O peso das palavras

Vivia com medo e no medo..

Em seus pesadelos, palavras caiam pesadamente sobre sua cabeça; o sonho era recorrente; mas era sonho e as palavras, pequenos traços impressos em tomos deselegantes... a vida era o aqui e o agora e as palavras; dimensões errantes- assustadoras, corriam pela casa, bocas escancaradas sobre o passado, mesmo quando seus passos ligeiros a traziam para o hoje.

Agarravam-se em suas saias, mesmo quando o amanhã parecia certo e docemente despreocupado, choravam descontentes o nunca chegado. Vivia como se nunca tivesse chegado e fosse a que partia...as palavras a desacomodavam e empurravam pelos corredores , de quarto em quarto, dos incontáveis desamores.

Ávidas, devoravam suas dores para em seguida vomita-las pelas brancas paredes das salas, dando-lhes cores de ultraje, vergonha, vaidade ou ardores...Umas que outras, presas à garganta, teimavam em fugir da memória, deixando lugares vazios, como quadros despregados, caídos pelo chão...telas esgarçadas e molduras partidas; reticências escorriam pelos canos, as aspas por todo lado...Sentia que eram não mais que ruínas, pequenos fragmentos; escombros de uma antiga construção.

Em seus passinhos miúdos, ora apertados, ora suspensos, se faziam tocaia sob os dedos.

Loucas, em afligimento e algaravia ou lânguidas sobre a taça, se faziam feias, modorrentas ou simplesmente silêncio.

O peso delas fazia disparar o antigo relógio escondido sob o peito, enrouquecer ou gritar...eram cacofonia, euforia e exaltação.

Queria dormir e calar as malfeitoras, mas era por natureza fácil de aliciar pelas pilantras que, ciosas de seu poderio a arrastavam pela cabeleira e a faziam insônia quando era pranto.

Ah o peso das palavras, como aferir? Era a que sob elas embaraçava e se embaraçava, a que sendo uma, por elas se fazia muitas e sendo una se fazia partir.

Achatada por elas, premida, amalgamada ou calcada, escolha a que preferir...se fazia prisma e as via múltiplas, infindáveis miragens multicolores e ainda assim esmaecidas sob os espelhos que as refletiam invertidas e dos reflexos alucinados significados ou verdades errantes.

As via, já o bem sabes, por todos lados e despertava em suores a pensar que a vida é reflexo de um instante.

Já se ia o medo levado com os ocres noturnais como a permanência....sob a prateleira tudo continuava igual, apesar do peso insustentável pela dúvida, essa inconstante. Em seu peito o relógio apressado, em descompasso  eterno parecia surreal...a única constante nessa vida desigual.

O peso do pensar já rarefeito, dos verbos em desacordo formal lhe lembravam que as conjugações mudam e se curvam como lábios sob o peso do tempo, a mais mentecapta  das palavras e a menos real. real.

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