1. A INQUIETANTE TRANSILVÂNIA

Há caminhos de perder,
caminhos a se perderem.
Ser, no inquietante ser,
o meio.

Há paisagens por se abrirem,
paisagens por descobrirem
do gesto fugaz, temível,
o nexo.

Há felinos na retina,
e asma esgarçando o peito,
agoniza em turvo ar,
um vulto.

Há dançarinos e tangos,
vampiros sorvendo o sumo
de uma artéria adormecida,
sem pulso.

Há fileiras de canções,
vozes crescendo em rumor,
mas não se avista de quem,
o grito.


2. PÁSSARO NO ESCURO

Passavam multidões
no olho entrecerrado,
e um punhal se abatia
e uma estrela transida.

Desdobravam-se filas
de aboio inumerável,
e os rebanhos pastavam
o segredo mais doce.

Houvera uma cancela,
uma cantiga nela,
e o córrego corria
aos pés de vento acesos.

Havia um mastro, e vela,
singrando mares élates,
e a âncora caía
na areia agora muda.

Disseminavam-se sons
rasgando a hora antiga,
e uma adaga fria cortava
os pulsos do domingo.

Caiu uma pedra turva
na limpidez do lago,
e um triste olho do pássaro
minou linfa plangendo.

Os olhos só fitaram,
brunidos na vigília,
o peitoral das trevas
e aquela ave suspensa.


3. CANTIGA

As asas de um beija-flor,
no jardim veloz das horas,
descerrou a face estrema
com seu sorriso de apelos,

distendido na asa tarda
da ave de brisa endormida,
colhido no hálito fresco
do amor e de seu segredo.

Corola de passarinhos,
em nuanças de ouro e seda,
distendia um beijo meigo
e instalava um só convite.

O rosto amado se esmera,
por entre a cerração verde,
meio a fila de lanternas
nas luzes de um dia ameno.

Quando a ave move suas asas,
já se assentou o mistério,
do coração, da plumagem,
e das mãos, só de sossego.




POEMAS DE AMOR NÃO SÃO SEMPRE RIDÍCULOS


...ao revés, céleres e imantados,
persistem, insistindo, na voz
de quem os decifre
do coração da vida
demorado,
tarde da noite,
ou em clara madrugada
de êxtase,
de onde continuam
a ditar mais palavras
de mais um poema,
um poema,
antes que a noite se instale,
e o desolamento.

SONETO DE COITA DE AMOR
(Ditado por um cavaleiro à sua amada distraída em despetalar uma rosa)


A rosa, palpitando em meus dentes, ornasse
a cortina mais densa de brasa em meus beijos!
Mas, escrínio e mudez, tu te envolves em seda,
enquanto, com a cravelha, procuro o cadeado.

Imagino em minha boca o sabor mais desperto,
engrossando minha febre, num alcance de enlevo –
melhor é deslembrar esse enlace gozoso,
e bebê-lo no dia, a pascer horizontes.

Te imagino no leito, sonho ou devaneio,
eu, besta grave e lenta, libando teu peito,
para te oferecer cascatas de deleite.

Mas que importa! Rasguei, em incalculáveis horas,
com o desejo em fervor de adentrar a tua cona,
a concha de tua mão, roçando a língua morna.


O NOVO TORSO DE APOLO

Eu só vi tua cabeça e a percebi inteira.
Quando as pupilas amadureciam, eu vi
teu torso a brilhar mais do que uma tocha acesa,
na qual o teu olhar, de si mesmo saído

detém-se e reverbera. Ou então não poderia
teu mamilo cegar-me, e nem a doce curva
dos rins teria mãos de abrir o meu sorriso
até este teu centro, donde o sexo uiva.

Diversa vejo a carne densa e inaugurada
sob a curva de seda - nos ombros, a imagem.
Meu ser não fremiria, na pele selvagem,

e nem te deixarias além de suas raias
qual astro que se mira - nele não há quina
que não me toque, lenta, e diga: dá-me a vida.


GLOSANDO A GLOSA

Quem me roubou a minha dor antiga,
E só a vida me deixou por dor?
Quem, entre o incêndio da alma em que o ser periga,
Me deixou só no fogo e no torpor?
Quem fez à fantasia minha amiga,
Negando o fruto e emurchecendo a flor?
Ninguém ou o Fado, e a fantasia siga
A seu infiel e irreal sabor...

Quem me dispôs para o que não pudesse?
Quem me fadou para o que não conheço
Na teia do real que ninguém tece?
Quem me arrancou ao sonho que me odiava
E me deu só a vida em que me esqueço,
"Onde à minha saudade a cor se trava?”.
(Fernando Pessoa. Glosa.)



Quem me retorna a minha dor antiga
E só a morte me troca por dor?
Quem entre a ausência da alma em que o ser
se abriga,
Me vestiu só na água e no albor?
Quem fez à realidade minha amante
Colhendo o fruto e despertando a flor?
Alguém ou a Vida, e a realidade siga
A seu fiel e mais leal sabor...

Quem me dispôs para que eu alcançasse?
Quem me retira para o que contemplo
Na teia do sonhar que alguém lacera?
Quem me fincou à terra que me acolhe
E me deu só a morte em que me lembro,
“Onde à tua janela a ausência corre?”



SONETO DA PREMONIÇÃO



A ciência de saber que a vida segue
não diminui a dor de te perder.
Foste tu que bateste à minha porta,
abri-a par a par, e sem temer.

Entraste deslumbrado, eu, generosa -
vivera mais que tu, sempre a me ter,
doesse a corda louca e uivasse a rosa,
eu me esmerava em ser como mais ser.

Sei que um dia essa febre vai passar,
e vou lavar meu corpo com cuidado,
apagando o roteiro do desejo.

Espera e agora escuta: há um alarme no ar.
Em nossa porta, foi estilhaçado
o cadeado azul de nosso beijo.

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