por Helô e Henrique

CORRIGIDO
Vide "Atualização II" no final do post

Quando as revistas de ano de Artur Azevedo começaram a fazer sucesso a partir de 1875, os negros do Brasil eram ainda escravizados. A "Lei do Ventre Livre", de 1871, significara apenas um passo tímido para o fim da escravidão. A luta abolicionista tinha ainda um longo caminho a percorrer.

No entanto, muitos negros ou descendentes diretos de negros já se destacavam ou logo se destacariam na vida social, na política, na cultura e nas artes. Por seu lado, o teatro popular já exaltava a mulata, não apenas por sua beleza e formosura, mas também por sua inteligência e sagacidade.

Antes do fim da escravidão, Chiquinha Gonzaga e Antonio da Silva Callado já eram compositores respeitados, Machado de Assis já publicara alguns de seus mais conhecidos contos e romances e José do Patrocínio era um dos líderes da luta contra a escravidão. Todos negros ou filhos de negros.

Mas a cultura escravagista tinha raízes fundas, bem plantadas e perduraria mesmo depois de 1888. Nos teatros os negros não subiam aos palcos. Era feio mostrá-los ao público, embora circulassem pelas ruas e trabalhassem nos lares. Mas estavam nos bastidores e entre os músicos, nos fossos das orquestras. Os espetáculos dependiam em grande parte deles.
O teatro popular, sobretudo a Revista, revelava e ajudava a construir nossa identidade cultural, multifacetada e formada a partir de matrizes étnicas diversas, para a qual a população negra contribuía imensamente, com destaque para a música e os ritmos.

Os negros, contudo, teriam que esperar quase quatro décadas desde a abolição para chegar a um palco. Foi o Teatro de Revista que acolheu o talento dos nossos artistas negros. E só poderia ter sido ele! Mas, sua entrada em cena - nos palcos e também na sociedade - foi marcada por manifestações de desprezo, racismo declarado e deboches grosseiros. É um capítulo da história do nosso teatro que merece ser bem contado. O ano é 1926. Foi quando os teatros da Praça Tiradentes, no Rio, abriram suas cortinas para as duas primeiras atrizes e cantoras negras brasileiras: Ascendina Santos e a enigmática Rosa Negra, cujo nome verdadeiro é ainda desconhecido.

Na dissertação de Nirlene Nepomuceno, podemos observar o violento racismo de que foi alvo, por exemplo, a Companhia Negra de Revistas.

"Ao registrar a chegada ao Rio de Janeiro de uma companhia teatral popular de São Paulo, contratada pela empresa Paschoal Segreto para atuar no Teatro Carlos Gomes, em julho de 1926, O Malho, exteriorizando preconceitos, glosou artistas cujo biótipo fugiam à representação que o cronista tinha de profissionais envolvidos com a arte de representar, aproximando-os de atrações circenses.

Em certo dia da semana passada, um trem da Central, ou um navio do Lloyd, não se sabe bem, despejou, no Rio, um troço numeroso de caipiras, que logo ao desembarcar chamou a atenção de todo o mundo. (...) Deparando-se com o bando (...) e arreliado já por haverem trazido tanta costureira, tanto alfaiate, tanto pessoal do movimento(...) o René (...) mandou encostar o caminhão de reclames da empresa (...) e ordenou, já sem cerimônias: -Entra, negrada! (...) O chofer do caminhão-reclame passeou a macacada pela cidade, exibindo-a ao povo que lia em letras garrafais de cada lado do auto: Companhia Arruda - alguns dos curiosos especimens da coleção.

O advento da Companhia Negra de Revistas recebeu, desta parte da imprensa, tratamento diferenciado, variando negativa ou positivamente de acordo com o tipo de publicação e a fase vivida pelo grupo. Em determinados momentos, o nascimento e formação da troupe foram comemorados e o mérito da companhia reconhecido; em outros, porém, a companhia foi execrada, juntamente com seu fundador. Desde as primeiras informações a respeito da formação do grupo, contudo, transpareceu nas notícias dos jornais um violento racismo, representativo da situação que a população negra enfrentava no pós-abolição. Os registros iniciais na imprensa sobre a organização da companhia teatral formada unicamente por pretos e mulatos datam do início do ano de 1926 e mesclam ceticismo, perplexidade, entusiasmo e preconceito. O Malho optou por noticiar a formação do grupo, em fevereiro daquele ano, na forma de um fictício (e de mau gosto) classificado de procura-se.

Precisa-se de negros e negras, para a organização de uma companhia teatral destinada a enfeitiçar o Rialto. Devem ser absolutamente retintos e não muito horrendos, idade entre 16 e 40 anos, sabendo ler, escrever e dançar. Procurar o Sr. Mário Nunes, no Jornal do Brasil.

O referido classificado, publicado na coluna Theatros, vinha precedido de um informe em que a revista explicava que, devido ao marasmo porque passava o teatro após o carnaval, resolvera substituir a chronica theatral por anúncios que interessavam à classe teatral".
(...)

A autora cita ainda que O Malho, em outras ocasiões, lançou mão de entrevistas fictícias para satirizar a Companhia Negra de Revistas, De Chocolat e outros artistas negros, caso da atriz Ascendina Santos.

Trazemos, com exclusividade, a foto de Ascendina Santos e uma das entrevistas fictícias publicadas em O Malho (13-02-1926). É revoltante, mas necessária para que todos tomem conhecimento do racismo e preconceito sofridos por atores e cantores negros do Teatro de Revista.




Theatro Nacional

O Malho, sempre attento aos assumptos referentes ao theatro, solicitou por intermedio do Sr. Gastão Tojeiro, diretor da C. C. B., uma entrevista da Exma. Sra. D. Ascendina Santos, salvadora d'aquella heterogenea troupe e, quiçá, do theatro nacional.

Um telephonema gentil nos avisou: Mme. Ascendina vos espera, quarta-feira, no meio dia, no seu bungalow no morro do Pinto.

No dia e hora aprazados, lá estavamos. O bungalow só era no nome; a famosa artista explicou que aquella era a sua residencia temporaria, porquanto oscilla entre a Tijuca e Copacabana, um Ford e um Chevrolet, tudo posto á sua disposição por ardorosos paladinos do nosso theatro, alguns de nacionalidade lusa.

Deppois de a aconselharmos a acceitar os bungallows da Tijuca e de Copacabana, o Ford e o Chevrolet, iniciámos nossa palestra. Desejavamos saber como se fizera artista.

- Ué, gente, que bobage. Eu não me fiz, não sinhô, me fizéro. Aonde é que o sinhô já viu arguem fazê? Quem é bom já nasce feito...

- Mas sentia algum impulso pelo palco?

- Lá isso senti... Era hora de entrá e eu tava fazendo chiquê... "Seu" Tojêro, então, chegou perto de mim, me deu um impurço e eu entrei pelo parco...

- Muito bem! E qual foi a sua primeira impressão?

- Minha primeira impressão foi que eu tava acompanhando D. Julia á feira de sabbado na Praça da Bandêra. Aquelle mesmo povaréo e aquelles mesmos lusitanos, dando em cima da gente...

- E sempre que entra em scena não é victima do trac?

- Victima de que, moço? Ou eu entendi má, ou o sinhô disse uma besteira...
Explicámos o que era o trac; ficou admirada, pensára em cousa muito diversa e affirmou que não era creatura de tracs.

- Tou em scena como tou aqui; sei para quanto presto e tenho confiança em mim... O que eu gosto mais é da hora de dansá! A negrada fica maluca! Os branco pensava que nois não era capaz de fazê sucesso no parco, apezá de terem inzempro da Aracy e da Otia que, afiná de contas, são meio lá meio cá. Agora se convencêro. "Seu" Pinto do Ideá e do Recreio, já me tem mandado pra masi de cem recado... E eu nem causo! Sou fié e agárdecida ao "seu" Tojêro. Só sáio do Carro Gome pra formá companhia propria, de que serei a "estrela"! Já cunvidei inté o Doutô Jacarandá para "estrello".

- Com que então, grandes projectos?

- Mas de certo. Quero prová que os preto, no Brasil, são mesmo, ali, de facto! E vamo deixá dessa historia de dizê que são só os portuguez que gosta da gente" Meu camarim, no triatro, véve cheio! É portuguez, é intaliano, é hispanhó e muito brasilèro.. D'ahi o estrillo do João Luso...

- O portuguez leva a fama... D'ahi o estrillo do João Luso...

- Pois é. Não é só o "seu" João Luso, são um magote delles, e muitos dos jorná; quem é que não sabe que os jornalista são a gente mais sem vergonha do mundo?

- Obrigados!

- E não lhes faço favô nenhum. Bom. Tá na hora de tomá a minha ducha... É servido?

- Não, agradecido. Mas creio que ainda é cedo...

- Ao contrario, tou atrazada. Minha manicura chega d'aqui a quinze minuto, o cabererêro d'aqui a meia hora e a modista num deve tardá...

- Gratos á sua acolhida...

- De nada. Quando saí o artigo faz favô de levá lá no meu camarim. Ah! espere um pôco.

Esperamos. Voltou com um retrato onde se lia:

"A inlustrada redação do Maio, a umirde admiradora Açendina Santos" .

Beijamos-lhe a mão e partimos.


Observações:
- Foi mantida a grafia original.
- Na revista "O Malho", a coluna "Theatros" está sem assinatura. Segundo Nirlene Nepomuceno, autora da dissertação usada como fonte de pesquisas para o post, a responsabilidade da coluna era de Mário Nunes. Nossa equipe, entretanto, tem opinião diferente sobre a autoria da coluna (vide discussão nos comentários).



Fontes

- Dissertação "Testemunhos de poéticas negras: De Chocolat e a Companhia Negra de Revistas no Rio de Janeiro (1926-1927)" - Nirlene Nepomuceno - PUC/SP

- Revista "O Malho" - 1926

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Atualização I - 10/09/09

Encontramos uma foto da Companhia Negra de Revistas, na capa do livro "Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira" - Jota Efegê, volume I, edição FUNARTE (1978).

Vejam a alegria da troupe!


A capa do livro


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Atualização II - 15/09/09

Poucos dias após a publicação desse post, soubemos através do excelente livro "Corações De Chocolat - A História da Companhia Negra de Revistas (1926-1927)", de Orlando de Barros, que a atriz Ascendina Santos não era, como suspeitávamos, a tão procurada Rosa Negra. Fizemos algumas correções (destacadas em vermelho) e em momento oportuno traremos novo post explicitando melhor a história das duas atrizes.

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Comentário de Cafu em 6 setembro 2009 às 23:16
Parabéns a vocês por trazerem este tema ao debate. É revoltante mesmo. Se hoje o racismo ainda é um problemão, imagina naquela época com a abolição da escravidão tão recente.

Ôba vamos ter debate! Não acho possível, com os dados existentes, afirmar categoricamente que Ascendida dos Santos e Rosa Negra são a mesma pessoa. Talvez os jornais da época possam tirar dúvida sobre isso. E a pesquisa na Biblioteca Nacional continue na ordem do dia.
Vou colocar aqui o levantamento que fiz sobre a Companhia Negra de Revista e a Rosa Negra a partir do material que encontrei nos livros do Mario Nunes. Tenho os volumes 1, 2 e 3. Falta o último que é de 1930 em diante. Como são livros de 1956, e fora de edição, vou disponibilizar para que todos possam acompanhar as anotações do Mario Nunes.

"NEGRA DE REVISTA (1926)
Organizada por Jaime Silva e De Chocolat, instalou-se no Rialto a primeira companhia constituída de negros, no Brasil.
Jandira Aymoré, Rosa Negra, Dalva Espíndola, Djanira Flora, Miss Mons, Soledade Moreira; e - De Chocolat, Guilherme Flores, Belisário Viana, Vicente Froés, Waldemar Palmièri, Domingos de Souza.
Vinte black-girls. Maestro-regente: Pixinguinha.

Julho,31 - Tudo Preto - De Chocolat. Música: Sebastião Cirino.
Duas vezes repleto com um público que queria divertir-se com o grotesco e com o ridículo. Enganou-se: assistiu a espetáculo normal deveras interessante, interpretação correta, ditos de espírito da comperage, números de canto e dança, bem executados e marcados, e até mesmo, revelação de pendores artísticos, que deixaram a melhor das impressões. A cortina Lá Vem Elas, alude à crise de empregadas, no Rio, se a moda pegar. Em cenário apropriado, a vedeta Dalva Espíndola, voz afinada e dicção clara, faz com chiste uma baiana; o samba, pelo conjunto, Cristo Nasceu na Bahia, enche a sala de entusiasmo, com Mingote, que muito agrada. Djanira Aymoré, também vedeta, canta com bonita voz, uma modinha e alcança sucesso ruidoso na cançoneta Ludovina. Le Roi S'amuse, cortina com De Chocolat e Dalva e Charleston, com a estrela, Rosa Negra, agradam muito. E assim os Grooms, repetidos três vezes; Pérolas Negras, chefiado pela estrela que, na Jaboticaba Afrancesada, cançoneta, provoca ovações. Outro número, repetido três vezes, As Banhistas, obedecendo a engenhosa marcação, com Rosa e Dalva. Fecha a revista apoteose à Mãe Preta. 'A raça negra quer evidenciar suas capacidades artísticas: oxalá o consiga e se esforce ardentemente pelo seu adiantamento e ilustração', comentei; atravessou agosto, a 23 - 50a.
Setembro, 1 - Tudo Preto, passando a intitular-se Preto e Branco,por haverem ingressado artistas brancos na companhia. Voltou depois a Tudo Preto.
Suspendeu os espetáculos a 19."

40 Anos de Teatro - Mario Nunes - 3º Volume. pg 51.


Para ajudar a entender o jargão de teatro, o nosso querido Dicionário do Teatro Brasileiro - Temas, Formas e Conceitos nos explica o que é "cortina" (eu , pelo menos não sabia):

CORTINA

Rápidos quadros cômicos interpretados, numa revista, à frente da cortina colocada atrás do pano de boca, que se levantava no início do espetáculo e só baixando no final. Esses números tinham como finalidade, além de divertir o público, possibilitar complexas mudanças de cenários, que estavam sendo feitas atrás da cortina.
(Eudinyr Fraga)
Comentário de Laura Macedo em 6 setembro 2009 às 23:18
Parabéns à dupla.
A associação da exclusividade da foto da Rosa Negra e o preconceito racial no meio artístico, em especial, no Teatro de Revista, engendraram os ingredientes desse belo e oportuníssimo post.
Quando De Chocolat, pseudônimo usado por João Cândido Ferreira, em sociedade com o português Jaime Silva (o único branco dessa empreitada) resolveram fundar a Companhia Negra de Revistas é óbvio que imaginaram a reação racista de inúmeros setores da sociedade que procuravam desqualificar o trabalho da Companhia, na grande maioria das vezes, utilizando-se de termos pejorativos, como ficou demonstrado nas fontes citadas nesse post.
Não só a Rosa Negra mas todos os seus colegas do elenco das revistas, Alice Gonçalves, Jandira Aimoré (na época namorada e futura esposa de Pixinguinha), Djanira Flora, Waldemar Palmier, Grande Otelo e muitos outros sofreram toda sorte de preconceitos.
Apesar de muitas águas terem rolado sob a ponte, infelizmente, ainda hoje, esse câncer que é o racismo, persiste em nosso meio.
Um super beijo.
Comentário de Cafu em 6 setembro 2009 às 23:22
"Negra de Revistas (1927)

Depois de demorada e proveitosa excursão pelos estados de Minas e São Paulo, onde foi muito aplaudida, a companhia que De Chocolat organizou e Jaime Silva emprezou, volta ao Rio e vai ocupar o República. O elenco foi melhorado: o número de grande atração é o de Grande Otelo, pequeno artista de seis anos de idade (afirma a reclame) que é um verdadeiro assombro: canta em diversos idiomas com uma verve e espontaneidade extrordinárias.
Março, 5 - Café torrado - Rubem Gill e João d'Aqui - espécie de potpourri, esketches, cançonetas, charleston, em que obtém sucesso Rosa Negra, Osvaldo Viana, Áurea Espíndola, Mingote. ' O clou foi a apresentação do pequeno Otelo, um crioulinho vivo e inteligente, que canta e declama com expressão e desenvoltura, e que viu seus números trisados entre ruidosos aplausos'. Encenação modesta
Suspendeu os trabalhos dia 13."

40 Anos de Teatro - Mario Nunes - 3º Volume. pg 91-92.
Comentário de Cafu em 6 setembro 2009 às 23:59
"BURLETAS E REVISTAS DA SÃO JOSÉ (1926)

Fevereiro, 26 - Café com Leite - Revista - Charge - Freire Júnior - Música de J. B. Silva (Sinhô) -
Como as anteriores agradou. Edith Falcão estreiou fazendo seis papeis, bonita plástica e bonita voz. Otília manteve alto nível em quatro figuras interessantes, e assim os demais;destacáveis o Chiquinho, de Denegri e Ascendina de Mariska, preta fazendo-se de francesa. Figurinos bonitosde Colomb, que apresenta também artísticos.
A 21 de março, parou: estava sendo remodelada.

A estréia da Companhia de Grandes Revistas teve lugar em abril. É a maior já organizada no Brasil: 120 figuras - 11 vedetes, 12 cômicos, 36 girls, 10 bailarinas, 20 professores de orquestra, 10 black-girls, além de um sem número de contra-regras, maquinistas, eletricistas, carpinteiros e costureiras.
Abril, 7 - Pirão de Areia - Marques Porto - Música: Assis Pacheco e Júlio Cristóbal - Teve foros de verdadeiro acontecimento teatral de grande repercussão, a inauguração da nova fase do São José.Foi auspiciosa a estréia: registra belo e bem sucedido esforço. Elenco de primeiras figuras
feéricos efeitos de luz, guarda roupa que rivaliza com o da Velasco, original, rico e de bom gosto; e assim a montagem suntuosa e artística, de alta valia. Sucesso absoluto o da revista, aplausos incessantes. É muito interessante. Agradaram as artistas portuguesas. Dulce tem bonita figura; Maria de Lourdes Cabral, voz sonora e educada, dança com graça. Edith Falcão, a mais nova das nossas vedetes, sobressai cantando, articulando bem as palavras, bonita e graciosa: vai em rápida ascensão. Os compadres, César Marcondes e Vitória Miranda, mantendo-se até o fim na linha de agrado. Antônia Denegri,provocante e flexível. Otília, o sucesso costumado. Alda Garrido fez sua primeira entrada em um número caipira, recebida com palmas e risadas durante vários minutos: merecidíssima sua popularidade. Artur de Oliveira, Luiza del Valle, Grijó Sobrinho, Alfredo Silva, José Loureiro são outros responsáveis pelas gostosas gargalhadas do público. Os melhores quadros são: Posto Policial, Palácio da Câmara, Tragédia Árabe, No Hall... Fantasias deslumbrantes: a apoteose amarelo e ouro do 1º ato, de Colomb, o cenário Crisantemo, com várias cortinas suas, a apoteosedo 2º, feérica, Chave de Ouro. O guarda roupa Manto da Fantasia, Folha de Parra, Plumas (cores berrantes), afinal todo ele, é magnífico, deve-se a Alberto Lima. Digno de menção o belo fundo estilizado de Sertaneja, bela concepção e execução de Lazary. Números de grande êxito: Foxtrotada (Otília); Couplet (Candida Rosa); Jazz-band (Alda); Java (Denegri); Ó Maria (Lourdes Cabral); Ascendinices, Rosa Negra e 8 black girls, o maoir sucesso da noite, por sua novidade. A música é toda viva e bonita; espetaculares o corpo de coros e o concurso coreografado das bailarinas; 20, desligaram-se Alda e Américo Garrido."

40 Anos de Teatro - Mario Nunes - 3º Volume, pg 44

Notem bem:
"destacáveis o Chiquinho, de Denegri, e Ascendina de Mariska, preta fazendo-se de francesa. Está absolutamente ambíguo: tanto pode ser a Mariska fazendo-se de Ascendina ou Ascendina fazendo-se de Mariska. (O Salvyano menciona a revista mas não registra nenhuma das duas no elenco, pg 257). Eu estou mais inclinada a achar que foi a Mariska que fez o personagem Ascendina. Ela é esta aqui (se não me engano li em algum lugar que era era francesa mesmo), na revista Off Side (1924):



Essa revista Pirão de Areia é a mesma que a Helô encontrou no O Malho e comentou em seu post anterior sobre a Rosa Negra. Onde estava escrito no programa : "Ascendina: Rosa Negra". Aqui o Mario Nunes chama o quadro de " Ascendinices".
Comentário de Cafu em 7 setembro 2009 às 0:53
Essa "entrevista" racista e sem graça não tem jeito de ter sido escrita pelo Mario Nunes, que era um crítico educado e respeitoso. Como vocês podem ver, pelos registros feitos sobre a Companhia Negra de Revista. São elogiosos e objetivos. Sem baixarias.

A "brincadeira" de mau gosto tem toda pinta de ter sido feita pela mesma pessoa que assinou como A. no texto abaixo (seria ele o Álvaro Moreira?):

"O Phênix aliviado, arejado, defumado, vai abrir as suas portas a uma grande companhia de revistas. Sabe-se já que a bailarina Olenawa com a sua troupe pertencerá ao elenco e que as figurantes, as coristas virão de Paris, Buenos Aires e de outras pensões chiques. Um quarto do êxito está garantido. O segundo quarto também: as peças, textos e música, serão gênero tesoura, com um pouco de todos as peças boas do mesmo gênero. Mas...cenários de Jaime Silva, num teatro moderno, para gente civilizada, em 1926? E as atrizes? E os atores? Eis o grupo simpático por exemplo: atrizes: Alda Garrido, Lia Binatti, Lyson Caster, Gui Martinelli, Antônia Denegri, Mariska, Carmem lobato, a pequena Gilka Loretti,; atores: Brandão Sobrinho, Pinto Filho, Danilo de Oliveira, Américo Garrido, Manoelino Teixeira, o pequeno Gil Loretti. Só faltaria um que cantasse-dizendo e fosse elegante...Um para fazer o Randal...Pode ser que o senhor Staffa o descubra e Caxambu. Em Poços de Caldas talvez fosse mais fácil...Ou então um preto, mais escuro que o Geraldo, mais civilizado que o falecido Eduardo Neves. Ou melhor, um índio, um preto e um português. Formariam o terceto da raça...ou, definitivamente, a Ascendina dos Santos e o português. Em poucos anos o elenco estaria notável e nacionalíssimo... O Senhor Staffa não precisa de conselhos. Nem eu estou dando conselhos ao simpático empresário. Sugestões, apenas...apenas, sugestões... E para o bem geral. - A"

Para Todos nº 372, 30 de janeiro de 1926.

Duas semanas após a estréia da revista carnavalesca Ai,Zizinha!. Segundo Mario Nunes: "Texto e música de Freire Junior. Feitio popularíssimo, descamba para farsa e o disparate, e nela irrompemblocos e ranchos cantando sambas e marchas. Priscila, Manuela Mateus, Júlia Vidal e Ivo Lima os melhores. Entrou para o elenco Armando Braga. Atravessou fevereiro." (Pg 48 e 49).

Salvyano sobre Ai, Zizinha!:" Logo a 15 de Janeiro o Teatro Carlos Gomes abre as portas para acolher um público interessado na revista-burleta carnavalesca Ai, Zizinha!, dois atos e 14 quadros de Freire Jr. musicada por José Francisco de FReitas. Sob a direção de Pinto de Morais, um elenco de nomes famosos transformou a peça em atração: Manoelino Teixeira, Pedro Celestino, Prescila Silvaa, Júlia Vidal, Carmen Lobato, Marina de Souza, Georgina Vieira Benildo de Freitas, Humberto Miranda, Ari Viana e Horácio Guimarães. A bilheteria gorda levou a peça a ter vários remontes no Democrata Circo, na Praça da Bandeira, a 4 de junho de 1927, a 26 de julho de 1930 e a 13 de agosto de 1932, sempre para um público fascinado e muitas récitas seguidas. A revista seguinte do Teatro Recreio, com o mesmo elenco, escrita por Vitor Pujol, chamou-se As Encantadoras. Ultrapassou as 100 representações". (Viva o Rebolado, pg 256)
Comentário de Helô em 7 setembro 2009 às 3:15
Nossa! Eu tô maluca ou os comentários agora ficaram invertidos?
Não apareciam os últimos, de cima para baixo? :)))
Cafu e Laurinha
Obrigada pelas contribuições. Vou lendo com calma e tentando fazer um contraponto pra ver se chegamos a alguma conclusão. O tema é nobre e merece dedicação.
Sobre a entrevista racista, Cafu, concordo com você que o estilo é mais parecido com o do Álvaro Moreira. Mas quando citei que a coluna era assinada pelo Mário Nunes, me baseei na dissertação da Nirlene quando diz o seguinte:

[logo após o classificado]
"O referido classificado, publicado na coluna Theatros, vinha precedido de um informe em que a revista explicava que, devido ao marasmo porque passava o teatro após o carnaval, resolvera substituir a chronica theatral por anúncios que interessavam à classe teatral. A coluna em questão era de responsabilidade de Mário Nunes, conceituado crítico de teatro que respondia pela coluna do gênero também no Jornal do Brasil, não sendo raro que assumisse posições opostas a respeito de um mesmo fato em um e outro periódico. Essa contradição, possivelmente, dava-se em função do preço e do público-alvo de cada veículo. Um exemplar do jornal diário custava, na ocasião, em torno de 200 réis, enquanto o preço das revistas ilustradas como Malho, Fon-Fon e Careta alcançava 1.200 réis, o que leva a inferir que seus leitores fossem diferenciados. O fato de o Jornal do Brasil, após as perseguições do marechal Floriano, definir-se como defensor dos pequenos e dos oprimidos reforça essa suposição e ajuda a entender porque as críticas de Mário Nunes à Companhia Negra de Revistas neste periódico, diferentemente do que ocorria em O Malho, tinham cunho positivo”.
Volto amanhã.
Beijos.
Comentário de Cafu em 7 setembro 2009 às 15:16
Helô, Henrique e Laura,

Como diz o Salvyano “pesquisar sobre certos assuntos no Brasil, é uma áfrica. Demanda tempo, além de engenho e arte, tempo ocioso, dons de adivinho, faro de Sherlock, paciência bíblica”.

Acho maravilhoso a Helô ter encontrado uma foto da Ascendina. Uma pista muito “quente”. Mas não considero uma prova definitiva. Os fatos ainda não permitem afirmarmos com todas as letras que Ascendina é a Rosa Negra. Não encontramos ainda crônicas, ou fotos, ou depoimentos que evidenciem os apostos explicativos tão ansiados por nós “Rosa Negra, a atriz Ascendida dos Santos”, ou “Ascendina dos Santos, a atriz conhecida pelo nome de Rosa Negra”. É possível que sejam a mesma pessoa? Sim. Ou Não.








Até hoje estou encucada com a citação feita pelo professor Jeferson Bacelar e trazida para o debate pelo Henrique, no post anterior sobre o assunto:

"(...)A imprensa negra, por meio do Clarim da Alvorada, embora três semanas após a estréia, ressaltou que também no "teatro ligeiro" se concretizava "a crescente evolução do homem de cor". Em seguida, fala dos precursores, como Ascendina dos Santos, Eduardo das Neves e Patápio Silva, cuja obra de reconhecimento prosseguia com De Chocolat, Sebastião Cirino, os artistas da Companhia e outros inúmeros cantores e músicos consagrados.(...)".

Notem que Clarim da Alvorada era uma publicação feita por negros para discutir a causa negra. Essa palavra precursores me chamou a atenção. Eduardo Neves e Patápio Silva (22/10/1880-24/03/1907) foram artistas importantes e referência à época, tanto pela qualidade da obra como pela questão de conquista de um lugar social numa sociedade escravocrata ou recém-escravocrata. São considerados como precursores, junto com Ascendida, pelo pessoal do Clarim da Alvorada. No Dicionário Cravo Albin e no Cifrantiga tem ótimas informações sobre o Patápio e o Eduardo das Neves (este citado também pelo misterioso A. de O Malho)
Dá margem à interpretação de que a Ascendina está mais próxima à esses dois como pioneira e desbravadora de caminhos, e que sua luta prosseguia com De Chocolat e os artistas da Companhia Negra. Como o teatro de revista comentava fatos, costumes, fazia crítica social e retratava a atualidade, talvez ela tenha "chacoalhado" de alguma maneira a sociedade da época, ou da época anterior (e virado referência e história) e merecido ser comentada pelas revistas Café com Leite (o quadro " Ascendina" de Mariska, preta fazendo-se de francesa") e Pirão de Areia (o quadro "Ascendinices" feito pela Rosa Negra e 8 black-girls).
É uma hipótese que poderia ser testada por mais pesquisas.

Patápio Silva (22/10/1880-24/03/1907)


Eduardo das Neves (1874 - 11/11/1919)
Também conhecido como Dudu das Neves, Palhaço Negro, Crioulo Dudu ou Nego Dudu. Foi funcionário da Central do Brasil de onde foi demitido ao participar de uma greve. Foi soldado do Corpo de bombeiros. Teve três filhos, Iracema, Araci e Cândido (Índio) das Neves, figura de grande importância na música popular de seu tempo.
(Dicionário Cravo Albin)

Olha o que o Eduardo fez em homenagem ao grande herói da terra da Helô e de todos os brasileiros.
Comentário de Teatro de Revista em 7 setembro 2009 às 18:12
Helô, Cafu e Laura,
De minha parte não tenho dúvidas de que Ascendina dos Santos é a Rosa Negra. Sei que falta um documento definitivo. Mas são tantas as referências e pistas ligando o nome Ascendina ao pseudônimo Rosa Negra que não podem ser mero acaso ou coincidência.
É curioso notar que mesmo a comunidade negra ligada ao teatro pouco fala sobre a Companhia Negra de Revistas e não dá muita bola para De Chocolat, Mingote, Rosa Negra ou José do Patrocínio Filho, o Zeca. As atenções vão todas para o Teatro Experimental do Negro de Abdias Nascimento, criado em 1944, quase 20 anos depois dos verdadeiros precursores. Aí parece haver outro tipo de preconceito, desta vez contra o gênero revista.
Grande Otelo falou sobre a Companhia Negra de Revistas num Roda Viva em 15 de junho de 1987. Confiram em http://www.rodaviva.fapesp.br/materia/203/entrevistados/grande_otelo_1987.htm
Tentei colocar o vídeo aqui e não consegui. Deve ser porque salvei o arquivo em ".flv". Helô, essa é com você.
beijão
Henrique Marques Porto
Comentário de Cafu em 7 setembro 2009 às 20:02
O Augusto de Freitas Lopes Gonçalves em seu Dicionário Histórico e Literário do Teatro no Brasil, cuja publicação, até onde eu saiba, só chegou à letra E (e estava prevista a obra completa, até o Z, que demandou 20 anos de pesquisa do autor), traz o seguinte verbete sobre Ai, ZIzinha!:

AI, ZIZINHA - Rev. bur. em 2 atos e 14 quadros de Freire Júnior, letra e mus. esta com alguns números de J, Freitas.
Tea. Carlos Gomes, 15 de Janeiro de 1926, Comp. Carioca de Bur.: Prescila Silva, Júlia Vidal, Marina de Souza, Carmem Lobato, Georgina Vieira, Manoelino Teixeira, Pedro Celestino, Benildo de Freitas, Humberto Miranda, Ary Viana, Horácio Guimarães; dir. Pinto de Moraes; telão-cortina-desenho de Francisco Acquatone, execuçãode J. Barros; cen. Angelo Lazary, Jaime Silva.
Democrata Circo, 4 de Junho de 1927, Comp. Oscar Ribeiro: Clara Branca das Neves - Estrela Negra; outros.
Democrata Circo, 26 de julho de 1930, Com. Oscar Ribeiro.
Democrata Circo, 13 de agosto de 1932, Comp. Oscar Ribeiro.

Esta Clara Branca das Neves bate com a referência da foto encontrada pela Helô. Será que de Estrela Negra passou para Rosa Negra? Bem provável, né? Ou não. KKKKKKKKKKKK.
Êta dificuldade de decifrar a linguagem telegráfica, abreviada, e sem o contexto ou a análise, dos pesquisadores de outros tempos. Muitas informações parecem anotações resumidas e para gente décadas depois parece um quebra-cabeça faltando várias peças e a imagem final.
Comentário de Henrique Marques Porto em 7 setembro 2009 às 21:13
Helô, Cafu e Laura,
Aí vai o trecho da entrevista com Grande Otelo em 1987. Postei no YouTube só para copiar o código html. Mas vou deixar lá como peça de divulgação da página.
beijão
Henrique Marques Porto

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