Os efeitos da bomba de tungstênio -Paulo Moreira Leite

Guerras são acontecimentos gloriosos quando terminam e se transformam em relatos heróicos dos países vencedores. Também podem ser espetáculos atraentes para quem assiste de longe, numa tela de TV. Na vida real, são eventos sórdidos e dolorosos, que envergonham a consciência humana e o produzem eventos que a humanidade gostaria de esquecer. Eliminam vidas, geram feridos que se transformarão em deficientes por toda a existência.
A primeira verdade sobre a guerra ensina que ela é a política por outros meios — mas é sempre bom lembrar que a política é sempre preferível a ela. Até porque, numa guerra, quem morre mais cedo são os mais fracos e os desprotegidos, e não aqueles que dão a ordem de atacar. Israel chegou aos 22 dias de ataque sobre Gaza com uma vitória absoluta no terreno militar mas enfrenta uma denúncia que podem levar seus oficiais ao banco dos réus como criminosos de guerra. Ninguém precisa fazer analogias absurdas e indevidas com a Segunda Guerra Mundial. Não é disso que se trata. Mas é grave.
Embora o governo de Israel descarte qualquer deslize, os médicos que atendem os 5000 feridos que os ataques já produziram estão intrigados com explosivos desconhecidos, em particular com um tipo de bomba que produz ferimentos gravíssimos, que ninguém sabe como tratar — e que pode levar, mais tarde, à morte das vítimas.
Erik Fosse, médico noruguês que há três décadas atende vítimas de guerra, diz que o Exército de Israel tem usado bombas “DIME” (sigla em inglês para material explosivo inerte e denso) destinadas a produzir intensa explosão num espaço pequeno. Elas são feitas com pó de tungstênio, que se espalha pelo corpo e se mistura com os tecidos, tornando difícil que se faça qualquer tratamento, até porque não se consegue descobrir a causa dos ferimentos.
Imagina-se que esssa bombas foram produzidas para alvejar militantes e dirigentes do Hamas em seus esconderijos. Despejadas sobre Gaza por aviões com controle remoto, explodem em edifícios que são ocupados pela população civil, atingindo grande quantidade de mulheres mulheres e crianças.
Algumas pessoas “perderam suas pernas, “diz o médico, entrevistado pelo Indepedent. “Parece que elas foram cortadas fora.”
As autoridades israelenses não prestaram, até aqui, esclarecimentos maiores sobre o tipo de armas que tem usado nos ataques à Gaza, o que alimentou suspeitas, também, de um outro explosivo, o fósforo branco. Porta-vozes do governo de Israel asseguram que todos seus armamentos estão de acordo com a legislação internacional. Nenhuma das bombas empregadas são ilegais, na verdade. O que se questiona é seu uso em áreas densamente habitadas por civis, como Gaza — o que pode constituir crime de guerra.

A tecnologia militar ajuda a sublinhar a desigualdade do conflito. As catapultas utilisadas pelo Hamas disparam foguetes que tem duas características especiais. A primeira é que não é possível definir sua direção depois do disparo — o que explica os vôos cegos que realizam no território inimigo, sem chegar a alvo algum. A outra é sua caracteristica artesanal. Os foguetes são tubos de ferro, recheados com açucar e fertilizantes. Seu poder de estrago é limitado ao alvo que atingem.

Essa diferença ajuda a entender o saldo militar da guerra — 1200 mortos a 13. É certo questionar — pelo menos — a falta de qualquer proporção para o ataque de Israel, que se transformou num massacre de civis. Mas cabe perguntar por que o Hamas realiza ataques que provocam o inimigo, servem de pretexto para novos ataques muito mais poderosos — e que jamais poderá responder à altura. Alguém explica isso?

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Comentário de Cafu em 19 janeiro 2009 às 10:32
Belo texto do Paulo Moreira Leite. Parabéns pela escolha, Cabloca.
Essa guerra é uma afronta à consciência humana. É bárbara, genocida, injustificável. O estado de Israel precisa responder perante o mundo a crueldade de sua vitória pírrica.
Beijos tristes.
Comentário de Ivanisa Teitelroit Martins em 19 janeiro 2009 às 11:52
Cabocla,
Paulo Moreira Leite é um jornalista de outra escola. Ele se indigna. Não faz análises asséptica. Transmite emoção nos seus textos. É isso que o leitor gosta: informação que transmita também solidariedade contra injustiças. O colunista que toma posição diante das arbitrariedades cometidas contra os mais fracos é um colunista que traz vida na ponta dos dedos e emoção na escrita.

"Israel chegou aos 22 dias de ataque sobre Gaza com uma vitória absoluta no terreno militar mas enfrenta uma denúncia que podem levar seus oficiais ao banco dos réus como criminosos de guerra. Ninguém precisa fazer analogias absurdas e indevidas com a Segunda Guerra Mundial. Não é disso que se trata. Mas é grave."
Abraço.
Comentário de Sérgio Troncoso em 19 janeiro 2009 às 18:08
Bom texto Cabocla.Paulo Moreira Leite é um jornalista diferenciado.Procura chegar aos fatos da forma mais verdadeira possível.Êle analisa os fatos sem esquecer daquela frase que diz que quando uma guerra começa,a primeira vítima é a verdade.Um abraço,Sérgio.

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