Amado,
Certa vez escrevestes o seguinte: "-Eu fico mais uma vez emocionado profundamente em perceber como você consegue colocar na perspectiva correta o que está se passando entre nós". Meu amor, tu te enganastes, eu te enganei (talvez), eu me enganei...Eu coloco o que está se passando, ou se passou entre nós na perspectiva de quem ama! Eu não coloco na perspectiva correta, eu não quero colocar na perspectiva correta!
Eu quero continuar quebrando pactos, rasgando códigos de conduta e racionalidade, solapando meus discursos de afastamento e te escrevendo besteiras e me entregando em cada Estado da geografia errante de nossos encontros, em cada estado de alma da geografia perfeita do nosso encontro, como quando te convidei a me amar.
Quero continuar sendo incoerente e cada vez mais...quero, eu te amar, o que é ainda melhor que ser amada por ti. Tu me transbordas a alma e somos um distantes e longínquos em nossos tantos Estados-estados.
Quando estivestes aqui, neste mesmo apartamento, de onde te escrevo, para me dar um último beijo de despedida, quando te vi atravessar o portão e entrar em um carro estúpido que te levaria a um aeroporto estúpido para um vôo estúpido que por fim te arrastaria para um ponto distante, me senti só como nunca. Mais do que isto, quando te ausentastes de mim, me ausentei também.
Li sobre Rimbaud que, decidindo se aventurar por Harar, inadaptado ao clima e doente retornou a Paris onde tampouco conseguiu adaptar-se, já era um nômade- o que redundou em sucessivas viagens de ida e volta que se transformaram em agônica e insatisfatória peregrinação.
Hoje me sinto um Rimbaud, perambulando por aí, ausente de mim, junto a ti, de volta a algo que já não reconheço como eu- Estou em Paris e queria estar em Harar. Nada me alivia; estou febril...esta é a segunda vez que te escrevo...perdi quase cinco páginas do inventário sentimentalóide que já havia escrito, por que apertei em algum botão sem sentido de computador, única testemunha das páginas que arranquei do coração, das letras que arranquei da pele. Tenho vontade de chorar e me sinto como uma criança perdida. Novamente te peço: -Me guia? Pega na minha mão e me guia? Estou em Harar....Não sei o que fazer no deserto. Não sei o que fazer com todos estes sentimentos, não sei o que será de mim quando repousar meus olhos no mar dos teus novamente. Será que um dia vou? Tu existes mesmo ou eu te alucinei?
Amante

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