Pedido de excomunhão – Carta de Maíra Kubík Mano ao papa

- Escrevi essa carta ao Papa Bento XVI. Acabei de enviá-la por email ao Vaticano (benedictxvi@vatican.va) e também vou colocá-la no Correio. Fiz em português e inglês, para que não restem dúvidas sobre meu pedido.




À Sua Santidade Papa Bento XVI
00120 Via del Pellegrino
Citta del Vaticano


São Paulo, 28/10/2010

Prezada autoridade papal,

Eu, Maíra Kubík Mano, cidadã brasileira, 28 anos, venho, por meio desta, solicitar à Igreja Católica Apostólica Romana minha excomunhão.

Fui batizada involuntariamente, quando tinha poucos meses de vida, pelos meus pais. Eles nada mais fizeram do que seguir a tradição de seus antepassados e não pretendo nem vou responsabilizá-los por isso.

Contudo, aos 9 anos, fui de livre e espontânea vontade tomar a comunhão (Eucaristia). Fiz o curso necessário para tanto na Igreja Nossa Senhora do Brasil, em São Paulo, SP, Brasil. Durante nove meses, aprendi os preceitos católicos e estudei passagens bíblicas. Em seguida, participei da cerimônia em que recebi, pela primeira vez, a hóstia, ou o corpo de Cristo.

Desde então, fui à missa poucas vezes e, com o passar do tempo, identifiquei-me cada vez menos com a doutrina católica. Ou, melhor dizendo, com aquela pregada diretamente pelo Vaticano.

É preciso aqui fazer uns parênteses para afirmar que tenho, isso sim, laços fortes com a chamada Teologia da Libertação, que inundou de solidariedade e compromissos sociais os rincões do Brasil na segunda metade do século XX. Mas com esse grupo, imagino, você não está preocupado. Conseguiu isolá-lo, desautorizá-lo, diminuí-lo. Porém, quero registrar aqui que não foi possível enterrá-lo. O exemplo de sua força segue vivo com D. Pedro Casaldáliga, Dom Tomás Balduíno e tantos outros.

De qualquer forma, cheguei à conclusão de que tenho um desacordo absoluto e completo com Sua Santidade, sem possibilidade de repactuação. Entre os pontos mais prementes sobre os quais temos visões diametralmente opostas estão legalização do aborto, casamento gay e utilização de preservativos durante o ato sexual. Isso só para começar a conversa. Poderia discorrer páginas e mais páginas sobre o lugar subalterno e humilhante que vocês têm reservado às mulheres durante séculos a fio.

A gota d’água que me levou a redigir essa carta foi a ordem de Vossa Senhoria para que os pastores orientassem politicamente seus fiéis com base em preceitos morais, tendo em vista a eleição para a Presidência da República que ocorre no próximo domingo (31/10/2010). Bem, para mim o único preceito válido é o do Estado laico e considero um absurdo completo a Igreja se pronunciar sobre isso. Religião e governo misturados é uma fórmula maléfica, que prejudica as liberdades individuais e coletivas e só semeia o autoritarismo doutrinário.

E, como se tudo isso não fosse suficiente, atualmente eu me defino como atéia.

Sendo assim, peço que Sua Santidade seja sensível e caridosa o bastante para compreender que eu não quero mais ser considerada uma parte deste rebanho. Nem oficialmente, nem extra-oficialmente. Me conceda a excomunhão.

Obrigada desde já,

Maíra Kubík Mano

http://viva.mulher.blog.uol.com.br/


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Comentário de Carlos de Morais em 2 novembro 2010 às 21:05
Excelente carta e extremamente inteligente e com absoluta clareza; So que eu gostaria de enviar para alguem e não vejo como. A não ser a ginástica de transfererir para o microsoft office e depois enviar. Infelizmente e o que vou fazer.Parabens!
Comentário de Marçal, T. em 2 novembro 2010 às 21:10
Simples: Crtl C (para copiar) & Crtl V (para descarregar).
Comentário de Stella Maris em 2 novembro 2010 às 22:48
marçal.
belo post,
abçs.
Comentário de José Safrany Filho em 2 novembro 2010 às 23:25
Maíra Kubik Cano, minha total solidariedade pela sua iniciativa. Oxalá seja seguida por milhões!
Apenas penso, embora tenhamos que ser cortezes e educados, coisa que esses conservadores, anacrônicos e reacionários não são, que sua carta é educada demais, com os tratamentos formais que nos foram impostos pela mesma educação do sistema. Um sujeito como esse papa, que vem de família, toda ela, serviçal do nazismo e ele, embora tentasse ocultar, como o fez com seus pedófilos, até dentro da própria família, não merece o mínimo de respeito e consideração porque ele não o tem por ninguém. O monstrengo, que nada tem de comum com Cristo, muito ao contrário, beatificou os prelados de sua igreja, centenas deles, da filial espanhola, que ajudaram o ditador nazi-fascista Franco, a assassinar os revolucionários que tentavam defender a liberdade e a soberania do povo daquele país. Literalmente, pegaram até em armas, padres e até muitos graduados, para promover a canificina. Ademais esse papa aí, o segundo de hitler - se é que não há mais algum enrustido pela história, tem a ambição nada discreta de beatificar pio-xii, o primeiro papa de hitler. Precisamos de mais argumentos? Bem, o desprezo que essa igreja sempre nutriu pelas mulheres já é mais grave ainda e merece toda a repulsa de quem tem um mínimo de respeito por si mesmo!
Comentário de Paulo MP Oliveira em 3 novembro 2010 às 0:04
Só para complementar os argumentos bíblicos: quando Jesus disse "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus", referindo-se aos impostos que os judeus questionavam se deveriam pagá-los, Êle quis exatamente mostrar a separação que deve haver entre o estado e a religião...

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