Os nãos de Lula, a mídia-elite e o sim do mundo


Os nãos de Lula, a mídia-elite e o sim do mundo

O editorial do nobre jornal “O Estado de S. Paulo”, vulgo “Estadão”, de ontem, 21 de Setembro de 2010, dá conta de que há uma elite que Lula não suporta. Seria a intelectual, principalmente, a imprensa – os escolhidos por Deus, diria eu.

Por Ana Helena Tavares (*)

Um líder mundial acaba de ser indicado ao Nobel da Paz. Não foram os sins que o levaram a tal nível – foram os nãos.

Os nãos que deu à vida, quando esta tantas vezes parecia querer fadar-lhe ao fracasso. Os nãos que tem dado aos outros, quando estes tentam ganhar no grito. Os nãos que nunca imaginou que precisaria impor a si mesmo, provando que a política é a arte da flexibilidade – e apanhando por isso.

Esse líder não é um negro com duas faculdades. Nem tampouco é branco. Tem a cor – e a dor – da miscigenação de seu país.

Às vezes penso que, quem o observava na sua primeira tentativa de eleição, em 89, imaginava que, quando eleito presidente, Lula transformaria Brasília em Sierra Maestra. Duvido que algum dia tenha tido este objetivo e, nem que tivesse, num contexto social como o nosso, jamais conseguiria governar sem o mercado internacional. O que não significa governar para o mercado, menos ainda por ele. Também aí Lula disse não.

Ao contrário disso, nas últimas décadas do século XX, o Brasil acostumou-se a governos totalmente submissos não só aos interesses do mercado como aos interesses das grandes potências. Durante anos, os “vira-latas”, de que falava o grande dramaturgo Nelson Rodrigues, não passaram de gatinhos assustados aceitando migalhas de Washington. Era o Brasil dizendo sim ao mundo, enquanto o mundo dizia não ao Brasil.

Em 1994, nos meses em que se deu a implantação do plano real, o Brasil contou com o jurista e diplomata Rubens Ricupero, como ministro da Fazenda. Flagrado em uma conversa secreta com o jornalista Carlos Monforte, atualmente na Globonews, Ricupero declarou: “Eu não tenho escrúpulos: o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde.” 16 anos depois, a atuação da grande imprensa brasileira inverte a máxima: com o ruim se fatura e é preciso dizer não às coisas boas. Bizarro gosto pela tragédia.

O editorial do nobre jornal “O Estado de S. Paulo”, vulgo “Estadão”, de ontem, 21 de Setembro de 2010, dá conta de que há uma elite que Lula não suporta. Seria a intelectual, principalmente, a imprensa – os escolhidos por Deus, diria eu. Segundo o jornal, “com todas as outras Lula já se acertou”.

Primeiro, a família Mesquita caiu aí em grave erro. Autodenominou-se elite e esqueceu-se de consultar os intelectuais e a imprensa que habitam fora de seu ambiente poluído. Tomaram as dores de um jeito, vestiram a carapuça de tal modo, que fica parecendo que só eles são os intelectuais. Só eles são a imprensa. Menos mal que não são.

Segundo, eu pergunto: Que moral têm aqueles que hoje recriminam Lula por suas alianças com Collor e Sarney (das quais também não acho graça, mas todos sabemos que fazem parte do jogo político) e ontem teciam loas públicas aos coronéis? E hoje estendem tapetes vermelhos para outros coronéis, pois estes já não mais interessam?

Que moral tem a imprensa para criticar Lula por ele manter relações diplomáticas com Ahmadinejad, que merece críticas, se esta mesma imprensa não o recrimina por manter relações semelhantes com o Estado de Israel, que há vários anos promove uma limpeza étnica entre os Palestinos?

O fato é: um país que se quer em destaque na cena mundial precisa e deve dialogar com todos. Dialogar é uma coisa, dizer sim é outra bem diferente.

Lula é pessoa que não vive sem o diálogo. Foi o diálogo – sem submissão – o que fez dele um líder admirado pelo banqueiro do ar condicionado e pelo trabalhador de sol e suor. O mesmo trabalhador para quem hoje a vida diz muito mais sins do que antes.

Admirado por Bush, Clinton, Obama e All Gore; por líderes de todos os países, o que inclui de Shimon Peres a Mahmoud Abbas. Qual outro presidente brasileiro pode se vangloriar de tal fã-clube?

Definitivamente, foi a arte do diálogo que fez com que hoje o mundo diga sim ao Brasil.

*Ana Helena Tavares é jornalista por paixão, escritora e poeta eternamente aprendiz. Editora-chefe do blog "Quem tem medo do Lula?" http://quemtemmedodolula.blogspot.com/

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Comentário de Ivan Bulhões em 23 setembro 2010 às 16:37
Que be-le-za de artigo, Ana! Estupendo!

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