Fim de tarde, um pianista embala conversas, lindamente, ao som de velhas canções...Um senhor embriagado levanta e o elogia...Eu ouvi o diálogo:"-Toca muito”-disse o senhor. A resposta me emocionou e conduziu de volta ao quarto do hotel. Tinha de buscar meu netbook e escrever...tinha...ou não dormiria esta noite. Ele respondeu:"-Verdade ? - Eu nunca saí daqui, nunca toquei fora”. A singeleza da resposta e a pureza da sua voz rouca me emocionaram. Na vida é assim...se fossemos responder com a verdade do pianista diríamos que sem o outro jamais saberemos o nosso valor. Por isto necessitamos tanto de aprovação e ver o que somos na retina do outro ou pela retina do outro. Podemos nos equivocar no equívoco dos outros ou vislumbrar algo que nos assuste, que nos obrigue a recuar e reconhecer que ainda temos muito pela frente para poder ler admiração em um outro olhar; mas sem o outro nunca conseguiremos ver a nós mesmos. A reação do outro nos dá a exata medida do que somos e do quão feios podemos ser ou ainda da beleza que podemos ostentar, apesar do outro. Somos o que somos, mas como o pianista, jamais saberemos de forma completa, sem a inquietude da alma que nos arrasta a novos públicos e novos olhares e a novos encontros de almas que dancem assim pela escuridão da vida ou corram desenfreadas por dias ensolarados. A noite repleta de estrelas e a música inebriante de tantas risadas e de tanta vida torna a sala de música quase ensurdecedora e o pianista que ouve sózinho a si mesmo segue tocando...ele nunca saiu daqui, desta sala antiga; muitos de nós nunca saímos...Somos o que somos. Vou sair, tenho de deixar o pianista e o transe melancólico a que me conduziu. Ele toca bem, sem dúvida, nesta sala inerte e triste. Em outras vidas, digo, salas, tocaria? Vou me despedir e agradecer as horas de introspecção que passei ao seu lado, e a ternura humilde dos dedos que acariciam o teclado. Ele acompanha os bebados, apaixonados, apressados, homens de negócios e seus assuntos tão desnecessários. Preciso sair e ler o que sou por aí. Deixo-o ...ele nunca saiu daqui e quem sabe se em outras salas ele seria 'O pianista' . Não sabemos e preciso tanto saber...vou olhar outros olhos e percorrer outras salas e descobrir o meu valor; também tenho dúvidas e por instantes parece que nunca saí daqui.

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