Até a letra de Aldir Blanc, ninguém na música popular havia homenageado João Cândido, o marinheiro que, liderando 200 revoltosos, se apoderou das quatro maiores belonaves da Esquadra e colocou uma capital sob a mira de sua artilharia, exigindo o fim dos castigos corporais na Marinha de Guerra.
Essa sempre foi a tônica da nossa cultura elitista. Populares revoltosos são que nem roqueiros de Rita Lee. Todos tem cara de bandido. Agora, revoltosos elitistas são vistos como o creme de la creme.
Um exemplo? A tortura só foi denunciada quando Prestes foi vítima de Filinto Muller e quando a ditadura entrou pelos anos de chumbo a dentro, torturando e deixando com aleijões mentais um monte de “gente de bem” que, foi levada até ao suicídio( vide Frei Tito). Se a política não tivesse resolvido apelar para a brutalidade física contra a oposição que lhe era feita, até hoje policiais estariam torturando moradores de aglomerados, executando marginais e qualquer um que lutasse por direitos humanos estaria sendo classificado como “bandido que nem eles”. Sempre lembrando que o “eles” se constitui na maior parcela da população.
Partindo da premissa que já tivemos um presidente da república que tinha, como uma das frases da sua lavra a seguinte: “A questão social é uma questão de polícia”, vemos que não podemos esperar nada da nossa dita elite econômica desde sempre. O nome dele? Washington Luis Pereira de Souza.
Eu acredito que seja por isso que demorou tanto para a arte popular transformar seus mártires- heróis em histórias míticas. Afinal, se a Casa Grande não gostasse da música, proibia os instrumentos musicais na senzala.
Essa figura de linguagem escravocrata retrata o que sempre aconteceu numa arte, fosse elitista, fosse popular- que sempre dependeu do mecenato para a sua sobrevivência. A arte e o artista como veículo de seu trabalho, só foi começar a discutir relações de mercado no mesmo pé que o poder econômico depois do advento da revolução tecnológica que atravessamos.
Foi ela quem barateou o preço de tudo. Hoje, um CD gravado em estúdio doméstico, dependendo de quem o fizer, pode ter tanta qualidade quanto o feito numa indústria que disponha do equipamento mais caro existente. A qualidade não depende mais só do equipamento. Depende também de quem o comanda. E o acesso a essa cultura é o mais democrático possível.
E é essa democracia que certas pessoas querem nos proibir de exercer, denunciando os que lutam pela inclusão como piratas e articulando projetos de lei sobre cybercrimes que, na verdade , privilegiam o copyright e a propriedade intelectual. Temos que gritar e espernear contra isso. Afinal, desde a época que um velho compositor bahiano era jovem, é proibido proibir. É ou não É?

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