Ouvindo Sobradinho

Passeando pela página da Luzete vi, ouvi o vídeo do trio Sá, Rodrix e Guarabyra cantando

O sertão vai virar mar
Dá no coração, o medo que um dia
O mar também vire sertão ...

E fui voltando na história, me conectando com o meu passado de barranqueira. Fui revendo cenas de minha primeira infância – até os 14 anos em Bom Jesus da Lapa –, depois a travessia para a adolescência e juventude, nas cidades de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA).

Essa música, em especial, me leva imediatamente à mudança da nossa família para Petrolina, na passagem da década de 60 para os anos 70, época da construção da barragem de Sobradinho. Enquanto a mídia oficial comprometida com o desenvolvimentismo do regime militar enaltecia as benesses a serem propiciadas pela energia hidráulica, minha avó Mariquinha temia diante dos sinais da chegada do apocalipse: o mundo iria se acabar sim, com labaredas de fogo, como estava previsto na Bíblia, pois os homens estavam construindo tudo certinho para isso. Com as próprias mãos iam trançando o mundo todo com fiação elétrica, e em pouco tempo, um incêndio sem precedentes não haveria de deixar pedra sobre pedra.

No contexto, o meu coração doía com o noticiário da Emissora Rural a Voz do São Francisco, fazendo a cada dia a contagem regressiva, até o dia de anunciar o momento da abertura das comportas, quando as águas começariam a inundar Casa Nova, Remanso, Pilão Arcado, Sento-Sé, Xique-Xique.

Eu ficava visualizando mentalmente a água crescendo, afogando as cidades, as casas, as praças, as igrejas. Sentia a atmosfera de Petrolina impregnada de um mormaço diferente, um peso, uma espécie de concentração de fluxos energéticos provenientes do sofrimento daquelas pessoas que habitavam as cidades tão próximas. O seqüestro de tantos destinos, tantas histórias a serem submersas pelo poder da prepotência.

Até hoje, quando me lembro disso, e principalmente quando vejo documentários e depoimentos sobre as marcas do desenraizamento nas vidas daquelas pessoas, fico a me perguntar: que progresso é esse que se faz à custa do desvio do curso das vidas de famílias inteiras, da destruição de tantos nichos culturais?

Como esta cantiga é emblemática! Como o trio Sá, Rodrix e Guarabyra soube expressar o drama daquele momento! Mais uma vez, vejo como a música tem o poder de conectar a nossa existência com a história, estabelecendo uma relação de continuidade entre passado e presente (não de dicotomia, não é Luzete ?) Como esta é uma questão muito presente para mim atualmente, me pus a pensar sobre como é a relação dos sobreviventes das cidades afogadas com o conceito de passado? Quantos ainda estarão vivos hoje? Como estarão vivendo? Como será que se sentem diante das ruínas que brotam como fantasmas das cidades, dos leitos do São Francisco, que com o desmantelo ambiental tanto pode abruptamente ser tomada pelas grandes enchentes, como também ser devastado pela seca, pelas grandes estiagens?

Mas eu também me emocionei ao ler um comentário da leitora Vera Bonbon referindo-se ao Guarabyra como GUT - era assim que ele era chamado pelos amigos lá em Bom Jesus da Lapa e eu me recordo dele aos 16 ou 17 anos, tal qual aquela foto do vídeo, de cabelos curtos e óculos escuros, acrescente um violão debaixo do braço, perambulando pelas ruas com outros rapazes lapenses, entre eles, Gilvandro e Orlando Bastos.

Eu era (sou) quatro ou cinco anos mais nova do que ele e é possível que ele não se recorde de mim, mas certamente se recorda do meu pai, o rádio-telegrafista José Bandeira, pois ele, o Gut, junto com seus amigos, freqüentavam muito o aeroporto onde o meu pai trabalhava, tendo chegado a comentar com o meu pai sobre a sua opção de seguir a carreira artística, uma vez que estava compondo e pretendia participar do Festival de Música Popular.

Já estávamos morando em Petrolina quando ele ganhou o festival com a música Margarida e de lá, nos alegramos, junto com os lapenses, ao acompanhar as notícias da sua vitória pelo rádio e pela revista O Cruzeiro, pois naquela época os sinais da televisão em Petrolina eram de absoluta precariedade. Prenúncio dos anos 70, imaginem! Eu em torno dos dezessete, dezoito anos de idade, morando em Petrolina, ainda não havia me apropriado da televisão.

Mas o que o Gut não sabe é que através dele tive a primeira experiência de fruição estética, relacionada à linguagem teatral. Foi ele que ofereceu aos moradores da cidade de Bom Jesus da Lapa, através de uma iniciativa completamente amadora - por isso mesmo impregnada de amor e muita generosidade -, uma peça criada por ele, com base no disco de Dorival Caymmi: Suíte do Pescador. Fazendo uma mistura das linguagens de vídeo-fotografia e teatro, ele conseguiu levar ao palco duas jovens, trajando malha azul (acho que a Iara e a Irene) a se movimentarem num cenário que era uma jangada em pleno mar. Os efeitos vinham de uma luz em penumbra e as moças cantavam e faziam leitura interpretativa daquelas músicas lindíssimas do Caymmi, abrindo com

Minha jangada vai sair pro mar
Vou trabalhar, meu bem querer ...

As duas contracenavam com a projeção de imagens na tela das praias de Salvador: os coqueiros de Itapoan, os pescadores no mar em suas jangadas, o próprio Caymmi tocando violão...

Se eu já amava o Caymmi, certamente depois daquela apresentação, passei a admirá-lo muito mais, a prestar mais atenção na sua musicalidade, a conhecer melhor o seu repertório e perceber o seu estilo, o seu diferencial estético, no cenário da música popular brasileira.

Não sei se o Gut se lembra disso, mas eu nunca vou me esquecer! Fico sempre muito emocionada quando o ouço e vejo cantar, junto com o Sá, companheiro inseparável e o saudoso Rodrix, por todas essas conexões que a sua música, a imagem da sua pessoa, consegue estabelecer entre e a minha vida e tantos fatos históricos. Muita luz pra você, Gut Guarabyra. Tenho muito carinho pela Tonica, sua irmã, que não sei por onde anda.

Por causa disso, quero colocar aqui na minha página, para compartilhar com os amigos e amigas, os antigos e os novos, uma música do Caymmi muito singela, que toca fundo o meu coração:

A Mãe d”água e a menina

Estou cansado de andar na areia
Estou cansado de na areia andar
Procurando, eu mais sinhazinha,
A meninazinha que sumiu no mar

Procurando eu mais sinhazinha
A meninazinha que sumiu no mar

A Mãe d”água levou a menina
A Mãe d”água levou a menina
Levou, levou, levou
Levou, levou, levou

Estou cansado, eu mais sinhazinha
De andar na areia, de na areia andar
De repente nós vimos a menina
Toda enfeitadinha, no mesmo lugar

De repente nós vimos a menina
Toda enfeitadinha, no mesmo lugar

A Mãe d”água voltou com a menina
A Mãe d”água voltou com a menina
Voltou, voltou, voltou
Voltou, voltou, voltou .

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