Em entrevista, o secretário de segurança pública do Rio, José Mariano Beltrame, afirmou que, se houve excesso dos policiais na violência contra os professores, na Câmara municipal, também houve da parte dos professores. Para o governo carioca, e por que não dizer para o governo em geral, os professores são perigosos, uma ameaça à sociedade, e por isso precisam ser tratados a cassetete e a spray de pimenta.

Realmente, os professores são uma ameaça à sociedade: são eles que abrem os olhos dos cegos e permitem-nos ver a luz do conhecimento. Sem professor, a sociedade está livre de tudo aquilo que causa incômodo ao bem-estar dos governantes. Sem professor não há leitores capazes de decifrar o a-b-c e enxergar nas entrelinhas os seus direitos roubados pela trupe alfabetizada para usurpar direitos.

Sem professores, a sociedade fica refém dos que sabem ler, escrever e fazer leis para reprimir quem ouse se rebelar. Sem professores, a sociedade torna-se o mundo ideal para os marqueteiros de plantão, que vendem a ilusão do mundo movido pelo capitalismo, muito próximo do mundo apresentado por agenciadores do reino espiritual. Sem professores, a sociedade torna-se ideal para qualquer um que pode além do que deve. Sem professores para ensinar e clarear vistas, o mundo caduca e dirige-se para a prisão, onde quem manda não é a lei, mas o rei.

Professores são tão perigosos que precisam ganhar mal para não poderem comprar além do que precisam. Se lhes sobrar algo mais, podem inflar o País com suas ostentações e, assim, servirão de mau exemplo aos seus alunos.

Na sociedade onde quem tem um olho é rei, professor é muleta que serve como acessório aos cegos. Na sociedade onde professor é visto como ameaça e precisa apanhar de policial, que pulou do ventre da mãe para o quartel, não há espaço para reivindicação por salário justo, por melhorias nas escolas, por respeito.

Na sociedade onde educação é utopia que se traveste de cores partidárias, professor é como sacola plástica em supermercado: serve para carregar tudo o que nele couber. Professor só não serve para ter respeito, não serve para ser valorizado. Valorizá-lo por que, se são eles, os mestres, os amantes de armas pesadas como o giz, o pincel e os livros. Armas que deformam mentes, que deturpam conceitos, que abrem portas para a fuga de milhões do cativeiro.

Na sociedade onde um doutor foi presidente e deixou universidades aos pedaços e um metalúrgico possibilitou milhares de jovens terem acesso à universidade, via Enem, professor é peça de museu. Não tem valor utilitário.

Na sociedade que constrói Estádios de primeira, com cadeiras padrão Fifa, e ostenta-os como obras primas, professor não passa de pena de tinteiro. Para quê construir escolas com padrão MEC, se os professores não precisam trabalhar em local de luxo e aluno só passeia por lá em tempo de provas? Estádios valem mais, pois é lá que fanáticos entregam seu salário para pagar ingressos e ver deuses que ganham milhões desdenhar dos que um dia lhes deram pontes.

Na sociedade onde policial bate e professor apanha como se fosse bandido, e bandido ganha, preso, salário melhor que o de um professor, títulos são meros rilhos que apertam quando mostrados na hora certa.

Na sociedade onde o bandido é o professor e o professor é o bandido, onde spray de pimenta e cassetete indicam o lugar do professor, livros são como pólvora e escolas são como esconderijos secretos de gente traiçoeira e perigosa.

Por que pagar bem aquele que abre os olhos dos que apenas podem enxergam sem entender? Por que permitir que os contrabandistas do saber comprem carro, se eles podem andar a pé, no Sol do meio dia, e assim encurtar-lhes a vida para não onerar os cofres públicos?

Não. Não há necessidade de professor no País do futebol. Bolas, estádios, show de Ivetes a custo de meio milhão, espetáculos de botos, carnaval, copas, olimpíadas valem mais do que esses miseráveis que precisam apanhar para aprender a não ensinar o caminho das pedras aos escravos que constroem pontes para os alfabetizados poderem reinar livremente sem ser atormentados.

E ainda há quem se atreva a dizer que educação precisa ser prioridade neste País. Pra quê? Bola vale mais que um professor, então ensinemos o povo a jogar bola para entreter o miserável do professor nos fins de semana.

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