Nova Líbia


Brasileiro que estava na Líbia lembra momentos de terror no país e da importância da internet na revolução, enquanto historiador ressalta outros fatos que ajudaram a desencadear o novo processo político que culminou na derrocada e morte de Kadhafi
Por Felipe Sáles ( Revista História.com.br )


Jovem posa ao lado de tanque do Exército líbio, tomado por rebeldes. Foto: Roberto Roche
No dia 16 de fevereiro deste ano, o Egito ainda efervescia sob a revolução enquanto os jovens da Líbia rufavam os tambores virtuais: via Facebook e Gtalk (programa de mensagem instantânea do Google), era marcado o Dia da Raiva, em 17 de fevereiro – cujo epicentro do ódio ao presidente Muhamar Kadhafi seria no quartel general do Exército ao lado da casa de Roberto Roche, então gerente de segurança da construtora Queiroz Galvão naquele país. Após três anos morando lá, Roche não levava essa história a sério. No Facebook chegou a zombar: “o Oriente para ser Médio ainda tem de melhorar muito!” – isso, enquanto sua filha Marina, de 16 anos, mostrava as mensagens de amigos líbios dispostos a dar a vida pela causa. Mas Roberto achava que era “coisa de garotada”, mesma opinião, até então, compartilhada por seu motorista – que, no dia seguinte, seria visto empunhando uma AK-47.
“Foi impressionante. Em 12 horas, tudo mudou”.
Roberto, a mulher e seus dois filhos – incluindo um menino de cinco anos – não dormiriam mais sossegados. Da janela de casa, em Benghazi – segunda maior cidade da Líbia com cerca de 700 mil habitantes –, viram um grupo de jovens protestando em frente ao quartel-general do Exército líbio. Os militares não esperaram para abrir fogo. Pelo menos 15 pessoas morreram.



Filhos para a revolução
A caserna virou quartel-general da revolução – até então, algo inimaginável. Na Líbia, Muhamar Kadhafi era um Deus – dizer seu nome exigia extrema cautela. Ainda incrédulo, Roberto ligou para uma universidade, onde costumava dar palestras, em busca de informações sobre um amigo professor. Ele acabara de perder dois filhos na guerra. Mas, diante das condolências, não titubeou:
“Ele me disse: 'não há pêsames. Eles são heróis. Perdi dois filhos, mas ainda tenho quatro para dar para a revolução'”.
Com a ajuda da empresa – e dos próprios líbios que, afinal, sempre buscaram apoio internacional –, a família Roche conseguiu uma casa longe do olho do furacão. Ficaram 10 dias morando com mais 60 brasileiros, até conseguirem embarcar num navio rumo a Atenas, na Grécia. No hotel, enfim, a salvos, a filha Marina vomitou de desespero. Só então a ficha caiu.


Trauma
Até hoje, porém, a filha não se recuperou totalmente. Dia desses, um pneu estourou ao seu lado e ela chorou de pânico. Do Brasil, Marina acompanhou os nove meses de guerra líbia por meio de relatos de amigos rebeldes pelo Facebook. O embate acabou sendo fatal, também, para as relações com sua ex-melhor amiga, que abandonou a revolução e debandou para o grupo pró-Kadhafi.
Roberto também mantém contato com os amigos líbios. Quase todos perderam alguém da família.
“O medo agora é de revanchismo, pois sempre houve uma rixa entre moradores de regiões diferentes. Mesmo na empresa, um não se dirigia ao outro”.
A morte de Kadhafi dá, enfim, esperança de um dia voltar a fazer negócios no país – mas, sabe-se lá quando. Para ele, a falta de uma liderança pode dificultar a estabilização do país.
“O próprio Conselho Nacional de Transição não se entende, e seus membros estão se matando. Vai ser um processo muito complicado e demorado. Mas a Líbia é um país com imensa riqueza, e desigualdades sociais muito menores do que a nossa. A internet, por exemplo, é acessada de qualquer lugar, até do deserto, e com um preço muito menor do que no Brasil, por exemplo, com uma qualidade 10 mil vezes superior. Eu vi, com meus próprios olhos, os amigos da minha filha marcando o ‘Dia da Raiva’ por mensagem de celular, pelo Facebook. Kadhafi subestimou a internet, e eu também”.



Não houve revolução tecnológica’
Já o historiador Murilo Sebe Bon Meihy, há anos trabalhando numa tese de doutorado sobre o país, não vai nesta direção. Ele lembra que, nas últimas décadas, após 40 anos de tortura e autoritarismo, vários pequenos movimentos de oposição se sucederam no país. Nos anos 1990, por exemplo, grupos religiosos reivindicaram o direito de fazerem reuniões e foram perseguidos. Segundo Murilo, até dentro do Exército líbio houve demonstrações públicas de insatisfação no início dos anos 2000. Sem contar as influências da crise financeira mundial no fim da última década.
“Além disso, os protestos na Tunísia e no Egito ajudaram a insuflar o povo líbio. O fato é que houve um esgotamento do modelo político da região. A internet foi apenas um veículo. Não foi uma revolução tecnológica, pois não começou a partir daí. A internet facilitou o contato e, claro, deu suporte para os líbios angariarem apoio internacional”, defende.
Murilo também discorda de que a falta de uma liderança possa atrapalhar o processo de pacificação do país – pelo contrário.
“A Era Pós-Kadhafi começou antes de sua morte: ele já não participava das decisões políticas do país. Hoje, de fato, não existe um grupo ou um representante da nova Líbia. Vários setores da sociedade estão nesse processo, inclusive com a participação de ex-funcionários de Kadhafi, e no decorrer disso alguém pode assumir o controle. Mas o interessante é que, com a participação de setores diversos, a nova Líbia não vicia o Estado, não terá como marca o revanchismo”, aposta.



Influência econômica
O fim definitivo da Era Kadhafi também pode ter consequências negativas na já combalida economia europeia. O aumento do fluxo migratório é um deles, o que pode gerar consequências negativas em alguns países. Além disso, também o fornecimento de recursos energéticos pode ser abalado em toda a região.

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Comentário de Terezinha Souto em 23 outubro 2011 às 2:19
Dizem que vivemos em um mundo moderno, mas vivemos a barbarie, na medida em que, a despeito de "novas" democracias, alijamos os acusados do devido processo legal e damos exemplos de que nos tempos modernos executamos sumariamente os acusa...dos. Afinal, o que vamos ensinar para as crianças,para os educandos dos cursos de direito? Para que servem os Estados de Direito, os Estados Democraticos de Direito, os Tribunais Nacionais e Internacionais, Juizes muito bem remunerados e blindados com garantias constitucionais? Estou profundamente chocada. Se o julgamento e a condenação de Cristo à crucificação fosse hoje, com certeza viveriamos o mais hediondo espetáculo visual com o objetivo de aniquilar todos aqueles que sonho com a liberdade, com o respeito, com o amor à sua Terra, com a autodeterminação dos Povos, com a Solidariedade. Nós, Povo Brasileiro devemos repudiar o espetáculo do sangue da Libia. Nosso silêncio acenam para que eles façam a mesma coisa conosco a despeito de nossas riquezas equatroriais, do nosso mar territorial e do nosso ouro azul. Manifestem-se
Comentário de Maria Cássia D'Ambrósio em 23 outubro 2011 às 2:24

Concordo, Terezinha.

No mar de sangue, nada a comemorar.

E... até quando?

Por hora, só náuseas.

Comentário de Ivan Bulhões em 23 outubro 2011 às 19:11

A derrubada de Kadhafi não foi consequência de uma revolução. Este movimento nasceu da infiltração de agentes ocidentais - Como bem denunciou o The Guardian - que armou e treinou um setor elitista da sociedade Líbia. Foi, sim, um golpe suportado pela OTAN.

Não nos esqueçamos que a Líbia tinha o maior IDH de toda a África. O que acontecerá agora com a qualidade de vida do povo líbio sabemos bem. Com suas riquezas naturais sendo saquedas pelas "democracias" ocidentais, veremos o nível de alfabetização diminuir, a mortalidade infantil, a prostituição, o declínio da saúde e todas as mazelas existentes nas sociedades dominadas pelo imperialismo aumentarem.

Não é simplesmente a queda de um ditador que devemos comemorar. A comemoração somente pode ser feita se o governo que o vier a substituir for de fato democrático e comprometido com o desenvolvimento social. E este não é o caso da Líbia. Este novo governo não passa de um servo dos intersses das grandes potências.

 

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