Paz e amor, nos olhos dos outros, é refresco - Bruno Medina

Em 15 de agosto de 1969, há exatos 40 anos, o mundo conhecia Woodstock, sem saber que, após este dia, nunca mais seria o mesmo. O festival, anunciado como uma “celebração aquariana”, representou muito mais do que poderiam sonhar seus idealizadores; em apenas um fim de semana sagrou-se como o mais influente de todos os tempos, bem como a principal vitrine para os movimentos de contracultura que se opunham a caretice e a intolerância política, social e sexual vigentes na época. O resto, é história.

O fato é que o ideal de paz e amor, difundido pelos hippies e contestado desde sempre por sua utópica natureza, nunca esteve tão próximo de se tornar realidade como naqueles 3 dias. O legado deste inigualável evento sobrevive até hoje na imaginação dos aficionados pela boa música, sobretudo entre aqueles que ainda consideram ser possível de alguma forma repeti-lo.

Ledo engano. Em 1999 uma tentativa de reeditar o festival, em virtude de seu aniversário de 30 anos, terminou em quebra-quebra, pancadaria, incêndios e casos de estupro. Prova, indiscutível, de que os tempos já eram outros. Recentemente um projeto semelhante nem saiu do papel, sucumbiu por falta de quem o financiasse. Melhor assim.

Posto isto, a seguir, um top 10 contendo razões pelas quais Woodstock seria impensável atualmente:

1. Um evento em que se padece por falta de banheiros, tendas de alimentação, atendimento médico, local apropriado para camping e por engarrafamentos quilométricos pode ter despertado compaixão em 1969; em 2009, suscitaria reclamações e processos judiciais.

2. Considerar que um festival de rock atrairia público estimado em meio milhão de pessoas sem recorrer à escalação de bandas de apelo radiofônico e artistas cujo carisma supera o talento é utopia maior do que acreditar na viabilidade da paz e do amor.

3. E o que dizer do Motel El Monaco, única hospedaria da região? Sem sala de ginástica, heliporto, wi-fi zone, telão de plasma, jacuzzi, cama king size… duvido que as estrelas de hoje topariam passar sequer uma noite lá.

4. Quatro jovens se conhecem, a partir de um anuncio de jornal, e resolvem tocar um projeto que se torna o maior encontro musical da história. Bonito, mas sem se associar a um grande patrocinador, daqueles que metem uma logo-marca gigante da empresa atrás do palco? Impossível.

5. Isso sem mencionar que reunir num mesmo festival um elenco a altura de Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Who, Crosby Still, Nash & Young, Gratful Dead e Creedence Clearwather Revival seria, no mínimo, bastante improvável.

6. Complicado, também, seria encontrar hoje em dia uma plateia disposta a acreditar que um festival de música pode chegar a transformar o mundo para melhor.

7. Os hambúrgueres eram vendidos por U$ 1, o que nem na época representava muito dinheiro, e ainda teve gente que reclamou de exploração. Mal sabiam eles como isso iria piorar.

8. Apesar de ser idealizado como um evento comercial, quando a organização percebeu que o público atraído superava em muito a estrutura disponível ordenou que as cercas fossem postas abaixo. Todo mundo entrou de graça e tudo certo. Quem duvida que, fosse agora, centenas tomariam cacetada ou parariam no xilindró?

9. Aliás, em 2009, que corpo de bombeiros, defesa civil ou similar liberaria um evento para 500 mil pessoas muito loucas numa fazenda lamacenta no meio do nada? Apesar da necessidade de se declarar calamidade pública na região, uma catástrofe maior foi evitada e apenas 2 pessoas morreram. Isso sim é sorte.

10. Woodstock, tal como foi, não seria possível nem no ano seguinte, quiçá 40 anos depois. O trauma na cidade que abrigou o festival, Bethel, foi tamanho que logo após o encerramento votou-se uma lei que impedia qualquer iniciativa semelhante no futuro. Paz e amor, nos olhos dos outros, é refresco!

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