O CINISMO DA GRANDE MÍDIA E DA CLASSE MÉDICA SOBRE A VINDA DE MÉDICOS ESTRANGEIROS

A vinda de médicos estrangeiros, não todos os estrangeiros, mas os cubanos, faz-nos assistir a cenas que chamam a atenção pelo descomedido falso moralismo. De representantes das classes médicas, CFM, CRM a políticos e jornalistas, todos num discurso tolerável a quem compartilha do mesmo pensamento, mas intolerável aos que penam anos nas filas do SUS, nas filas de Prontos Socorros e em Postos de Saúde em busca de cura para seus males. Insinuam que os pacientes brasileiros estarão em maus lençóis quando os médicos cubanos começarem a atuar. Tentam explicar seu discurso, mas caem na mesmice. Sabem que o País precisa de médicos, os que existem, ou se recusam a ir a locais distantes dos grandes centros ou cobram fortunas, aquém das condições de prefeituras.

Desde que me entendo, ouço falar que faltam médicos. Não só faltam médicos, como também faltam, da parte de alguns médicos, a gentileza, a humanidade e o atendimento adequado, de que todos os que recorrem a um hospital público precisam. Falta médico. Faltam condições de trabalho, mas, acima de tudo, falta mais consciência de médicos e dos que representam a classe. Se não lhes pesa na consciência da profissão retribuir os seus préstimos com bons serviços, que não sejam hipócritas em impedir que quem se coloca à disposição ao trabalho em regiões remotas onde os imperadores do jaleco branco se recusam a ir. Se não querem ajudar, que não atrapalhem. Minha avó sempre dizia "se não vai ajudar, não me venha com conversa mole atrapalhar". E é isso que se percebe da parte de políticos da oposição PSDB, DEM e PPS. Ronaldo Caiado, Aécio Neves, Ricardo Azeredo estão entre tantos outros da classe bastarda que são contra a assistência aos desprotegidos. Na mesma onda vão o Conselho Federal de Medicina, alguns dos Conselhos Regionais de Medicina e muitos da mídia elitizada.

Argumentos inconsistentes não lhes faltam: de exercício ilegal da profissão a despreparo dos médicos. É como se a medicina em outros países fosse arcaica. É como se os médicos estrangeiros tivessem feito um curso de medicina veterinária para cuidar de pessoas, ou tivessem estudando engenharia mecânica para atuar como médicos em hospitais. Li – e respondi na mesma medida – um comentário de um médico de Santarém em que argumentava que os médicos estrangeiros não têm habilitação para exercer a profissão de médicos. Pensamento que considero hipócrita, como hipócrita se torna o trabalho de muitos médicos por aí. Os médicos estrangeiros cursaramm medicina, certamente pelo mesmo período que um médico brasileiro cursou, ou quem sabe até por mais tempo, fizeram especialização na área em que atuam. Muitos deles têm mais de 10 anos de experiência com trabalhos em países latinos e africanos, ou até mesmo em países de primeiro mundo, como Os Estados Unidos e Canadá. Em Portugal, médicos cubanos prestam seus trabalhos e estão recebendo o apoio da população daquele país, para que permaneçam por lá. Sinal de que seus serviços não são a porcaria que os imperadores cá do Brasil dizem ser e não prestam serviços a la Chico Xavier: o paciente chega, o médico baixa a cabeça e começa a escrever (ou rabiscar), tentando adivinhar o que sente, quem sente muita coisa, além da revolta e da falta de atenção. É assim que em grande parte das vezes se procede no ritual. Cuba tem um dos melhores cursos de medicina do mundo. Se não o tivesse, os médicos cubanos não seriam seduzidos pelos Estados Unidos a deixarem a ilha onde trabalham para prestarem serviços em solo americano.

O cinismo – e também o ódio – não posso dizer que seja outra coisa, levou o representante da classe médica de Minas Gerais a anunciar – descaradamente – que orientará SEUS médicos a não socorrerem profissionais cubanos. Ele não disse médicos estrangeiros, mas médicos cubanos. Isso prova o preconceito, a falta de ética e também a falta de humildade de alguns dos que usam da classe para fazer oficina de conserto. Percebem que a zona de conforto está tomando outro rumo. A cartelização do serviço médico parece ameaçada. Os tempos da vaca gorda parecem chegar ao meio do fim. O corporativismo, há muito envolto em colchas de seda, parece desatar os relhos. E isso incomoda quem durante anos fez o que quis sem ser incomodado. Incomoda a quem cobra por serviços já custeados pelos SUS. Muitos deles fazem do serviço público bico ou ponte para criar clínicas e hospitais particulares, para onde mandam pacientes do SUS fazerem exames a preços de ouro. É como se os médicos brasileiros fossem os donos do pedaço. O território é nosso e ninguém mexe, parecem afirmar eles.

Há cidades em que médicos cobram de prefeitos salários três vezes maior ao do gestor municipal. Cobram altos salários para prestar serviço de péssima qualidade. E, tantos prefeitos por aí, por não terem alternativas, acabam cedendo às pressões e pagam aos médicos altas somas e acaba faltando para investimentos nos hospitais. E depois os médicos, que ganham salários altos demais, reclamam da falta de condições para trabalhar. Deveriam trabalhar sem reclamar, já que impedem, com seus altos salários, que os gestores municipais façam os investimentos necessários, já que têm que gastar com salários dos mercadores da saúde.

Vêm dos da mídia também comentários nada positivos com relação aos médicos – digo, os médicos cubanos.  Eliane Catanhêde, do Jornal Folha de São Paulo, fala em terceirização da saúde, como se isso fosse novidade por aqui. No Brasil, em todos os setores públicos, grande parte dos serviços é terceirizada, na saúde não é diferente. Quem discordar é só fazer uma pesquisa e vai comprovar o fato. A jornalista (que certamente nunca se serviu e não se servirá dos serviços públicos de saúde brasileiros) chega ao cúmulo de fazer comparação à vinda de médicos cubanos aos escravos que chegavam ao Brasil nos séculos passados. Segundo ela, eles virão prestar serviços escravos no Brasil, pelo fato se não receberem de forma integral o salário que o governo brasileiro repassará a OPAS (Organização Pan-Americana de Saúde). Mas não explica ela e nem outros jornalistas o fazem, por que os médicos não receberão o salário integral como receberão outros médicos. Não explicam que em Cuba a divisão de bens não é capitalista. No mesmo pensamento do de Catanhêde, passeiam jornalistas da Revista Veja, Época, O Globo e Estadão. É como se os médicos que começam a chegar viessem forçados de seu país para trabalhar por aqui. Certamente nenhum deles foi obrigado a vir ao Brasil. Se estão vindo, é porque querem trabalhar, é porque querem somar e também querem viver experiências. Eles não vêm com a falsa ilusão de que ficarão nos grandes centros urbanos. Eles chegam aqui sabendo que irão atuar em regiões remotas do País, onde a população é rejeitada e abandonada pelos imperadores do jaleco branco. Para os médicos cubanos, a medicina se caracteriza pelo humanismo e pela solidariedade e não pelo lucro como consideram os nossos médicos. Talvez esteja aí a grande diferença entre os médicos da ilha cubana e os médicos brasileiros.

Quanto ao pagamento dos médicos cubanos, é uma questão de acordo entre os médicos, o governo de Cuba e a OPAS. Todos os médicos que virão de Cuba são funcionários públicos daquele País. Eles vêm prestar serviço ao povo brasileiro, por cedência do governo cubano e, portanto, vêm em missão oficial, assim como vão nossos soldados ao Haiti. O salário que o governo pagará ao governo de Cuba será repassado depois aos médicos, mas de modo que parte dele seja dividida entre todos os habitantes, de forma que todos se beneficiem disso. Não receberão menos do que os que permanecerão na ilha, nem mais, de modo que faça com que os que permanecem trabalhando por lá queiram sair para trabalhar em outros países. Em todos os acordos firmados entre Cuba e países que receberam médicos foi assim que se procedeu, e com o Mais Médicos não seria diferente.

O jornalista Hélio Doyle, especialista em estudos cubanos, em longa reportagem publicada no jornal online 247, explica como é o procedimento da contratação de médicos cubanos para prestarem serviços a outros países. Segundo ele, o argumento de escravidão, como caracterizaram Eliane Catanhêde (Folha de São Paulo), Ricardo Noblat (O Globo) e Reinaldo Azevedo (Veja) ou de exercício irregular da medicina da parte dos cubanos ou de outros médicos (argumento de médicos e do CFM e CRM) não se aplica aos que trabalharão no programa Mais Médicos. Eles virão prestar serviço por tempo determinado, e sabem que se tivessem que receber o salário integral do governo brasileiro, teriam que abrir mão do seu emprego em Cuba, no caso dos médicos cubanos. Já os médicos de outros países, os que vêm são aqueles que não têm vínculo empregatício com o governo de seu país, os que têm terão que se afastar para poderem trabalhar aqui. É assim que transcorre a situação. É essa informação que os da grande mídia deveriam apresentar à população, mas preferem fazer estardalhaço com o que não é verdadeiro.

Considero importante transcrever aqui a reportagem da Agência Brasil sobre a chegada dos médicos cubanos ao Brasil, hoje, dia 25 de agosto.

Daniel Lima

Repórter da Agência Brasil

Brasília - O primeiro grupo dos 206 médicos cubanos que vão trabalhar no Brasil desembarcou ontem (24) à tarde no país. No Recife, ficaram 30 profissionais e 176 seguiram para Brasília, onde chegaram à noite. Ao desembarcar, Oscar Gonzales Martinez, graduado há 23 anos e especialista em atenção à família, disse que tinha grande expectativa em trabalhar com a população brasileira.

Martinez disse que veio ao Brasil por várias razões, entre elas, a oportunidade de trabalhar para o povo brasileiro. Sobre a polêmica em torno do pagamento dos salários, que serão feitos por meio do governo cubano e não diretamente aos profissionais, Gonzales disse que isso é o que menos importa, pois tem o emprego garantido em seu país e parte dos recursos irá para ajudar o seu povo.

“O mais importante é colaborar com os médicos brasileiros e ajudar na qualidade de vida do povo daqui. Também é importante a irmandade entre o povo cubano e o povo brasileiro que existe há muito tempo”, disse.

 A médica Jaiceo Pereira, de 32 anos, lembrou, bem-humorada, que, apesar de ser a mais jovem do grupo, tem bastante experiência profissional e no início de sua formação já trabalhava com saúde da família. Ela pediu o apoio do povo brasileiro e respeito aos profissionais de seu país. “Queremos ajudar e dar saúde a todos aqueles que não têm acesso aos serviços médicos", disse. “Queremos dar amor e queremos receber amor.” Já Alexander Del Toro destacou que veio para trabalhar junto e não competir.

Um grupo de 25 simpatizantes do socialismo e de Cuba esteve no Aeroporto Internacional de Brasília – Presidente Juscelino Kubitschek com cartazes. Durante a longa espera, que durou mais de duas horas, os manifestantes gritavam palavras de ordem como “Cubano amigo, Brasil está contigo” e “Brasil, Cuba, América Central, a luta socialista é internacional”.

Em meio às manifestações de apoio, Ana Célia Bonfim, que se identificou como médica da Secretaria de Saúde do Distrito Federal chegou a gritar entre os manifestantes que tudo não passava de uma “palhaçada”. “Profissional troca alguma coisa por bolsa. Isso não é coisa de profissional. Pelas condições que tem o médico cubano, claro que eles vão trocar isso pelas condições brasileiras. Mas isso é exploração de mão de obra”, disse.

O restante dos médicos cubanos desembarca amanhã (25) em Fortaleza, às 13h20, no Recife, às 16h, e em Salvador, às 18h, segundo o ministério. Ao todo, 644 médicos, incluindo os 400 cubanos, com diploma estrangeiro chegam ao Brasil até este domingo (25).  Na sexta-feira (23), começaram a chegar os médicos inscritos individualmente em oito capitais.

Os profissionais cubanos fazem parte do acordo entre o ministério com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) para trazer, até o final do ano, 4 mil médicos cubanos. Eles vão atuar nas cidades que não atraírem profissionais inscritos individualmente no Programa Mais Médicos. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, rebateu as críticas das entidades médicas que questionam a formação médica dos profissionais cubanos.

Na segunda-feira (26), tantos os médicos inscritos individualmente (brasileiros e estrangeiros), quanto os 400 cubanos contratados via acordo, começam a participar do curso de preparação com aulas sobre saúde pública brasileira e língua portuguesa. Após a aprovação nesta etapa, eles irão para os municípios. Os médicos formados no país iniciam o atendimento à população no dia 2 de setembro. Já os com diploma estrangeiro começam a trabalhar no dia 16 de setembro.

O curso vai ter carga de 120 horas com aulas expositivas, oficinas, simulações de consultas e de casos complexos. Também serão feitas visitas técnicas aos serviços de saúde com o objetivo de aproximar o médico do ambiente de trabalho.

O que me chamou a atenção foi a palavra COLABORAR empregada pelos médicos. Eles virão colaborar. Não vieram tomar espaço nem substituir médicos brasileiros. Eles sabem que seus serviços serão por tempo limitado. Eles têm data para chegar e também data para ir embora. Por isso os daqui não precisam fazer barulho, como se estivessem perdendo seu emprego para quem está chegando. Não é isso. Embora, certamente, muitos desses que chegam hoje quererão continuar por aqui. E, se seu serviço for de qualidade, que fiquem.

Conheço comunidades do município de Santarém cujos moradores só conhecem médicos por imagem dos livros e dos jornais. Outras só veem médicos quando aparecem em tempo de política para servirem aos préstimos eleitoreiros. Muitos, por não terem condições de se deslocar de suas casas para a cidade, acabam esperando a morte em casa, como se essa fosse a sua sentença. E para muitos essa é a sentença.

Que os médicos estrangeiros possam oferecer aos desmerecidos o serviço de que tanto precisam. Que também possam ensinar aos doutores capacitadíssimos do Brasil como se faz atendimento humanizado aos pobres e desassistidos. Que, ao final do tempo de serviço prestado por aqui pelos médicos estrangeiros, os do CFM e os do CRM possam rever seus conceitos sobre o que é ser médico no Brasil. Que os médicos daqui possam fazer a troca com os médicos cubanos: saiam da sua zona de conforto e queiram ir ao Haiti, ao Timor, à Ruanda, a Moçambique, a países africanos, prestar seus serviços gratuitamente. Se a colaboração dos médicos argentinos, cubanos, espanhóis e de outros países despertar nos médicos brasileiros a sensibilidade, certamente terá valido a pena o esforço. Que não seja tarde.

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Comentário de Stella Maris em 27 agosto 2013 às 1:33

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