Tempo
O de Maria é o Já enquanto memórias de ontem atormentam o hoje e fazem do amanhã ontem, quando se desespera a esperança. Enquanto escolho as palavras e ordeno os pensamentos já lá se vai apressado o tempo em busca dos prazeres; mas prazeres em tempos que tais requerem capital e capital requer tempo e o tempo é o mesmo tempo dos prazeres renunciados em prol do capital que requer tempo...coisa confusa e que faz perecer a memória; mas memória é passado e o que é o passado senão o presente a perder-se no tempo, tirando do presente prazeres conjugados em pretérito imperfeito quando o futuro é já nó desfeito e refeito pelo passar do próprio, o tempo.
Meu tempo e o de Maria caminhavam juntos por estradas diferentes, tinham no meio de tudo o espaço e por conta dele: o danado, se faziam divergentes. Quis, contudo, algum deus brincalhão ou muito cioso da tarefa, que ambas cruzassem o mesmo espaço e que desorganizando a malha universal entretecida com o peso imenso de suas dores, segurassem uma na outra e que com isto acabassem por deixar para trás a matéria de outros tempos.
Sem oposição de forças éramos agora energia; gravitação em torno de nós mesmas...como dervixes em transe seremos, no dia em que a terra e o céu forem. Nosso equilíbrio ainda é incerto tropeça no ego e em outros senhores, mas abrimos asas internas e nosso vôo é ainda de estremecimentos.
O meu é do ontem, apesar de sua (não) existência fictiva. Escrevo e foge já o tempo para o passado de desamores, enquanto a vida é prazeres, mas prazeres em tempos que tais requerem capital e capital requer tempo e o tempo é o mesmo tempo dos prazeres renunciados em prol do capital que requer tempo... coisa confusa que fulmina futuros enquanto o passado é vício do presente não realizado.
Nosso tempo é de costuras e conjunturas, de círculos interseccionados. Nesse giro contínuo vestimos as mesmas saias e brincamos de levitar sobre os próprios temores. Unindo céu e terras, visitamos os lugares da memória nos tornando lembranças imateriais apesar da matéria.
Nosso tempo, meu e de Maria é o amanhã; um tempo dela e dela só, longe do simples já do instante efêmero e do ontem do que se arrasta e teima em prosseguir. Nosso tempo, meu e de Maria é amanhã; quando eu já for ontem e ela o hoje, mas não só o já dos prazeres.
Por que prazeres em tempos que tais requerem capital e capital requer tempo e o tempo é o mesmo tempo dos prazeres renunciados em prol do capital que requer tempo... Nosso tempo é só dela que reivindica o não tempo, o Já do estado natural.
O tempo do já, já lá se vai dobrando a esquina porque se vê sem tempo e Maria que era, já se projeta no tempo; uma pequena selvática dervixe – shamã que gira apressada no ciclo de trezentos e sessenta e cinco voltas incompreensíveis e de cores sensíveis, pisa descalça nas teclas dos dias que existem além de sua compreensão e lá se vai o pequeno pé de Maria pisoteando a grandeza física e o sequenciamento dos fatos.
-Já - mãe, ela diz e com isso me apaga das horas, das coincidências, da sincronia e dos referenciais...
Maria se perde nas incertezas da energia e com isto perde certeza da medida e desfaz o tempo que já não é mais de folguedos nem de renúncias , não requer capital e não se sabe tempo...Maria é acaso e necessidade em mutação constantes em um assimétrico salto de teclas entre visagens, que produz sons caóticos e reflexos de cores berrantes e luxuriosas.
Maria compreendeu a verdade, longe da ética e do sobrenatural e sendo, não se explica, se ergue altiva entre o ensurdecedor tic-tac das horas que se vão nas suas demoras enquanto Maria ontem era Já.

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