Manifesto do reverendo Sandro Cerveira, da Igreja Evangélica Presbiteriana de BH

Bravo, Rev. Cerveira! Bravo!

Ivan




CartaCapital, 06/10/2010

Eleições 2010 e os aproveitadores da boa fé da crueldade evangélica

Por Rev. Sandro Amadeu Cerveira*



Talvez eu tenha falhado como pastor nestas eleições. Digo isso porque estou com a impressão de ter feito pouco para desconstruir ou no pelo menos problematizar a onda de boataria e os posicionamentos “ungidos” de
alguns caciques evangélicos
.


Talvez o mais grotesco tenham sido os emails e “vídeos” afirmando que votar em Dilma e no PT seria o mesmo que apoiar uma conspiração que mataria Dilma (por meios sobrenaturais) assim que fosse eleita e logo a
seguir implantaria no Brasil uma ditadura comunista-luciferiana pelas
mãos do filho de Michel Temer
. Em outras o próprio Temer seria o
satanista mor.
Confesso que não respondi publicamente esse tipo de
mensagem por acreditar que tamanha absurdo seria rejeitada pelo bom
senso de meus irmãos evangélicos. Para além da “viagem” do conteúdo a
absoluta falta de fontes e provas para estas “notícias” deveria ter
levado (acreditei) as pessoas de boa fé a pelo menos desconfiar destas
graves acusações infundadas.




Como se não bastasse, Marina foi também acusada pelo pastor Silas Malafaia de ser “dissimulada”, “pior do que o ímpio” e defender, (segundo ele), um plebiscito sobre o aborto. Surpreende como um líder da
inteligência de Malafaia declare seu apoio a Marina em um dia, mude de
voto três dias depois e a apenas 6 dias das eleições desconheça as
proposições de sua irmã na fé.




O mais surpreendentemente, porém foi o absoluto silêncio quanto ao candidato José Serra. O candidato tucano foi curiosamente poupado. Somente a campanha adversária lembrou que foi ele, Serra a trazer o
aborto para dentro do Sistema Único de Saúde (SUS)
.
Enquanto ministro da saúde o candidato do PSDB assinou em 1998 a norma
técnica do SUS ordenando regras para fazer abortos previstos em lei, até
o 5º mês de gravidez
. Fiquei intrigado que nenhum colega pastor absolutamente contra o aborto tenha se dignado a me avisar desta “barbaridade”.


Também foi de estranhar que nenhum pastor preocupado com a legalização das drogas tenha disparado uma enxurrada de-mails alertando os evangélicos de que o presidente de honra do PSDB, e ex-presidente da
República Fernando Henrique Cardoso defenda a descriminalização da posse
de maconha para o consumo pessoal
.


Por fim nem Malafaia, nem os boateiros de plantão tiveram interesse em dar visibilidade à notícia veiculada pelo jornal a Folha de S. Paulo (Edição eletrônica de 21/06/10) nos alertando para o fato de que “O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, afirmou nesta segunda-feira
ser a favor da união civil e da adoção de crianças por casais
homossexuais.


Depois de tudo isso é razoável desconfiar que o problema não esteja realmente na posição que os candidatos tenham sobre o aborto, união civil e adoção de crianças por homossexuais ou ainda a descriminalização
da maconha. Se o problema fosse realmente o comprometimento dos
candidatos e seus partidos com as questões acima os líderes evangélicos
que abominam estas propostas não teriam alternativa.


A única postura coerente seria então pregar o voto nulo, branco ou ainda a ausência justificada. Se tivessem realmente a coragem que aparentam em suas bravatas televisivas deveriam convocar um boicote às
eleições.
Um gigantesco protesto a-partidário denunciando o fato de que
nenhum dos candidatos com chances de ser eleitos tenha realmente se
comprometido de forma clara e inequívoca com os valores evangélicos.
Fazer uma denúncia seletiva de quem está comprometido com a “iniquidade”
é, no mínimo, desonesto.


Falar mal de candidato A e beneficiar B por tabela (sendo que B está igualmente comprometido com os mesmo “problemas”) é muito fácil. Difícil é se arriscar num ato conseqüente de desobediência civil como fez
Luther King quando entendeu que as leis de seu país eram iníquas.


Termino dizendo que não deixarei de votar nestas eleições.


Não o farei por ter alguma esperança de que o Estado brasileiro transforme nossos costumes e percepções morais em lei criminalizando o que consideramos pecado. Aliás tenho verdadeiro pavor de abrir esse
precedente.


Não o farei porque acredite que a pessoa em quem votarei seja católica, cristã ou evangélica e isso vá “abençoar” o Brasil. Sei, como lembrou o apóstolo Paulo, que se agisse assim teria de sair do mundo.


Votarei consciente de que os temas aqui mencionados (união civil de pessoas do mesmo sexo, descriminalização do aborto, descriminalização de algumas drogas entre outras polêmicas) não serão resolvidos pelo
presidente ou presidenta da república. Como qualquer pessoa informada
sobre o tema, sei que assuntos assim devem ser discutidos pela sociedade
civil, pelo legislativo e eventualmente pelo judiciário (como foi o
caso da lei de biossegurança)
com serenidade e racionalidade.


Votarei na pessoa que acredito representa o melhor projeto político
para o Brasil levando em conta outras questões
(aparentemente esquecidas
pelos lideres evangélicos presentes na mídia)
tais como distribuição de
renda, justiça social, direitos humanos, tratamento digno para os
profissionais da educação, entre outros temas.
(Ver Mateus 25: 31-46)
Estas questões até podem não interessar aos líderes evangélicos e
cristãos em geral que já ascenderam à classe média alta, mas certamente
tem toda a relevância para nossos irmãos mais pobres.

Exibições: 96

Comentário de Maria Lucimar Costa em 8 outubro 2010 às 11:54
Excelente texto, muito esclarecedor. Vamos repassar gente no twitter, orkut, etc., etc.

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