outras incumbe o papel de coadjuvantes daquela espécie que jamais serão lembrados após a premiére...pensando na vida, me deparei na troca de canais que acompanha a insônia e as inquietudes da alma,com Chaplin nas cenas finais de Luzes da Ribalta.
Enquanto Thereza dançava, Calvero saia de cena junto com um amor dolorosamente limitado pelo tempo, este diretor de elenco implacável que elege protagonistas e coadjuvantes, o mesmo que nos põe e retira de cena no palco da vida.
Somos intérpretes permanentes de um filme delirante e nunca sabemos qual será la derniére...
Calvero e Thereza superam uma tentativa de suícidio, o alcoolismo, a miséria e a decadência. O amor os devolve para os palcos, para as luzes da ribalta e Calvero sai de cena assim que Thereza entra; ele exala o último suave suspiro enquanto a saia de tule dela gira suavemente no palco. O tempo...sempre o tempo...Teremos muito ou pouco tempo em cena ? Nunca saberemos qual o último descer da cortina. Alternamos nossas passagens em cena e muitas vezes tentamos antecipar os finais renunciando a um amor, a um filho, a um projeto ambicioso, porque julgamos não ter chegado ainda o tempo ou já ter passado o tempo. Calvero renunciou ao amor de Thereza; temia o tempo. E a cena final chegou de uma forma ou de outra; ele fez sua última cena, Thereza seguiu dançando. As luzes da ribalta nunca se apagam e à medida em que envelhecemos vamos cedendo espaço a novos protagonistas e coadjuvantes e novas comédias e tragédias se desenham todo o dia aos olhos de uma platéia expectante. Com risos ou lágrimas deixamos a vida e ainda supomos que podemos antecipar este dia. Ninguém pode; mas o espetáculo depende sempre da nossa ousadia e daquele momento mágico em que ao acender das luzes pisamos no palco da vida dispostos a maquilar o rosto com pesadas cores de palhaço ou calçar as sapatilhas e pisar no giz como se fosse nossa melhor apresentação. No instante mesmo em que emprestamos um coração que bate acelerado e um universo de emoções à fantasia. Somos nossas fantasias no cheiro ocre do palco, entre tutus, laços , pó de giz e maquilagens... E a vida um desatino que exibimos vaidosos sob luzes inebriantes da ribalta. Um dia as luzes se apagam e para nós não voltam a acender. E enquanto podemos atuar nos resta apenas interpretar o papel principal ou coadjuvar; ou ainda assistir o espetáculo dos outros. O amor é sempre tão forte contra tudo e tão delicado quando olha a si mesmo. Calvero deveria ter casado com Thereza e o final seria o mesmo, mas só o final; antes dele o palco seria inteiro do palhaço e da baliarina. Gosto não de finais, mas de espetáculos felizes. O filme, se mudasse não seria tão belo...a beleza da vida é ser o que é, limitada, equívoca e doce, mornamente triste. O resto é fantasia ou não seria?

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