Minha filha

 

Minha filha não é parda, é indígena; mas ainda assim: parda é a definição em seus documentos;

Minha filha é filha; mas ainda assim, adotiva é o adjetivo que nunca falta quando alguém se refere a ela;

Minha filha foi adotada para ser filha; mas ainda assim não falta quem chame de benevolência;

Minha filha não teve escolhas e a isso chamam sorte;

Minha filha foi vítima de abandono e violência -  vítima-  e a isso chamam pouca inteligência;

Minha filha tem na dureza da sobrevivência o único lúdico possível e por isso dizem que não se encaixa;

Minha filha teve a infância, as raízes e a própria identidade roubadas de forma torpe e vil. Nunca escolheu o abandono, a violência, a fome ou o desterro de si mesma, nunca escolheu ser institucionalizada, “ colonizada”, “ catequizada” e por dois anos viver a lei do desapego, pois sempre lhe deixaram claro que tudo era provisório, até o carinho. Não escolheu ser um número na lista de adotandos, ou um número a mais nos registros de violência jamais investigados. Não escolheu o carimbo do racismo em um país em que pardos e pretos detestam ser lembrados de que não se tornaram brancos após vender a terra e a si mesmos. Não escolheu deixar a própria vida para trás, sem nada na bagagem que a distinguisse de um número e uma pilha de papéis nos escaninhos da Justiça. Não escolheu uma nova mãe e um novo lar, apesar de lhe ter sido dada a palavra para optar – E de que adianta a palavra, quando sua voz foi roubada junto com o passado que de ruim que seja, não deixou de ser o único passado conhecido? Agora, quando lhe dão escolhas, sente que ainda são sofismas. Dizem: - Escolhe! Mas o seu orgulho indígena é aquebrantado em cada documento: -Pardo! Sinônimo de quem não é branco, de quem é pobre, sem registro, sem identidade cultural, sem o Eu!  No mundo antigo, os cristãos compreendiam isso, nossos únicos (ainda que muito imperfeitos) predecessores: a humildade é uma virtude, e o orgulho é um vício, e que ‘NÓS’ é divino e ‘EU’ é diabólico.*

Minha filha foi adotada e este não é um tabu; mas sempre que é referida como:  - a filha adotiva; sim, recebe uma carga de tabus alheios, dentre eles de que deve ser necessariamente feliz e grata por uma vida que, apesar de não ter escolhido e à qual chegou empurrada pelo abandono, descaso e finalmente um acolhimento visto como benemerência, quando apenas lhe tem sido entregues o cuidado e a atenção básicos que o Estado, este Leviatã imprevisível lhe prometeu. Direitos basilares... Bem, então, pinguemos uma gota de ácido na idéia de ‘ direito’. Até os antigos, sobretudo os mais adultos, sabiam: a fonte do direito é o poder, o direito é uma função do poder. Tomemos como exemplo dois pratos numa balança! Num, um grama, no outro, uma tonelada; no primeiro ‘eu’, no segundo ‘ nós’, o Estado Único. Não está claro? Permitir que o ‘eu’ possa ter os mesmos ‘direitos’ em relação ao Estado é absolutamente a mesma coisa que permitir que uma grama seja equivalente a uma tonelada. Esta é a distribuição: uma tonelada tem direitos, um grama tem deveres. Esse é o caminho natural que conduz do nada à grandeza: esquecer que você é um grama e sentir-se a milionésima parte de uma tonelada...**

Minha filha pela primeira vez ouve falar que tem direitos e escolhas; mas como objeto de deveres que é, lhe cobram gratidão, subserviência, adaptação, resiliência, desforço para ser parte da tonelada e não unidade e não sabe o que fazer com escolhas ou direitos, onde não É. Não se encaixa porque é escura, porque é analfabeta, porque é floresta onde devia ser concreto.

Minha filha chegou sem o mínimo interesse da maior parte da família, chegou ‘tardia’, chegou como se devesse se desculpar e agradecer a cada passo em uma nova vida não escolhida... Chegou como ‘quase filha’, carregada da sombria expectativa de que seja um eterno repositório de respeitoso penhor pelo teto, pela comida, pelas roupas e pela educação. Chegou com o inesperado preconceito da maioria e com a absoluta falta de compreensão mesmo dos simpáticos que nos ver juntas e com lágrimas nos olhos dizem; -Parabéns, por seres boa, - Que sorte ela tem, -Que gesto nobre...

Chegou como quem chega a uma festa que já finda e devesse perdão pela intromissão. Nosso vínculo de afeto é um poderoso laço de maternidade que não possui qualquer relação com o mínimo que hoje consigo prover a ela, mas que não é passível de gratidão...

Minha filha nasceu de mim sem o sangue do parto, sem os nove meses de conexão misteriosa com quem lhe deu a luz em uma canoa, mas nasceu de mim com a violência dos amores definitivos e a fúria que destrói quem os ataca, nasceu de cada fibra que coloquei para tornar possível este encontro, nasceu do pacto de verdade que fizemos em um Amazonas agora distante e de pousar sua mão na minha e confiar...Nasceu com marcas que quero beijar para sempre, nasceu com os braços em torno do meu pescoço, nasceu dos primeiros incertos passos que demos, cheias de dúvidas e temores, nasceu das lágrimas e sorrisos que derramamos juntas e que se depositam em diferentes cores como um por de sol feito de tantas nuances e vida...nasceu crescida e sem escolhas, sem certeza nenhuma, exceto de que passarei o resto da vida repetindo: -

Minha filha!

Pudesse eu, passaria a vida a me desculpar pelo que a vida lhe fez; mas não posso...preciso estar presente na formação de uma linda indígena que não pode ser vítima, mas protagonista de transformação. Repito todos os dias: Você é indígena, você é minha filha, você é Unidade e tento, contrariando toda a lógica, que ela se orgulhe até da dor, porque suas cicatrizes profundas apenas provam  que sua integridade  é inquebrantável, apesar dos brancos, apesar os números, apesar do Estado, apesar das pessoas...

 

 *

** Us, Ievguêni Zamiátin

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Comentário de Mauro em 15 abril 2021 às 21:29

Aprendi com o seu texto o tanto de amor envolvido na concepção, e no parir de uma filha do coração.

Aprendi com a citação de Zamiatin, a descobrir o livro “Nós”. 
Afinal, qual sentido haveria se viver sem constantemente aprender?

Comentário de Mirele Alves Hasselqvist em 16 abril 2021 às 16:52

 Querido Mauro, Zamiatin foi uma descoberta recente....George Orwell o descreveu como influenciador de Huxley, porem " com mais consciência política....Eu diria que 1984 teve por base " Nós" ....

Minha filha também foi uma descoberta recente e tem sido um aprendizado diário...que tento descrever no : https://tribusnostras.blogspot.com/

Por fim, sua amizade ensina que a ausência não afasta.

Obrigada pelo carinho

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