Do Amor (1)



Intróito



E depois duma seqüência pesada, em que subi neste CAIXOTE® para falações duras, um tópico mais ameno: o Amor!... Ah, o Amor!... … e seguindo os que sabem tudo. Como disse o maravilhoso e inesquecível Tim
Maia: “Vamos falar de Amor... Somente de
Amor...”



O Amor “ideal”



E pra gente começá a falar do Amor, nesse nível de idealização qu'eu botei aí, vamu chamá um cabra desses
peso-pesado. É. O tal de Chaquispir, Uilia Chaquispir. No seu famosíssimo “Soneto 116”, repetido na
telona, como é o caso da cena entre Marianne Dashwood (Kate Winslet) e John
Willoughby (Greg Wise), no espetacular e irretocável “Razão e Sensibilidade” (Sense
and Sensibility
), de 1995, do diretor Ang Lee. (Fala, Giann!) Vê só um trecho:



“Não me deixo, para o casamento de mentes verdadeiras,


admitir impedimentos; O amor não é amor,


o qual se altera, quando acha alteração


ou se inclina com outro para desertar.


Ah, não! É uma marca sempre fixa


que suporta tempestades e nunca é abalada (...)”



(Tradução “livre/literal” deste Macaquinho)



O creme do creme, esse tal de Chaquispir. Falá o quê? Tu prestô atenção no qu'ele falô? Arrêgo!
A gente sabe que isso... é ideal, mas sonha assim mesmo. O Amor é assim. E também tem que ter um quê de sofrimento,
como dizia Vinícius (de Moraes). Se não,
não tem graça. Antes dele, o Ary
(Barroso) já tinha dito isso na sua “Na Baixa do Sapateiro”, pela boca da nossa
monumental Carmen (Miranda):



(…) Oh! amor, ai
Amor bobagem que a gente não explica, ai, ai
Prova um bocadinho, ô
Fica envenenado, ô
E pro resto da vida é um tal de sofrer
Ôlará, ôlerê



Aí tu volta pro mesmo soneto do Chaquispir (o 116), que na continuação ele tá dizendo a mesma coisa que o Ary (sobre essa tal bobagem):



“(...) O amor não é o bobo do tempo,


embora lábios e faces rosadas


apareçam no seu compasso de foice (...)”



Cê vê, os grandes tão sempre dizendo as mesmas coisas. (Né,
Bill?) E não precisa nem a gente ficá
com qualquer vislumbre de complexo de inferioridade de vira-lata, que os nossos
grandes tão pari passu com os grandes de lá. Sem nada a desejar. Vê só:




“Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada


e triste, e triste e fatigado eu vinha.


Tinhas a alma de sonhos povoada,


e a alma de sonhos povoada eu tinha.



E paramos de súbito na estrada da vida:


longos anos, presa à minha a tua mão (...)



(trecho de “Nel mezzo del camin...”, de Olavo
Bilac)



Loucura total essas palavras do Bilac. Olha o poeta (que poeta!) falando da mãozinha dada. Ó a mãozinha do Marquito e da Rose
lá na foto. É lindo isso! O segredo tá na simplicidade. Rubinhos, até o Narrador Cor-Pôrra!-tivo de
discos de historinhas infantis falô sobre a mãozinha dada, em discurso
inesquecível!!!


Mas voltando ao Amor ideal, esse amor é assim, é como se não existisse, mas de tanto que a gente o idealiza, acaba existindo, nem que seja
somente na nossa idealização. E tem que
ser assim. Sem sonho, o que a gente
seria?



Hollywood (sempre ela)



E falando em idealização eu sou obrigado a falar em quem tanto fez a cabecinha de tantas gerações: Hollywood. Fala, Giann!


E o Amor fica assim, sendo que nem... uma cena antológica (do cinema), que tu guarda e não esquece nunca mais. É assim como a imortal cena do beijo na praia
(foto abaixo), entre o Sargento Milton Warden (Burt Lancaster) e Karen Holmes
(Deborah Kerr) em “A um passo da Eternidade” (From here to eternity), de
1953, do diretor Fred Zinnemann. Uma
cena (me refiro a toda a seqüência) que diremos... irretocável.





É também (o Amor), como o clique entre Hal Carter (William Holden) e Madge Owens (Kim Novak) na indizível (friso) cena da dança
entre eles em “Férias de Amor” (Picnic), de 1955, do diretor Joshua
Logan, sob a espetacular música “Moonglow” (Luar). O Amor é assim.


Se quisermos uma coisa mais... “moderna” (moderno pra mim, pois já tá fazendo 32 anos), a gente pode pensar que o Amor é ingênuo (Com
certeza!... e Lindo!®) como a cena e a música (You're the one that I want
– Você é quem eu quero) da seqüência final de “Nos Tempos da Brilhantina” (Grease),
de 1978, do diretor Randal Kleiser, com Danny e Sandy (John Travolta e Olivia
Newton-John).





Reforma



E eu falando dessa ingenuidade, que falei acima, me vem essa comparação, né? Falar sobre o Amor é que
nem uma reforma que tu faz na tua casa.
(Fala, Rubinhos!) É: uma coisa
puxa a outra. Tu ajeita uma coisa
e já acha que a outra, que tá do lado (velha), já tem que sê ajeitada
também. Né assim? Então eu falei dessa ingenuidade da cena
final de “Nos Tempos da Brilhantina”, muito provavelmente por causa da música
(maravilhosa) que “comanda” a cena, já que é um musical (mormente por ser um
musical) e me vem logo à cabeça as inúmeras, inúmeras e inúmeras músicas
românticas que nos fizeram “viajar” ao longo da vida, com seu seleto grupo de
artistas, especialistas em compô-las. E
seria extremamente trabalhoso fazer um inventário delas, por serem muitas e por
não dispormos de tempo pr'uma empreitada dessa monta, mas eu pinço uma, somente
pelo fato do McCartney (Paul) falar dessa questão específica da ingenuidade, e
dessa bobeira que envolve a questão amorosa.
E o título já diz tudo: “Silly love songs” (Canções bobas de
Amor).




Você pensou que as pessoas já tiveram o suficiente


de canções bobas de amor
Mas eu olho ao meu redor e vejo que não é assim


Algumas pessoas querem encher o mundo


com canções bobas de amor


E o que há de errado com isso?


Eu gostaria de saber


Porque aqui vou eu de novo


Eu te amo, eu te amo.


.


:


O Amor não vem num minuto


Algumas vezes ele nem vem


Eu só sei que, quando estou nele,


ele não é bobo


Não, ele não é bobo


O Amor não é bobo de jeito nenhum


Como eu posso te contar sobre minha amada?


.


:



Então cê viu? Lindo!® E o McCartney sintetizô tudo.



Reparação



Mas se tu me pusesse contra a parede e dissesse qu'eu não podia ficá em cima do muro e qu'eu tinha que escolher uma
entre zilhares de canções amorosas maravilhosas já produzidas pelo tal de ser
humano, eu então, pra não perdê muito tempo ou queimá a mufa, dizia rápido
assim: A Voz (Nat King Cole), “When I fall in love” (Quando eu me
apaixonar). Tá bom pra você?



Beijo



E depois de falar em tantas cenas românticas, beijos e idealizações, tá vindo à minha mente aquele trecho do Drummond (genial) que diz
o seguinte:



“(Eterno) É o gesto de enlaçar e beijar


na visita do amor às almas.


Eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo,


mas com tamanha intensidade que se petrifica


e nenhuma força o resgata.(...)



(trecho de “Eterno”)



O Drummond (que sabia tudo) colocô em palavras (trecho negritado) justamente
este sentimento
qu'eu venho falando, quando tu vê uma cena
(dessas “bobas” “quaisquer” que a gente vê no dia-a-dia às vezes, mas neste
caso específico eu me refiro às do cinema) e nunca mais esquece. Na verdade eu puxei esse trecho desse poema
antológico dele, pra falar da parte qu'eu não negritei, mas a negritada é tão
incomensuravelmente superior (e a qual eu reputo ser uma das maiores parições
de toda a História da língua portuguesa, quiçá da literatura universal) que é
impossível não se deixar levar por ela.




Uma última comparação



E falando de beijo, eu não posso deixar de falar d'O Beijo, do Picasso (abaixo). Porque o sentimento do Amor, pra mim (em
mim), fica também sendo que nem a sensação qu'eu tenho, que tive, quando vi
pela primeira vez, esse quadro do Picasso.
É. É como se tu
fosse assim entrando num redemoinho voluptuoso. Dá até um troço na gente.





Trato



Então, a gente fica assim combinado: que a gente fica com a idealização. A gente
fica com “a marca sempre fixa”, do Chaquispir.
Com a sua “não admissão de impedimentos para a união de mentes
verdadeiras”. A gente fica com “a parada
de súbito na estrada da vida”, do Bilac, “longos anos presas as mãos”. A gente fica com “aquela fração de segundo”,
do Drummond, “mas de tamanha intensidade, que se petrifica e nada a resgata”. Isso!



Saudações e reforço final



Queridos, o amor e o ósculo santo de Paulo e a boa sorte do Eclesiastes pra todos vocês.
Até a próxima. Viva o
Brasil! Viva o povo brasileiro! … e se
tu ainda num tivé um grande amor, depois desse discurso todo... vai
atrás!...
Tchau! Deixa eu vazá! Ssssssssssssssssss...


Exibições: 174

Comentário de Sonia Mariza Martuscelli em 20 fevereiro 2011 às 2:35
Brilhante!

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2021   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço